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Etanol de milho pode exigir até R$ 14,3 bilhões em novas florestas energéticas em Mato Grosso

Expansão das usinas pode elevar demanda por eucalipto em 218 mil hectares até 2030, enquanto produtores encontram oportunidade de diversificação de renda, aponta Itaú BBA


Publicado em: 11/09/2026 às 19:00hs

Etanol de milho pode exigir até R$ 14,3 bilhões em novas florestas energéticas em Mato Grosso

O avanço acelerado do etanol de milho está criando uma nova demanda estratégica no agronegócio brasileiro: a ampliação da oferta de biomassa sustentável para abastecer energeticamente as usinas.

Em Mato Grosso, principal polo nacional do biocombustível, os investimentos necessários para expandir as florestas energéticas podem variar entre R$ 7,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões nos próximos anos. A estimativa consta no relatório “O desafio da biomassa para o etanol de milho”, elaborado pela Consultoria Agro do Itaú BBA.

O volume de recursos dependerá principalmente da eficiência operacional das plantas industriais, da produtividade florestal e da quantidade de biomassa necessária para gerar energia durante o processo de fabricação do etanol.

Produção de etanol de milho pode mais que dobrar até 2030

A necessidade de novas florestas acompanha o forte crescimento da capacidade industrial. Segundo o Itaú BBA, o potencial instalado de produção de etanol de milho no Brasil poderá passar de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros em 2030.

Em Mato Grosso, a capacidade deverá avançar de 6,9 bilhões para aproximadamente 11,9 bilhões de litros no mesmo intervalo. O estado concentra a maior parte das unidades em operação e dos investimentos programados para o setor.

No cenário de eficiência média considerado pelo banco, uma capacidade nacional próxima de 13 bilhões de litros no final de 2026 exigiria cerca de 35 milhões de metros cúbicos de biomassa de eucalipto, caso essa fosse a única fonte de energia utilizada pelas usinas.

Para assegurar esse fornecimento de maneira contínua e sustentável, seria necessário manter aproximadamente 440 mil hectares de eucalipto plantado no país.

Mato Grosso pode precisar de mais 218 mil hectares de eucalipto

Com capacidade industrial próxima de 12 bilhões de litros em 2030, Mato Grosso poderá necessitar de aproximadamente 383 mil hectares de eucalipto para suprir a demanda energética das usinas de etanol de milho.

A área atualmente estimada no estado está próxima de 165 mil hectares. A diferença aponta para a necessidade potencial de adicionar 218 mil hectares de florestas energéticas nos próximos anos.

No cenário-base, com custo de implantação e condução de aproximadamente R$ 35 mil por hectare durante um ciclo de 13 anos, essa expansão exigiria investimentos da ordem de R$ 7,6 bilhões.

Caso as plantas industriais operem com menor eficiência energética, a área necessária pode alcançar cerca de 572 mil hectares. Nessa hipótese mais conservadora, o investimento para viabilizar a expansão florestal chegaria a R$ 14,3 bilhões.

As projeções consideram o eucalipto como única fonte de biomassa. Na prática, resíduos agrícolas, florestais e agroindustriais também poderão integrar a matriz energética, reduzindo parte da necessidade de novas áreas plantadas.

Disponibilidade de biomassa torna-se fator de competitividade

A oferta de biomassa deixou de representar apenas uma questão operacional e passou a influenciar diretamente a competitividade, a segurança energética e a viabilidade ambiental dos projetos de etanol de milho.

Atualmente, as usinas utilizam diferentes matérias-primas, incluindo biomassa proveniente de supressão vegetal legalmente autorizada. O aumento das exigências ambientais e as mudanças regulatórias, entretanto, tornam necessária a transição para fontes renováveis, rastreáveis e capazes de garantir fornecimento no longo prazo.

De acordo com Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, empresas que anteciparem seus investimentos em florestas próprias ou contratos de fornecimento poderão obter maior previsibilidade de custos e reduzir a exposição a riscos regulatórios.

O planejamento também será importante diante do ciclo produtivo do eucalipto, que exige vários anos entre o plantio e o primeiro corte. A demora na formação das florestas pode ampliar o risco de escassez justamente quando novas unidades industriais entrarem em operação.

Mato Grosso restringe uso de biomassa nativa

A regulamentação ambiental deverá acelerar a procura por florestas plantadas. Em junho, Mato Grosso estabeleceu regras para a redução gradual e posterior eliminação do uso de biomassa proveniente da supressão de vegetação nativa por grandes consumidores.

