Déficit de milho em Santa Catarina impulsiona Rota do Milho e integração logística com o Paraguai
Estado consome cerca de 8,5 milhões de toneladas do cereal por ano, mas produz menos de 3 milhões; novo corredor pode reduzir custos da agroindústria e ampliar o uso dos portos catarinenses
Publicado em: 28/08/2026 às 11:25hs
O déficit de milho em Santa Catarina e a necessidade de reduzir os custos logísticos da agroindústria colocaram a integração comercial com o Paraguai no centro das discussões estaduais. A aproximação entre os dois mercados envolve a criação da chamada Rota do Milho, melhorias nas conexões terrestres e o possível aumento da movimentação de cargas paraguaias pelos portos catarinenses.
Santa Catarina demanda aproximadamente 8,5 milhões de toneladas de milho por ano para abastecer principalmente as cadeias produtivas de aves, suínos, leite e ovos. A produção estadual, contudo, permanece abaixo de 3 milhões de toneladas, obrigando as indústrias a adquirir o cereal em outras regiões brasileiras e também no exterior.
O tema ganhou força após uma missão catarinense ao Paraguai, liderada pelo governador Jorginho Mello. A agenda avaliou alternativas para melhorar a ligação entre os países por território argentino e criar condições para um fluxo mais rápido, previsível e competitivo de mercadorias.
Déficit de milho se aproxima de 6 milhões de toneladas
Dados apresentados pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), durante o lançamento do Projeto Sementes de Milho 2026, indicam que o estado produz aproximadamente 2,5 milhões de toneladas do grão por ano.
O Observatório Agro Catarinense estima uma produção de 2,67 milhões de toneladas na safra 2025/2026. Na comparação com o consumo anual de 8,5 milhões de toneladas, a diferença entre oferta e demanda aproxima-se de 6 milhões de toneladas.
Esse desequilíbrio estrutural faz com que parte expressiva do milho percorra mais de mil quilômetros desde o Centro-Oeste até as fábricas de ração e agroindústrias catarinenses.
Além do preço do cereal, as empresas precisam absorver despesas com frete, armazenagem, operações logísticas e perdas associadas às longas distâncias. O impacto alcança toda a cadeia produtiva e reduz as margens de produtores e indústrias.
Segundo o economista e analista de mercado da Orsitec, João Victor da Silva, as deficiências de infraestrutura funcionam como um custo adicional incorporado aos alimentos.
“É um imposto que ninguém votou, mas que aparece no preço do frango, do ovo, do leite e da carne suína e corrói a margem do produtor do Oeste catarinense”, afirma.
Paraguai pode ampliar oferta de milho para Santa Catarina
A proximidade das regiões produtoras paraguaias transforma o país em uma alternativa estratégica para complementar o abastecimento de milho em Santa Catarina.
A consolidação desse corredor, entretanto, depende de melhorias nas estradas, nas travessias internacionais e nas estruturas aduaneiras. Também exige protocolos sanitários e procedimentos capazes de garantir regularidade e rapidez ao transporte.
O Paraguai já ocupa espaço relevante nas compras catarinenses. Em 2025, o milho representou 15,2% das importações de Santa Catarina provenientes do país vizinho, com movimentação de US$ 70,5 milhões, segundo dados divulgados pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).
No total, as importações catarinenses de produtos paraguaios chegaram a US$ 464 milhões em 2025, crescimento de 390,5% em relação a 2015. A pauta inclui ainda carne bovina, óleo de soja, tecidos e insumos para a indústria metalmecânica.
Comércio entre Santa Catarina e Paraguai supera US$ 900 milhões
As exportações catarinenses para o Paraguai atingiram US$ 445,1 milhões em 2025, avanço de 99,1% em dez anos. Com isso, a corrente de comércio entre os dois mercados alcançou US$ 909,1 milhões.
Apesar da expansão, o potencial proporcionado pela proximidade geográfica ainda não é totalmente aproveitado. O transporte depende de conexões pelo território argentino, especialmente pela província de Misiones, e de estruturas fronteiriças preparadas para receber cargas em escala compatível com a demanda catarinense.
“O que separa não é barreira comercial, é infraestrutura”, avalia João Victor.
A ampliação das compras no Paraguai não eliminaria a necessidade de milho proveniente do Centro-Oeste e de outras regiões brasileiras. A nova rota, porém, poderia diversificar fornecedores, reduzir a exposição a percursos muito longos e aumentar a segurança no abastecimento das agroindústrias.
Portos catarinenses podem atender exportações paraguaias
A integração logística também pode funcionar no sentido contrário. Como não possui acesso direto ao mar, o Paraguai depende dos portos de países vizinhos para levar sua produção aos principais mercados internacionais.
Nesse cenário, os terminais de Santa Catarina podem ampliar a movimentação de cargas paraguaias e estimular a demanda por serviços de transporte, armazenagem, operação portuária e despacho aduaneiro.
Santa Catarina conta com seis portos e terminais distribuídos pelo litoral e ocupa posição de destaque na movimentação brasileira de contêineres. A estrutura atende às exportações estaduais e também à entrada e distribuição de produtos importados para diferentes regiões do Brasil.
O fortalecimento desse fluxo pode beneficiar transportadoras, operadores logísticos, armazéns, despachantes aduaneiros e outras empresas ligadas ao comércio exterior.
Portonave amplia capacidade com investimento de R$ 2 bilhões
A Portonave, localizada em Navegantes, movimentou 1,1 milhão de TEUs em 2025. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o terminal registrou média de 114 movimentos por hora, alcançando a maior produtividade de navios do país.
A empresa também executa um plano de modernização estimado em R$ 2 bilhões. Os investimentos abrangem adequações no cais, compra de equipamentos e preparação da infraestrutura para receber navios com até 400 metros de comprimento.
A capacidade anual do terminal deverá avançar de 1,5 milhão para 2 milhões de TEUs até o final de 2026.
Com essa infraestrutura, a integração pode funcionar em dois sentidos: o milho paraguaio seguiria por uma rota mais curta até o Oeste catarinense, enquanto outras mercadorias do Paraguai poderiam utilizar os portos estaduais para alcançar destinos na Ásia e em diferentes regiões do mundo.
Rota do Milho exige estradas, aduanas e protocolos sanitários
A viabilidade econômica da Rota do Milho depende de uma estrutura que vai além da abertura de uma nova ligação física. O projeto exige acessos rodoviários adequados, capacidade aduaneira, controles sanitários eficientes e procedimentos que reduzam o tempo de espera nas fronteiras.
Na avaliação de João Victor, cabe ao poder público criar as condições necessárias para o funcionamento do corredor, preservando a liberdade de decisão das empresas.
“O papel do Estado aqui é legítimo e limitado: estrada, aduana e protocolo sanitário. Não escolher campeões”, ressalta.
Sem a combinação entre infraestrutura, fiscalização e eficiência operacional, a menor distância geográfica não se converte automaticamente em redução de custos. Com os investimentos adequados, entretanto, a integração com o Paraguai poderá fortalecer o abastecimento de milho, melhorar a competitividade da agroindústria catarinense e ampliar a participação dos portos do estado no comércio internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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