Plano Safra 2026/2027 gera otimismo, mas cooperativismo alerta para redução do crédito e fragilidade do seguro rural
Apesar dos R$ 610,3 bilhões anunciados pelo Governo Federal, lideranças do setor cooperativista apontam desafios no custeio, juros, proteção contra riscos climáticos e sustentabilidade financeira dos produtores rurais
Publicado em: 22/07/2026 às 10:00hs
O Plano Safra 2026/2027, anunciado pelo Governo Federal com volume recorde de R$ 610,3 bilhões para o financiamento agropecuário brasileiro, representa um avanço importante para o setor, mas também desperta preocupação entre lideranças do cooperativismo.
A avaliação é de que, embora o programa amplie recursos para a agricultura empresarial e familiar, permanecem desafios estruturais relacionados ao endividamento dos produtores, redução do crédito para custeio, menor disponibilidade de recursos equalizados e ausência de uma política mais robusta de seguro rural.
Do total anunciado, R$ 525,1 bilhões serão destinados à agricultura empresarial, enquanto R$ 97,3 bilhões atenderão a agricultura familiar, incluindo linhas de financiamento voltadas aos pequenos produtores.
Para representantes do cooperativismo, o volume histórico de recursos precisa ser analisado além do valor nominal, considerando o cenário atual de custos elevados, riscos climáticos crescentes e mudanças no modelo tradicional de financiamento agrícola.
Cooperativismo reconhece avanços, mas cobra soluções estruturais
O presidente do Sistema OCESC, Vanir Zanatta, avalia que o Plano Safra mantém sua importância como instrumento de apoio ao produtor rural, mas ainda deixa lacunas em temas considerados essenciais para a sustentabilidade da atividade.
Segundo ele, o setor produtivo enfrenta um cenário de maior pressão financeira, marcado pelo aumento dos custos de produção, oscilações de mercado e dificuldades acumuladas após eventos climáticos adversos.
“O produtor fez sua parte, investiu, enfrentou desafios climáticos e entregou safras cada vez maiores. Porém, os custos continuaram subindo e os preços recebidos nem sempre acompanharam esse movimento, aumentando o endividamento do setor”, destaca.
Na avaliação da liderança cooperativista, a agricultura familiar também demanda atenção, pois o volume anunciado pode não ser suficiente diante do potencial produtivo brasileiro.
“O agricultor quer produzir, gerar renda e sustentar sua família. O crédito não é privilégio, é financiamento que será pago e que movimenta toda a economia”, afirma.
Medidas positivas beneficiam cooperativas agropecuárias
Entre os avanços destacados pelo setor estão medidas direcionadas ao fortalecimento das cooperativas, especialmente por meio de programas de investimento.
Entre os pontos positivos estão:
- Redução das taxas de juros do Programa de Desenvolvimento Cooperativo para Agregação de Valor à Produção Agropecuária (Prodecoop);
- Redução dos juros do Procap-Agro;
- Queda das taxas para recursos controlados destinados às cooperativas, de 14% para 12,5% ao ano;
- Ampliação dos limites de financiamento para cooperativas singulares, centrais e federações;
- Permissão para uso de recursos do Prodecoop em projetos de geração e armazenamento de energia renovável para consumo próprio.
Essas medidas são consideradas importantes para ampliar a capacidade de investimento, modernização e agregação de valor dentro do sistema cooperativista.
Sistema OCB aponta redução de recursos para programas estratégicos
Apesar dos avanços, análise técnica elaborada pelo Sistema OCB destaca pontos de atenção no Plano Safra 2026/2027.
Entre os principais alertas estão:
- Redução aproximada de 28,8% dos recursos destinados ao Prodecoop e Procap-Agro;
- Menor disponibilidade de recursos para custeio e comercialização;
- Dificuldade de comparação com safras anteriores devido à inclusão de programas externos, como Move Agricultura e EcoInvest, no valor total anunciado.
Segundo a entidade, a composição do plano exige uma avaliação mais detalhada sobre o volume efetivamente disponível para financiamento direto da produção.
Seguro rural continua como principal preocupação do setor
Para o presidente da Fecoagro, Arno Pandolfo, o volume anunciado não representa necessariamente aumento real da capacidade de financiamento, especialmente diante da inflação acumulada e da elevação dos custos agrícolas.
Segundo ele, a redução das taxas de juros é positiva, mas acompanha o movimento da política monetária e não elimina a crescente dependência de recursos privados com juros livres.
O principal ponto de preocupação, segundo o dirigente, é a fragilidade do seguro rural.
“O crédito sozinho não resolve o problema quando o produtor enfrenta uma quebra de safra provocada por seca, excesso de chuva ou outros eventos climáticos. Sem seguro agrícola eficiente, o produtor recebe financiamento para assumir o risco, mas não tem proteção suficiente para se recuperar”, avalia.
Menos recursos para custeio preocupam produtores
O presidente da Aurora Coop, Neivor Canton, também demonstra preocupação com a redução dos recursos destinados ao custeio agrícola.
Segundo ele, apesar do anúncio recorde, parte significativa do financiamento dependerá de fontes privadas, aumentando a exposição dos produtores às condições do mercado financeiro.
Entre os principais alertas está a redução de 7,2% nos recursos destinados ao custeio, linha fundamental para compra de insumos, manutenção das lavouras e continuidade da produção.
“Estamos vivendo uma transição estrutural, na qual o modelo tradicional de crédito rural perde espaço para fontes privadas”, afirma.
Na avaliação do dirigente, esse movimento pode dificultar o acesso ao financiamento, reduzir investimentos e influenciar decisões sobre área plantada na próxima safra.
Como ponto positivo, ele destaca o fortalecimento do Pronaf, com aumento de recursos e redução de juros, além da ampliação das linhas destinadas aos investimentos.
Sicoob avalia Plano Safra como avanço limitado
O gerente de Agronegócio do Sicoob Central SC/RS, Paulo Vitor Sangaletti, avalia que o Plano Safra 2026/2027 apresenta avanços pontuais, mas ainda não responde integralmente aos desafios atuais do agronegócio.
Segundo ele, para a agricultura empresarial, o programa melhora condições de juros e investimentos, mas apresenta limitações no volume disponível e nas soluções estruturais.
“O Plano Safra melhora o ambiente de crédito, mas ainda é mais um plano de financiamento da produção do que uma política completa de gestão de risco, renda, seguro, renegociação e competitividade”, afirma.
Na análise do especialista, a agricultura familiar recebeu benefícios proporcionais mais expressivos, com ampliação de recursos e redução mais significativa das taxas.
Já a agricultura empresarial recebeu um plano considerado de continuidade, com alguns avanços, mas abaixo das necessidades atuais do setor.
Crédito rural entra em nova fase no agronegócio brasileiro
A avaliação das lideranças cooperativistas indica que o Plano Safra 2026/2027 representa um passo importante para manter o financiamento da produção, mas evidencia uma mudança estrutural no modelo de crédito rural brasileiro.
Com maior participação do mercado privado, aumento dos riscos climáticos e necessidade de preservar a capacidade produtiva dos agricultores, o setor defende uma política mais integrada, combinando crédito, seguro rural, gestão de risco e mecanismos de proteção de renda.
Para o cooperativismo, o futuro do financiamento agrícola dependerá não apenas do volume de recursos disponíveis, mas também da capacidade de garantir segurança econômica para quem produz.
Fonte: Portal do Agronegócio
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