O acordo firmado entre o Governo de Mato Grosso e o Ministério Público estadual determina que novos empreendimentos comprovem a existência de fontes sustentáveis de abastecimento. A prioridade deverá ser direcionada às florestas plantadas, ao manejo florestal sustentável e a outras alternativas renováveis.

Para as indústrias já instaladas, as regras estabelecem limite de até 40% para o uso de biomassa nativa em 2034, com eliminação completa dessa fonte a partir de 2035.

A mudança aumenta a importância de contratos de longo prazo e de investimentos antecipados em eucalipto, sobretudo porque a disputa pela madeira tende a crescer à medida que novas plantas industriais começam a operar.

Etanol disputa biomassa com outras cadeias do agronegócio

A pressão sobre a oferta de biomassa não será provocada exclusivamente pelas usinas de etanol de milho. O insumo também é utilizado em secadores de grãos, unidades armazenadoras, esmagadoras de soja, frigoríficos e outras atividades agroindustriais que necessitam de energia térmica.

Essa concorrência poderá aumentar o preço da madeira e os custos logísticos, especialmente nas regiões com baixa disponibilidade de florestas plantadas próximas aos centros consumidores.

A distância entre as áreas de produção e as unidades industriais também terá peso crescente na viabilidade econômica. Quanto maior o raio de abastecimento, maior será o custo da biomassa entregue às usinas.

Nesse ambiente, empresas e produtores localizados próximos aos polos industriais podem encontrar melhores condições para estabelecer contratos de fornecimento e desenvolver uma cadeia regional de produção florestal.

Florestas plantadas reforçam sustentabilidade do biocombustível

A formação de uma base florestal renovável poderá melhorar as credenciais ambientais do etanol de milho brasileiro. A combinação entre milho de segunda safra e biomassa sustentável no processo industrial tende a reduzir a intensidade de carbono do combustível.

Esse diferencial pode ampliar a competitividade do produto em mercados orientados por metas de descarbonização, incluindo os segmentos de combustível sustentável de aviação e transporte marítimo.

A rastreabilidade da biomassa e a comprovação de sua origem também devem ganhar importância entre investidores, consumidores e compradores internacionais. Dessa forma, o planejamento florestal passa a integrar a estratégia de acesso a mercados de maior valor agregado.

Eucalipto surge como oportunidade para produtores rurais

A necessidade de novas florestas energéticas também abre espaço para a diversificação de renda nas propriedades rurais. De acordo com a simulação do Itaú BBA, projetos de eucalipto destinados à produção de biomassa podem alcançar Taxa Interna de Retorno de aproximadamente 17% ao ano.

O cálculo aponta Valor Presente Líquido positivo de R$ 4,3 mil por hectare, considerando uma taxa mínima de atratividade de 14% ao ano.

Em um ciclo de dois cortes ao longo de 13 anos, o projeto analisado acumularia receita próxima de R$ 104 mil por hectare e lucro total de aproximadamente R$ 54 mil. O resultado representa geração média de R$ 4,2 mil por hectare ao ano.

Quando convertido para uma referência comum entre os produtores, esse retorno corresponde a cerca de 30 sacas de soja por hectare ao ano, conforme os preços e custos adotados no estudo.

Rentabilidade depende do preço da madeira e de contratos

Apesar do potencial econômico, os projetos florestais apresentam riscos relacionados ao longo ciclo produtivo. A rentabilidade depende de variáveis como preço da madeira, produtividade, custo do capital, valor do arrendamento e distância até o consumidor.

Contratos de longo prazo podem oferecer maior segurança ao produtor, estabelecendo condições mais previsíveis para a compra da biomassa no momento da colheita. Esse instrumento reduz o risco de investir atualmente e enfrentar preços desfavoráveis vários anos depois.

O cultivo de eucalipto pode ser especialmente atrativo em áreas de menor aptidão para culturas anuais ou em propriedades interessadas em distribuir receitas entre diferentes atividades.

Segundo o Itaú BBA, Mato Grosso reúne condições favoráveis à expansão florestal, incluindo disponibilidade de terras, regime de chuvas compatível com a cultura e proximidade das principais unidades consumidoras.

Com o crescimento do etanol de milho e das demais cadeias agroindustriais, a biomassa tende a assumir papel cada vez mais estratégico. A expansão das florestas plantadas poderá definir tanto a segurança energética das usinas quanto a competitividade ambiental do biocombustível brasileiro na próxima década.

Fonte: Portal do Agronegócio

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