Crédito rural encolhe pelo segundo ano seguido e acende alerta para financiamento da safra 2026/27
Recuo de quase 20% nos desembolsos em dois ciclos, aumento das renegociações e juros elevados pressionam produtores, enquanto crédito privado ganha espaço no agronegócio brasileiro.
Publicado em: 16/07/2026 às 11:25hs
Crédito rural encolhe pelo segundo ano seguido e acende alerta para financiamento da safra 2026/27
O crédito rural brasileiro registrou nova retração na safra 2025/26, consolidando o segundo ciclo consecutivo de queda nos desembolsos e reforçando as preocupações sobre o financiamento da produção agropecuária. Com juros elevados, maior seletividade dos bancos e aumento das operações renegociadas, produtores enfrentam um ambiente mais restritivo para custeio, investimentos e comercialização.
Segundo análise do estrategista do agronegócio Claudio Brisolara, os dados evidenciam uma redução significativa da oferta de recursos oficiais e um avanço crescente das alternativas privadas de financiamento.
Desembolsos do crédito rural caem 11,6% na safra 2025/26
Dos R$ 405,9 bilhões programados para a safra 2025/26, foram efetivamente liberados R$ 338,9 bilhões, o equivalente a 83,5% do orçamento disponível.
Na comparação com a safra anterior, o volume desembolsado caiu 11,6%, mantendo a trajetória de retração iniciada no ciclo anterior.
A evolução dos desembolsos mostra a desaceleração do crédito rural nos últimos anos:
- Safra 2023/24: R$ 421,8 bilhões
- Safra 2024/25: R$ 383,5 bilhões
- Safra 2025/26: R$ 338,9 bilhões
Em apenas dois ciclos agrícolas, a redução nominal dos recursos disponibilizados aos produtores se aproxima de 20%, refletindo um ambiente de maior cautela financeira.
Pequenos produtores resistem, enquanto médios e grandes enfrentam maior restrição
Os resultados variaram conforme o perfil dos beneficiários.
No Pronaf, destinado à agricultura familiar, houve crescimento de 2,9% no volume financiado e aumento de 10,1% no número de contratos.
Já o Pronamp, voltado aos médios produtores, apresentou avanço de 5,3% no valor liberado, embora tenha registrado redução de 7% na quantidade de operações.
Entre os demais produtores rurais, o cenário foi mais desafiador. O volume de crédito contratado caiu 19,1%, enquanto o número de operações recuou 38,2%, indicando maior dificuldade de acesso aos financiamentos.
Custeio, investimentos e comercialização registram forte retração
A redução dos recursos atingiu todas as principais modalidades do crédito rural.
Os desembolsos diminuíram:
- 13% no custeio da produção;
- 17% nos investimentos;
- 24,7% nas operações de comercialização.
Segundo especialistas, a retração reflete um conjunto de fatores que inclui:
- aumento do endividamento dos produtores;
- menor capacidade de pagamento;
- redução da rentabilidade em diversas cadeias produtivas;
- maior exigência de garantias pelas instituições financeiras;
- postura mais conservadora dos bancos diante do risco;
- menor interesse dos produtores em contratar financiamentos com custo elevado.
Operações renegociadas ultrapassam R$ 106 bilhões
Outro indicador que chama atenção é o crescimento das operações problemáticas.
O estoque total alcançou R$ 202 bilhões, dos quais R$ 106,5 bilhões correspondem a contratos renegociados — valor que mais do que dobrou em pouco mais de um ano.
Esse movimento evidencia o aumento das dificuldades financeiras enfrentadas por parte dos produtores rurais e reforça a preocupação com a sustentabilidade do sistema de crédito agrícola.
Crédito privado amplia participação no financiamento do agronegócio
Com a redução da oferta de recursos oficiais, os instrumentos privados continuam ganhando espaço no financiamento do setor.
O estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs) atingiu aproximadamente R$ 565 bilhões, registrando crescimento de 13,3% nos últimos 12 meses.
Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) também mantiveram trajetória positiva, com expansão de 9,5% no mesmo período, consolidando-se como importantes fontes complementares de capital para o agronegócio.
Safra 2026/27 exigirá crédito mais previsível e gestão de riscos
Para a próxima temporada agrícola, especialistas apontam que será fundamental ampliar a previsibilidade dos recursos destinados ao crédito rural e fortalecer mecanismos capazes de reduzir os riscos das operações.
Entre as prioridades estão a reestruturação das dívidas dos produtores, o aperfeiçoamento das garantias financeiras e a ampliação dos instrumentos de compartilhamento de riscos entre governo, instituições financeiras e setor produtivo.
O desafio para a safra 2026/27 será evitar que o elevado custo financeiro continue limitando o acesso ao crédito, comprometendo investimentos, produtividade e a competitividade do agronegócio brasileiro em um cenário de crescente demanda global por alimentos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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