Arroz: cultivar Dueto resiste a extremos de temperatura e eleva produtividade em Santa Catarina
Desenvolvida pela Epagri em parceria com a Embrapa, variedade SCSBRS126 Dueto alcançou 30,4 mil hectares em 2025, elevou a produtividade nas lavouras e gerou benefício econômico de R$ 140,6 milhões no Estado.
Publicado em: 04/11/2026 às 11:48hs
Uma variedade de arroz irrigado capaz de suportar temperaturas extremas na fase reprodutiva está transformando a produção em diferentes regiões de Santa Catarina. Desenvolvida ao longo de 15 anos de pesquisas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), em parceria com a Embrapa, a cultivar SCSBRS126 Dueto vem conquistando agricultores por combinar resistência ao estresse térmico, qualidade dos grãos e elevado potencial produtivo.
A expansão da variedade demonstra a aceitação da tecnologia no campo. Em 2024, o Dueto ocupava 6.480 hectares em Santa Catarina. Em 2025, a área avançou para 30.486 hectares, consolidando a cultivar como uma das alternativas tecnológicas de destaque para a rizicultura catarinense.
O desempenho também se reflete nos resultados econômicos. Segundo o Balanço Social da Epagri, a tecnologia proporcionou benefício econômico de R$ 140,6 milhões em Santa Catarina em 2025. Considerando também a adoção em outros estados, o valor chegou a R$ 161,8 milhões.
Resistência ao calor e ao frio melhora desempenho das lavouras
O principal diferencial do SCSBRS126 Dueto é a capacidade de tolerar temperaturas baixas e elevadas durante a fase reprodutiva do arroz, período particularmente sensível para a formação dos grãos.
A característica atende a uma demanda crescente dos produtores diante das mudanças climáticas e da ocorrência de condições meteorológicas extremas, que podem comprometer a produtividade das lavouras.
Em Rio do Campo, no Alto Vale do Itajaí, o produtor Antônio Carlos Contezini enfrentava dificuldades para manter bons resultados em sua propriedade, localizada a aproximadamente 600 metros de altitude. As oscilações de temperatura durante o inverno e o verão prejudicavam o desenvolvimento da cultura.
Diante desse cenário, ele procurou pesquisadores da Epagri em Itajaí e disponibilizou sua propriedade para experimentos com novas variedades adaptadas às condições da região.
O resultado da parceria foi expressivo. Antes da adoção do Dueto, a produtividade média da propriedade ficava em torno de 135 sacas por hectare. Na última safra mencionada pelo produtor, o rendimento alcançou 186 sacas por hectare.
A variedade também apresentou resultados positivos no Litoral Norte catarinense. Em Garuva, o agrônomo e produtor rural Mattheus Beck decidiu testar o cultivar em 2024, inicialmente em seis hectares de uma área que costumava produzir aproximadamente 120 sacas por hectare.
Com o SCSBRS126 Dueto, a produtividade chegou a 204 sacas por hectare.
Animado com o desempenho, Beck ampliou o cultivo para 18 hectares no ano seguinte e, posteriormente, para 22 hectares. Mesmo com os bons resultados, passou a utilizar diferentes cultivares na propriedade, como forma de diversificar os riscos da produção.
Dados da Epagri/Cepa indicam que, na safra 2025/26, o Dueto chegou a representar 48% da área plantada na propriedade.
Cultivar reduz perdas provocadas pelo estresse térmico
Além do potencial produtivo, outro fator que explica a rápida adoção da variedade é o baixo índice de esterilidade das plantas quando submetidas a situações de estresse térmico.
Temperaturas inadequadas podem comprometer a formação dos grãos, provocando espigas com poucas sementes ou estruturas vazias. Muitas vezes, o problema só é identificado no momento da colheita, quando o produtor percebe a redução do volume de grãos recolhidos pela colheitadeira.
Segundo o engenheiro-agrônomo e pesquisador do Projeto Arroz da Estação Experimental da Epagri em Itajaí, Rubens Marschalek, esse fenômeno representa uma das principais causas de perda de produtividade em determinadas condições de cultivo.
A qualidade dos grãos também contribui para a aceitação comercial da cultivar. O arroz produzido pelo Dueto apresenta características adequadas ao processamento industrial, inclusive para a parboilização.
Entretanto, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: a tolerância térmica não se estende a todas as etapas do desenvolvimento da planta.
A resistência foi identificada principalmente na fase reprodutiva. Durante a germinação, o estabelecimento e o desenvolvimento vegetativo, a cultura continua dependendo de condições adequadas de temperatura. Por isso, o plantio no inverno não é recomendado, já que a planta necessita de calor para crescer.
