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Conectividade e Digital

Transformação digital nas cooperativas agropecuárias avança, mas conectividade e capacitação ainda são desafios

Estudo identifica 22 barreiras à digitalização de cooperativas de café e leite em Minas Gerais, enquanto Campinas se fortalece como polo de inovação e desenvolvimento de tecnologias para o agronegócio


Publicado em: 04/09/2026 às 09:30hs

Transformação digital nas cooperativas agropecuárias avança, mas conectividade e capacitação ainda são desafios

A transformação digital das cooperativas agropecuárias brasileiras avança, mas ainda encontra obstáculos estruturais, financeiros e culturais. Enquanto regiões como Campinas, no interior de São Paulo, concentram universidades, centros de pesquisa e startups dedicadas ao agronegócio, cooperativas de café e leite de Minas Gerais enfrentam dificuldades para incorporar novas tecnologias à gestão e à rotina dos produtores.

Um estudo desenvolvido em um mestrado profissional em Administração da Fundação Dom Cabral identificou 22 barreiras à digitalização das cooperativas mineiras. A pesquisa, baseada em entrevistas com lideranças cooperativistas, mostra que o interesse em modernizar as operações já existe, mas a implementação depende de fatores que vão além da disponibilidade de recursos financeiros.

Entre os principais entraves estão a dificuldade de pequenos produtores para utilizar ferramentas digitais, a resistência à adoção de novas soluções, a baixa conectividade no meio rural e a limitação da capacidade de investimento de cooperativas e cooperados.

Digitalização das cooperativas ganha importância no agronegócio

O cenário observado em Minas Gerais reflete uma transformação em curso em todo o agronegócio brasileiro. O setor respondeu por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2025, segundo dados do Cepea e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Nesse ambiente, cresce a distância entre as organizações que já utilizam tecnologia para melhorar a gestão, a produção e a tomada de decisões e aquelas que ainda precisam superar dificuldades básicas de infraestrutura e qualificação profissional.

Levantamento elaborado pelo Sistema OCB/InovaCoop identificou sete tendências tecnológicas com potencial para ampliar a competitividade das cooperativas agropecuárias nos próximos anos. Entre elas está a rastreabilidade, impulsionada pela demanda de consumidores, empresas e mercados internacionais por maior transparência sobre a origem e o percurso dos produtos ao longo da cadeia.

A digitalização também pode contribuir para o controle financeiro, a gestão dos estoques, o relacionamento com os cooperados, a análise de dados produtivos e o cumprimento de exigências regulatórias.

Campinas se consolida como polo de tecnologia para o agro

Enquanto parte das cooperativas mineiras procura superar a resistência cultural e as limitações de infraestrutura, a região de Campinas vive uma etapa mais avançada do processo de inovação.

O município abriga instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A proximidade entre centros acadêmicos, pesquisadores, empresas e investidores contribuiu para transformar a região em um dos principais polos brasileiros de desenvolvimento de tecnologias para o agronegócio.

Esse ecossistema também ajuda a explicar a concentração de agtechs, startups especializadas em soluções para o campo, que desenvolvem sistemas de gestão, inteligência artificial, sensoriamento, rastreabilidade, automação e análise de dados.

O contraste entre Minas Gerais e Campinas expõe diferentes estágios da transformação digital. De um lado, existem cooperativas que já testam inteligência artificial e tecnologias avançadas para acompanhar a produção. De outro, permanecem organizações que ainda enfrentam problemas de acesso à internet e capacitação digital dos associados.

Estrutura cooperativista exige tecnologias específicas

Para Luis Carlos Crema, advogado, contador e empresário com 33 anos de atuação no atendimento jurídico e contábil a cooperativas brasileiras, essa diferença retrata o momento de transição vivido pelo agronegócio nacional.

Segundo ele, as soluções digitais precisam considerar as particularidades do modelo cooperativista, no qual o produtor exerce diferentes funções dentro da mesma organização.

