Silício reduz em 63,2% folhas com cercosporiose em mudas de café Catuaí, aponta estudo
Pesquisa da UFLA e da Epamig identificou alterações na camada de cera das folhas tratadas; resposta variou entre as três variedades avaliadas.
Publicado em: 03/11/2026 às 14:30hs
O fornecimento de silício reduziu em 63,2% o número de folhas lesionadas pela cercosporiose em mudas de café Catuaí Vermelho IAC 99, em comparação às plantas que não receberam o elemento. O estudo, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA), da Epamig e de instituições parceiras, também registrou 43% menos lesões por planta nessa variedade.
Conhecida como mancha-de-olho-pardo, a cercosporiose pode provocar desfolha, atrasar o crescimento e reduzir o vigor das mudas. Os resultados indicam que o silício pode contribuir para o manejo integrado da doença, com efeitos associados a mudanças na estrutura das folhas.
Pesquisa avaliou silicato de cálcio em três variedades de café
O experimento utilizou mudas bem nutridas de Catuaí Vermelho IAC 99, Mundo Novo IAC 379/19 e Icatu IAC 2942, cultivadas com e sem aplicação de silicato de cálcio no substrato.
Para separar os efeitos do silício daqueles relacionados ao cálcio, os pesquisadores utilizaram carbonato de cálcio para manter o mesmo teor desse nutriente entre os tratamentos. Esse procedimento permitiu avaliar a contribuição específica do silício nas condições do estudo.
Além da ocorrência da doença, a equipe examinou as folhas por microscopia eletrônica de varredura e microanálise de raios X, buscando identificar mecanismos relacionados à resposta das plantas.
Camada de cera pode criar barreira ao desenvolvimento da doença
Segundo a engenheira agrônoma Adélia Aziz Alexandre Pozza, doutora em Ciência do Solo e Nutrição de Plantas e uma das autoras do trabalho, o efeito observado envolve alterações na morfologia foliar.
“Nas plantas tratadas, observamos uma camada de cera mais desenvolvida na parte inferior das folhas. Essa estrutura pode funcionar como uma barreira adicional, dificultando algumas das etapas necessárias para o progresso da doença”, explica.
A microscopia mostrou uma camada de cera mais espessa nas plantas que receberam silício, especialmente no Catuaí. Em algumas amostras, essa cobertura recobriu parcialmente os estômatos, que estavam mais expostos nas plantas não tratadas.
Os pesquisadores apontam que a alteração pode tornar a superfície foliar mais hidrofóbica, dificultando a formação do filme de água que favorece etapas do processo de infecção pelo fungo. Também foi identificada maior presença e distribuição mais uniforme de silício na face inferior das folhas tratadas.
Resposta ao silício depende da variedade do cafeeiro
O Catuaí apresentou a resposta mais evidente à aplicação. Já o Icatu, considerado mais resistente à cercosporiose, demonstrou efeito menor.
Segundo os autores, essa diferença indica que as características genéticas influenciam a resposta ao silício. Por isso, os percentuais registrados no Catuaí devem ser interpretados dentro das condições do experimento, realizado com mudas, sem generalização automática para outras variedades ou lavouras adultas.
Nutrição integra estratégia de manejo da cercosporiose
Para Maurício Komori, especialista em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas e gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Mercado da Agronelli Soluções, o trabalho reforça a relação entre nutrição e sanidade vegetal.
Na avaliação do profissional, a condição nutricional interfere na capacidade de resposta das plantas aos estresses. O silício pode contribuir para o fortalecimento dos tecidos e a formação de barreiras físicas, mas sua utilização precisa estar integrada às demais práticas de cultivo.
O manejo da cercosporiose continua envolvendo escolha da variedade, equilíbrio nutricional, condições adequadas de produção, acompanhamento fitossanitário e uso de defensivos quando indicado.
Para Adélia, a pesquisa ajuda a explicar a menor intensidade da doença a partir de uma resposta estrutural do cafeeiro. A formação de uma camada de cera mais desenvolvida e a presença de silício na superfície foliar estão entre os mecanismos identificados no trabalho “Efeito do Silício no Controle da Cercosporiose em Três Variedades de Cafeeiro”.
Fonte: Portal do Agronegócio
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