Frio pode causar escurecimento da polpa da manga; estudo da Embrapa aponta estratégias para reduzir perdas
Pesquisa de três anos comprova que o chamado “corte negro” está associado à exposição de mangas suscetíveis a baixas temperaturas e apresenta alternativas para preservar a qualidade da fruta durante armazenamento e transporte
Publicado em: 22/09/2026 às 12:30hs
Um estudo conduzido durante três anos pela Embrapa Semiárido (PE) comprovou a relação entre a exposição a baixas temperaturas e o desenvolvimento do escurecimento da polpa da manga, conhecido internacionalmente como black flesh ou “corte negro”.
O distúrbio fisiológico compromete a qualidade interna da fruta e pode gerar perdas para produtores, exportadores e empresas que atuam no processamento de mangas. O problema aparece principalmente na região próxima à semente e, em muitos casos, não pode ser identificado pela aparência externa do fruto.
Segundo os pesquisadores, a ocorrência está associada principalmente a frutos suscetíveis, colhidos em estágios menos avançados de maturação e posteriormente submetidos a temperaturas baixas durante o armazenamento e o transporte refrigerado.
Além de identificar a causa do problema, a pesquisa apontou medidas capazes de reduzir a incidência do distúrbio, como a escolha adequada do ponto de colheita, ajustes na cadeia de frio, utilização de atmosfera controlada e aplicação de 1-metilciclopropeno (1-MCP), composto que interfere na ação do etileno e retarda o amadurecimento.
Escurecimento da polpa preocupa cadeia exportadora
A descoberta tem importância estratégica para a fruticultura brasileira. O Brasil é o sexto maior produtor mundial de manga e mais de 90% das exportações brasileiras da fruta têm origem no Vale do São Francisco.
Para alcançar consumidores na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, as mangas permanecem durante semanas em contêineres refrigerados. É justamente nesse período que as condições de armazenamento e transporte podem favorecer o desenvolvimento do escurecimento interno.
O principal desafio é que o problema não necessariamente altera a aparência externa da manga. Dessa forma, uma fruta visualmente perfeita pode apresentar polpa escurecida quando é aberta pelo consumidor.
Esse aspecto aumenta o risco de rejeição do produto, reclamações de supermercados e perdas para empresas responsáveis pelo processamento e comercialização da fruta.
Outro fator de preocupação ocorre no destino da carga. Durante as inspeções de qualidade, importadores avaliam características como firmeza da polpa e presença de desordens fisiológicas internas. Quando a ocorrência supera os limites estabelecidos pelo comprador, geralmente em torno de 10% das frutas avaliadas, toda a carga pode ser rejeitada.
Ponto de colheita influencia ocorrência do problema
Os experimentos foram realizados com as variedades Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt, produzidas em pomares comerciais que apresentavam histórico de ocorrência do distúrbio.
Uma das principais conclusões foi a relação entre o estágio de maturação no momento da colheita e a sensibilidade às baixas temperaturas.
As mangas colhidas ainda muito verdes apresentaram maior predisposição ao desenvolvimento do escurecimento da polpa quando submetidas ao frio.
Por isso, uma das estratégias recomendadas pelos pesquisadores é ajustar o ponto de colheita, evitando que os frutos sejam retirados da planta em estágio excessivamente inicial de maturação.
Temperatura de armazenamento é fator decisivo
A pesquisa também demonstrou que a temperatura utilizada no armazenamento e no transporte interfere diretamente na ocorrência do distúrbio.
Nos experimentos, temperaturas entre 8 °C e 10 °C favoreceram o surgimento do escurecimento da polpa. Já os frutos mantidos a 12,5 °C não apresentaram sintomas do problema nos mesmos lotes avaliados.
Os resultados reforçam a importância do manejo da cadeia de frio para a conservação da qualidade da manga destinada a mercados distantes.
Empresas do setor já começaram a incorporar as conclusões da pesquisa às operações comerciais. Entre as mudanças estão a utilização de temperaturas superiores a 10 °C e a colheita em estágio mais avançado de maturação.
Atmosfera controlada amplia alternativas para exportadores
Outra ferramenta avaliada pelos pesquisadores foi o uso de contêineres de atmosfera controlada (AC).
A tecnologia trabalha com baixos níveis de oxigênio para reduzir a respiração e o metabolismo dos frutos durante o transporte. Dessa maneira, contribui para preservar a qualidade da manga e controlar o desenvolvimento do escurecimento da polpa.
A alternativa ganha importância principalmente em operações de exportação que envolvem longos períodos entre a colheita e a chegada ao consumidor final.
1-MCP reduz incidência do escurecimento da polpa
A quarta estratégia investigada foi a utilização do 1-metilciclopropeno (1-MCP), substância empregada para retardar o amadurecimento de frutas.