“O produtor vive uma realidade muito particular dentro de uma cooperativa: ele é, ao mesmo tempo, dono, fornecedor e cliente do próprio negócio. Quando a tecnologia chega sem entender essa tripla função, ela acaba sendo vista como algo estranho à rotina dele, difícil de confiar”, afirma Crema, que assumiu recentemente o cargo de CEO do ST7 COOP, sistema de gestão direcionado às cooperativas agropecuárias.

Para o especialista, parte da resistência apontada no estudo da Fundação Dom Cabral pode ser explicada pela forma como o mercado de tecnologia tratou, historicamente, as especificidades da contabilidade cooperativista.

“Não é a mesma contabilidade de uma empresa comum. Ela precisa ser feita de duas formas, uma convencional e outra cooperativista, levando em conta o que chamamos de ato cooperativo. Quando o sistema não nasce entendendo essa diferença, o produtor sente que está lidando com uma ferramenta que fala outra língua”, explica.

Na avaliação de Crema, plataformas desenvolvidas sem considerar as regras tributárias, contábeis e operacionais das cooperativas podem aumentar a complexidade em vez de facilitar a administração.

Número de agtechs cresce no Brasil

O avanço do ecossistema de inovação mostra que a transformação digital deixou de ser uma tendência distante. O Radar Agtech Brasil 2025 contabilizou 2.075 startups voltadas ao agronegócio em atividade no País, crescimento de 5% na comparação com o levantamento anterior.

A expansão demonstra o interesse crescente por soluções capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos, melhorar a rastreabilidade e apoiar decisões no campo.

Ao mesmo tempo, levantamentos do setor tecnológico indicam que aproximadamente 40% das empresas brasileiras já utilizam ferramentas de inteligência artificial em alguma etapa de suas operações. O movimento mostra que a IA começa a deixar a fase estritamente experimental para assumir uma função estratégica na competitividade dos negócios.

Nas cooperativas agropecuárias, essas tecnologias podem apoiar a previsão de demanda, o planejamento da produção, a gestão de estoques, a análise de riscos, o atendimento aos associados e a identificação de oportunidades de comercialização.

Capacitação e internet rural são fundamentais

O estudo da Fundação Dom Cabral apresenta uma série de recomendações para acelerar a transformação digital das cooperativas agropecuárias. Entre as principais medidas estão:

  • criação de programas permanentes de capacitação digital para produtores rurais;
  • ampliação do acesso à internet nas áreas rurais;
  • desenvolvimento de plataformas simples e adaptadas à rotina do campo;
  • estímulo à intercooperação para ampliar escala e reduzir custos;
  • fortalecimento da governança e da proteção dos dados;
  • adequação das ferramentas às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

As recomendações indicam que a digitalização não depende apenas da compra de sistemas ou equipamentos. Para gerar resultados, a tecnologia precisa estar acompanhada de treinamento, suporte técnico, conectividade e integração com a realidade produtiva dos cooperados.

Proteção de dados será decisiva para aumentar confiança

A governança sobre as informações dos produtores aparece como outro ponto central da transformação digital. Quanto maior o volume de dados produtivos, financeiros e comerciais armazenados pelas cooperativas, maior também será a necessidade de estabelecer regras claras sobre acesso, tratamento e compartilhamento.

“Antes de qualquer funcionalidade, o produtor precisa sentir que a informação dele está protegida e que vai ser usada para ajudá-lo a vender melhor o que produziu. Sem essa confiança, nenhuma tecnologia avança no campo”, afirma Crema.

A consolidação da transformação digital nas cooperativas agropecuárias dependerá, portanto, da capacidade de conectar dois universos: os polos que desenvolvem tecnologias avançadas e os produtores que precisam incorporá-las à rotina.

Mais do que oferecer ferramentas, o desafio será construir soluções acessíveis, seguras e adequadas ao funcionamento das cooperativas. Em um agronegócio cada vez mais orientado por dados, a digitalização deixa de ser opcional e passa a influenciar diretamente a eficiência, a transparência e a competitividade do setor.

Fonte: Portal do Agronegócio

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