Pesquisa da Epagri levou 15 anos até o lançamento da variedade
O desenvolvimento do SCSBRS126 Dueto começou em 2009, sob coordenação do pesquisador Rubens Marschalek, por meio do projeto voltado à obtenção de cultivares de arroz irrigado tolerantes a estresses bióticos e abióticos, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Na sequência, entre 2010 e 2012, a pesquisa avançou com o projeto de desenvolvimento de tecnologias para o arroz irrigado no Alto Vale do Itajaí, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).
A participação dos produtores foi fundamental nessa trajetória. Antônio Carlos Contezini colaborou com a realização de experimentos e unidades de observação em sua propriedade, permitindo avaliar o comportamento das linhagens em condições reais de cultivo.
A origem genética do Dueto está no cruzamento entre o cultivar IRGA 424 e a linhagem BRA040081, da Embrapa. A hibridação ocorreu em 2008, na unidade Arroz e Feijão da empresa, com posterior multiplicação das sementes na Estação Experimental de Palmital, em Goianira (GO).
Em 2009, o material chegou à Estação Experimental da Epagri em Itajaí, onde passou por avaliações e seleção de famílias de sementes.
Na safra 2011/12, as linhagens selecionadas foram submetidas a ensaios de rendimento em municípios do Rio Grande do Sul — Alegrete, Capão do Leão e Santa Vitória do Palmar — e em Itajaí, Santa Catarina.
A família com melhor desempenho avançou para testes mais rigorosos entre 2012 e 2015, recebendo inicialmente a identificação SC 806, antes de ser oficialmente denominada SCSBRS126 Dueto.
Testes em regiões de altitude comprovaram a adaptação
Uma das etapas decisivas da pesquisa ocorreu em áreas de maior altitude de Santa Catarina.
Nas safras 2014/15 e 2015/16, a linhagem foi avaliada em Rio do Campo, a aproximadamente 600 metros de altitude, e em Mirim Doce, a cerca de 500 metros.
Os resultados positivos motivaram a continuidade dos experimentos entre as safras 2017/18 e 2021/22.
Paralelamente, a partir de 2013, pesquisadores realizaram estudos de monitoramento de temperatura, luminosidade e umidade, em parceria com o Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc).
Os experimentos confirmaram a capacidade de tolerância da linhagem a temperaturas de aproximadamente 15°C e 38°C durante a fase reprodutiva.
Com base nesses resultados, a recomendação técnica prioriza regiões situadas acima de 400 metros de altitude, especialmente aquelas sujeitas a quedas de temperatura durante o período de formação dos grãos.
O pesquisador Rubens Marschalek também destaca a importância de ajustar a densidade de semeadura às condições de cada região.
Nas áreas de maior altitude, a recomendação pode chegar a 150 quilos de sementes por hectare. No litoral, onde as temperaturas são mais elevadas, a orientação é utilizar aproximadamente 100 quilos por hectare.
Procura por sementes cresce e estoque para 2026/27 se esgota
A rápida expansão do SCSBRS126 Dueto também aumentou a demanda por sementes. A Associação de Produtores de Semente de Arroz de Santa Catarina (Acapsa), responsável pela multiplicação e comercialização do material, informou que o estoque destinado à safra 2026/27 já havia se esgotado em maio.
O avanço da área cultivada evidencia a velocidade de adoção da tecnologia pelos produtores catarinenses:
- 2024: 6.480 hectares cultivados;
- 2025: 30.486 hectares;
- Produtividade média estadual em 2025: 9.169 kg por hectare.
Os números reforçam a importância do melhoramento genético para ampliar a eficiência da rizicultura, reduzir perdas associadas às condições climáticas e oferecer alternativas mais competitivas aos agricultores.
Tecnologia gera R$ 140,6 milhões em benefícios econômicos
O impacto do cultivar vai além do aumento da produtividade nas propriedades rurais.
De acordo com o Relatório de Avaliação dos Impactos das Tecnologias Geradas pela Epagri, publicado no Balanço Social da instituição, o SCSBRS126 Dueto proporcionou R$ 140,6 milhões em benefícios econômicos para Santa Catarina em 2025.
Quando considerados os resultados obtidos também em outros estados, o benefício total alcançou R$ 161,8 milhões.
Atualmente, Santa Catarina reúne aproximadamente 5 mil produtores de arroz, responsáveis pelo cultivo de 143,4 mil hectares.
A trajetória do Dueto demonstra como a integração entre pesquisa científica e experiência dos agricultores pode gerar soluções concretas para os desafios do campo. Ao combinar tolerância a extremos de temperatura na fase reprodutiva, qualidade industrial e potencial produtivo, a variedade amplia as alternativas para uma produção de arroz mais resiliente e eficiente.
Fonte: Portal do Agronegócio
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