IAC perde dez programas de melhoramento genético por falta de pesquisadores, aponta levantamento
Centro de Grãos e Fibras, do Instituto Agronômico de Campinas, teve pesquisas com dez culturas interrompidas nas últimas décadas; outros sete programas seguem com apenas um cientista
Publicado em: 24/09/2026 às 13:30hs
O Centro de Grãos e Fibras do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) enfrenta uma redução no quadro de pesquisadores que já levou à interrupção de dez programas de melhoramento genético nas últimas décadas. O levantamento é da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) e aponta impactos sobre culturas estratégicas para a agricultura, como soja, arroz, algodão e trigo.
Segundo a entidade, os programas interrompidos envolvem arroz, crotalária, algodão, mamona, girassol, gergelim, aveia, trigo, triticale e soja. A redução estaria relacionada principalmente à aposentadoria ou ao falecimento de pesquisadores responsáveis pelas linhas de trabalho, sem reposição dos profissionais.
O Centro de Grãos e Fibras está sediado na Fazenda Santa Elisa do IAC, em Campinas, e integra a estrutura da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
Pesquisas de melhoramento genético estão sob pressão
Os programas de melhoramento genético têm entre suas atribuições o desenvolvimento de novas cultivares e a conservação de linhagens e variedades utilizadas em pesquisas. Esses materiais também integram bancos e coleções de germoplasma mantidos pelo instituto.
De acordo com a APqC, sete outros programas atualmente contam com apenas um pesquisador: adubos verdes, milho, milho-pipoca, grão-de-bico, sorgo, sorgo forrageiro e vassoura.
Em algumas dessas culturas, a manutenção da produção de sementes continua, mas sem a presença de um melhorista dedicado. Para a associação, essa situação não assegura, por si só, a continuidade dos programas de pesquisa e desenvolvimento de novas variedades.
“A falta de novos pesquisadores suficientes para assumir as linhas de pesquisa cria um apagão científico. Hoje, além de programas de melhoramento paralisados, alguns bancos de germoplasma estão sem a manutenção adequada”, afirma Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.
Bancos de germoplasma exigem manutenção contínua
Os bancos de germoplasma reúnem materiais genéticos que podem ser utilizados em programas de melhoramento. Entre as características de interesse estão resistência a doenças e pragas, tolerância à seca, altas temperaturas e outras condições adversas.
A preservação desses materiais, porém, não se limita ao armazenamento de sementes. Parte dos acessos precisa ser levada periodicamente ao campo para multiplicação, avaliação e renovação.
Segundo Lutgens, a manutenção também pode exigir procedimentos específicos para evitar cruzamentos indesejados.
No caso do milho, por exemplo, determinadas linhagens dependem de isolamento e polinização controlada, o que demanda equipes especializadas e acompanhamento contínuo.
A APqC afirma que a falta de manutenção já resultou na perda de germoplasma de girassol após o falecimento da pesquisadora responsável pelo programa.
Conhecimento acumulado pode levar décadas para ser reconstruído
Outro ponto destacado pela entidade é a relação entre os bancos de germoplasma e os programas de melhoramento. O desenvolvimento de novas cultivares depende não apenas da disponibilidade do material genético, mas também do conhecimento acumulado sobre sua utilização.
“O conhecimento das técnicas de melhoramento é resultado de anos de pesquisa e não é recuperado automaticamente com a contratação de outro profissional”, afirma Lutgens.
Os materiais conservados podem adquirir importância muitos anos depois de serem incorporados aos acervos. Uma característica genética inicialmente pouco utilizada pode se tornar estratégica diante do surgimento de uma nova doença, praga ou condição climática.
Centro de Grãos e Fibras passou de 22 para sete pesquisadores
A redução do quadro do IAC também aparece em documentos históricos do próprio instituto.
Em relatório técnico produzido em agosto de 2009, a direção do IAC alertava para o impacto das aposentadorias sobre o quadro científico. O documento estimava que, sem reposição, o número de pesquisadores poderia cair cerca de 39% em cinco anos e 79% em dez anos.
Naquele período, o IAC contava com 197 pesquisadores. No Centro de Grãos e Fibras, eram 22 cientistas, depois de uma redução de 15 profissionais entre 2005 e 2008.
O relatório já apontava a necessidade de recomposição das equipes responsáveis por pesquisas com arroz, trigo, outros cereais de inverno, soja e algodão, além de trabalhos relacionados à tolerância de culturas a temperaturas elevadas e déficit hídrico.
