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Pesquisas

Cânhamo no Brasil: estudo propõe avaliar limite de THC para cultivo em clima tropical

Nota técnica de pesquisadores da Embrapa e instituições parceiras aponta desafios de adaptação das variedades e recomenda discutir parâmetros específicos para a produção de fibras, grãos e sementes


Publicado em: 06/11/2026 às 09:30hs

Cânhamo no Brasil: estudo propõe avaliar limite de THC para cultivo em clima tropical

O desenvolvimento do cânhamo industrial no Brasil depende de sementes adaptadas ao clima tropical e de regras que considerem as condições de produção do país. Essa é a avaliação apresentada na Nota Técnica nº 01/2026 do projeto Hemptech Brasil, elaborada por pesquisadores da Embrapa e do Instituto Ficus, com participação da Associação Nacional do Cânhamo Industrial.

O documento analisa as implicações agronômicas, regulatórias e comerciais do limite de 0,3% de tetrahidrocanabinol (THC), composto associado aos efeitos intoxicantes da cannabis. Os autores recomendam que o Brasil avalie a adequação desse parâmetro aos futuros usos industriais da cultura, mantendo licenciamento, fiscalização e monitoramento.

A discussão envolve o potencial da planta para fornecer matérias-primas destinadas a fibras, papel, alimentos, cosméticos e materiais de construção, além dos obstáculos para estabelecer uma cadeia produtiva nacional.

Por que o limite de 0,3% de THC está em debate

Segundo a nota técnica, o percentual de 0,3% teve origem em um critério científico de classificação de tipos de cannabis e, posteriormente, foi incorporado a regulamentações agrícolas. Sua definição original, portanto, não foi voltada ao cultivo em todas as condições agroclimáticas.

No Brasil, a Anvisa estabelece requisitos para o cultivo de variedades de Cannabis sativa L. com THC de até 0,3%, destinado exclusivamente a finalidades medicinais, farmacêuticas ou de pesquisa. A atividade depende de autorização e do cumprimento das exigências aplicáveis. Esse enquadramento não corresponde a uma autorização geral para produzir cânhamo destinado a fibras e grãos. gov.br

Para os pesquisadores, a construção de regras para os usos industriais precisa considerar tanto o controle da atividade quanto o comportamento das plantas nas diferentes regiões brasileiras.

Clima tropical pode antecipar florescimento e reduzir produtividade

Um dos principais desafios está na adaptação genética. De acordo com o estudo, muitas variedades disponíveis foram desenvolvidas em países com dias longos durante o verão.

Nas regiões tropicais, onde a duração diária da luz varia menos ao longo do ano, essas plantas podem florescer precocemente, apresentar menor crescimento e produzir menos.

Temperatura, radiação solar e disponibilidade de água também podem influenciar o teor de THC. Conforme o documento, essas variações podem ocorrer mesmo com sementes de cultivares certificadas, selecionadas originalmente para apresentar baixos níveis do composto.

A avaliação reforça a importância de pesquisas nacionais para identificar materiais adequados às condições de cultivo do Brasil.

Regras influenciam custos e segurança do produtor

A nota técnica aponta que limites pouco ajustados às condições locais podem ampliar a insegurança de quem produz. Uma lavoura implantada com material certificado pode apresentar variações no teor de THC associadas ao ambiente.

Os custos de testes, documentação e controle também pesam na viabilidade econômica, especialmente em atividades voltadas a produtos de menor valor por unidade, como fibras e grãos.

Outro entrave é a dependência de variedades estrangeiras. Sem materiais adaptados, o produtor pode enfrentar desempenho agronômico insatisfatório, dificultando a competitividade da cadeia nacional.

Na avaliação de Larissa Uchida, CEO da CannExp, a definição dos parâmetros interfere diretamente nas decisões de investimento e no desenvolvimento de novos produtos. Ela defende que o debate considere a diversidade climática e produtiva brasileira.

Pesquisadores sugerem avaliar parâmetros de 0,5% ou 1%

Para os usos industriais ainda sujeitos à regulamentação, os autores recomendam analisar alternativas como 0,5% ou 1% de THC, com base em evidências científicas e experiências internacionais.

A sugestão é uma proposta para discussão, e não uma alteração das regras vigentes. O documento associa essa avaliação à manutenção de licenças, fiscalização, acompanhamento técnico e revisão contínua dos resultados.

A nota também destaca experiências em que há parâmetros distintos para as variedades utilizadas na semeadura e para a avaliação das plantas no campo. A abordagem considera que o resultado final depende da interação entre genética, clima e manejo.

Potencial econômico vai além do mercado medicinal

O interesse do agronegócio pelo cânhamo está ligado à diversificação de matérias-primas e às oportunidades em bioeconomia. Fibras, sementes e outros componentes da planta podem atender diferentes segmentos industriais, desde que existam condições técnicas, comerciais e regulatórias para isso.

O material cita estimativa da consultoria Kaya Mind de que o mercado legal e correlato de cannabis movimentou aproximadamente R$ 1,94 bilhão em 2025. Também menciona cenários de regulamentação mais ampla com potencial de até R$ 51 bilhões anuais.

Esses valores abrangem o mercado de cannabis e não devem ser interpretados como estimativas exclusivas para o cânhamo industrial.

ExpoCannabis Brasil terá debate sobre pesquisa e regulamentação

A adaptação do cânhamo ao Brasil estará entre os assuntos discutidos na ExpoCannabis Brasil 2026, prevista para 20 a 22 de novembro, no São Paulo Expo, na capital paulista.

Segundo a organização, a quarta edição tem expectativa de receber entre 45 mil e 50 mil visitantes, com 344 estandes. A programação inclui congresso científico, fórum internacional, workshops e rodadas de negócios. O Cannabis Business Hub está programado para 18 de novembro, com foco na conexão entre empresas, investidores e pesquisadores.

A nota técnica que fundamenta o debate reúne participantes da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, da Presidência da Embrapa, da Embrapa Gado de Corte, da Embrapa Clima Temperado, do Instituto Ficus e da Associação Nacional do Cânhamo Industrial. O documento defende que a pesquisa nacional ajude a orientar regras capazes de combinar controle, adaptação agronômica e viabilidade econômica.

Fonte: Portal do Agronegócio

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