De acordo com os experimentos, o tratamento reduziu significativamente tanto a incidência quanto a severidade do escurecimento da polpa. Além disso, contribuiu para preservar a firmeza e a capacidade antioxidante dos frutos durante o armazenamento refrigerado.
Nas variedades Tommy Atkins e Keitt, mangas que não receberam tratamento apresentaram incidência próxima de 100% do distúrbio após 45 dias armazenadas a 9 °C.
Quando receberam 200 nanolitros por litro (nL/L ou ppb) de 1-MCP, a incidência caiu para menos de 60%.
Segundo os pesquisadores, o composto bloqueia a ação do etileno, hormônio responsável pelo amadurecimento, reduzindo também respostas fisiológicas associadas à exposição às baixas temperaturas.
Um dos resultados considerados relevantes foi a constatação de que a menor concentração testada apresentou eficiência próxima à obtida com doses mais elevadas. A possibilidade pode reduzir o custo da tecnologia e ampliar sua viabilidade econômica para o setor exportador.
Empresas adaptam manejo para reduzir perdas
Os resultados da pesquisa já provocaram mudanças nas operações de empresas ligadas à cadeia da manga.
Na Blue Skies, o 1-MCP não é utilizado na unidade brasileira porque o retardamento do amadurecimento não se adapta à operação de frutas frescas cortadas. O tratamento, porém, é empregado em mangas in natura enviadas do Brasil para a unidade da empresa em Gana.
Na Agrodan, empresa localizada no Vale do São Francisco que produz e exporta mais de 32 milhões de quilos de manga por ano, o estudo também contribuiu para mudanças no manejo.
Entre as medidas adotadas estão ajustes no ponto e no horário de colheita, priorização dos períodos mais frescos do dia, climatização do galpão de recepção, redução do intervalo entre colheita e embarque, utilização de 1-MCP e adequação das temperaturas de resfriamento e transporte.
De acordo com a empresa, o tratamento com 1-MCP tem apresentado eficiência no controle do escurecimento. Entretanto, sua utilização acrescenta aproximadamente 12 horas ao intervalo entre a embalagem e a expedição, o que exige ajustes logísticos para atender às janelas de embarque.
Embrapa desenvolve tecnologia para identificar lotes de risco
Além das medidas de manejo, a Embrapa trabalha no desenvolvimento de uma ferramenta capaz de identificar, ainda na colheita, lotes de manga com maior predisposição ao escurecimento da polpa.
A tecnologia utiliza espectrômetros portáteis, equipamentos que analisam a luz visível e o infravermelho próximo, conhecidos como Vis-NIR.
A partir dessas informações, os pesquisadores desenvolveram um algoritmo de aprendizado de máquina capaz de diferenciar frutos saudáveis daqueles mais suscetíveis ao problema antes que os sintomas apareçam.
Nos testes realizados até o momento, a ferramenta apresentou precisão entre 80% e 90%.
Na prática, o sistema funciona como um scanner. A identificação antecipada permite ao produtor tomar decisões sobre o destino dos lotes, incluindo a permanência dos frutos por mais tempo na planta, ajustes nas temperaturas de armazenamento e transporte ou utilização de tecnologias como atmosfera controlada, atmosfera modificada e 1-MCP.
Próxima etapa é medir a intensidade do distúrbio
A pesquisa continua avançando. A equipe da Embrapa trabalha agora em uma nova etapa para estimar não apenas a probabilidade de determinado fruto desenvolver o escurecimento da polpa, mas também a intensidade do distúrbio em cada fruto e em cada lote.
Paralelamente, novos estudos buscam aumentar a eficiência do 1-MCP e reduzir o tempo necessário para sua aplicação.
Os avanços podem ampliar a capacidade da cadeia produtiva de identificar riscos antes do embarque e adotar estratégias específicas para cada lote, reduzindo perdas pós-colheita e aumentando a previsibilidade da qualidade da manga brasileira nos mercados internacionais.
O que o estudo mostra sobre o escurecimento da manga
- Causa associada: exposição de frutos suscetíveis a baixas temperaturas.
- Maior risco: mangas colhidas em estágio muito inicial de maturação.
- Temperaturas de atenção: entre 8 °C e 10 °C favoreceram o distúrbio nos experimentos.
- Temperatura sem sintomas nos testes: 12,5 °C.
- Tecnologias avaliadas: atmosfera controlada e 1-MCP.
- Efeito do 1-MCP: redução da incidência e da severidade do escurecimento.
- Nova tecnologia: uso de Vis-NIR e aprendizado de máquina para identificar lotes suscetíveis.
- Precisão inicial da ferramenta: entre 80% e 90%.
Fonte: Portal do Agronegócio
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