Atualmente, segundo o levantamento da APqC, o Centro de Grãos e Fibras conta com sete cientistas.
Pesquisadores também deixaram o IAC para a Embrapa
Além das aposentadorias e dos falecimentos, o Centro perdeu três pesquisadores que passaram a atuar em programas de melhoramento da Embrapa.
A APqC relaciona parte dessa movimentação às diferenças de remuneração entre as carreiras científicas do Estado de São Paulo e da empresa federal.
A associação também questiona mudanças recentes na carreira de Pesquisador Científico. A Lei Complementar nº 1.435/2025, em vigor desde dezembro de 2025, modificou a estrutura da carreira, extinguiu o Regime de Tempo Integral (RTI) e a respectiva comissão e ampliou de seis para 18 os níveis de progressão funcional.
Segundo a APqC, pontos da nova estrutura ainda dependem de regulamentação. A entidade também informa que obteve decisão judicial, em ação civil pública, impedindo que o Estado exigisse dos pesquisadores a opção pelo novo regime remuneratório antes dessa regulamentação.
Áreas experimentais são fundamentais para conservar sementes
A manutenção dos bancos de germoplasma depende também das áreas experimentais. É nesses espaços que materiais retirados das câmaras de conservação podem ser cultivados, avaliados e multiplicados.
As áreas são utilizadas ainda para o desenvolvimento de novas cultivares e para a produção de sementes destinadas aos agricultores.
Atualmente, segundo o levantamento, há produção de sementes de arroz, amendoim, crotalária, milho, mamona, triticale, sorgo forrageiro e vassoura.
O trabalho exige planejamento porque diferentes materiais precisam ser mantidos em condições específicas para evitar contaminação genética e cruzamentos indesejados.
Além disso, a avaliação de uma cultivar precisa considerar diferentes ambientes. A rede de experimentação permite analisar o comportamento dos materiais diante das variações de solo, clima e pressão de pragas existentes no Estado.
Fazenda Santa Elisa integra estrutura de pesquisa
São Paulo possui atualmente 39 áreas de pesquisa agropecuária, segundo as informações apresentadas pela APqC.
Entre elas está a Fazenda Santa Elisa, em Campinas, pertencente ao IAC. A unidade abriga experimentos agrícolas e parte dos bancos de germoplasma do instituto, incluindo materiais relacionados à cultura do café.
A diversidade das áreas experimentais é importante porque o desempenho de uma cultivar não pode ser determinado a partir de uma única condição de solo e clima. A avaliação em diferentes ambientes permite identificar como os materiais respondem às condições encontradas nas regiões produtoras.
Último concurso teve 37 vagas
O último concurso para pesquisadores científicos dos institutos vinculados à Secretaria de Agricultura e Abastecimento foi autorizado em 2022 e ofereceu 37 vagas.
Os aprovados foram distribuídos entre os sete institutos da pasta: APTA Regional, IAC, Instituto Biológico, Instituto de Economia Agrícola (IEA), Instituto de Pesca, Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e Instituto de Zootecnia (IZ).
Para a APqC, o número de vagas não foi suficiente para recompor a redução acumulada das equipes e atender à quantidade de linhas de pesquisa existentes.
A entidade também chama atenção para a redução das carreiras de apoio, que dão suporte a atividades de campo, laboratório, manutenção e administração.
Falta de pesquisadores pode afetar desenvolvimento de novas cultivares
Para a presidente da APqC, a redução das equipes científicas ultrapassa a questão administrativa e pode alcançar diretamente o setor produtivo.
O argumento da associação é que os programas de melhoramento contribuem para o desenvolvimento de cultivares adaptadas às condições de produção, com características relacionadas à resistência a pragas e doenças e à tolerância a diferentes condições ambientais.
A continuidade dessas pesquisas também está associada à preservação dos recursos genéticos que podem ser utilizados pela agricultura diante de novos desafios.
“O impacto chega ao agricultor e à vida das pessoas. É a pesquisa que desenvolve variedades mais resistentes, permite produzir com menos insumos, responde às mudanças climáticas e contribui para reduzir perdas”, conclui Helena Lutgens.
O cenário descrito pelo levantamento coloca em evidência um desafio de longo prazo para a pesquisa agrícola paulista: manter pesquisadores, renovar equipes e preservar o conhecimento científico necessário para transformar recursos genéticos em novas tecnologias para o campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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