Certificação de bem-estar animal ganha força no varejo e amplia competitividade dos frigoríficos
Selo baseado em mais de 150 critérios ajuda indústrias a atender grandes redes, reduzir perdas no abate, melhorar a qualidade da carne e ampliar o acesso aos principais canais de distribuição
Publicado em: 02/09/2026 às 08:00hs
A adoção de práticas de bem-estar animal nos frigoríficos deixou de ser apenas uma estratégia de diferenciação para se transformar em fator relevante de competitividade no mercado de proteína animal. Grandes redes varejistas e atacadistas já consideram certificações específicas nos processos de avaliação e homologação de fornecedores.
Entre as iniciativas adotadas pelo setor está a Certificação em Bem-Estar Único – Missão de Cuidar, desenvolvida pela MSD Saúde Animal. Lançado em 2022, o selo analisa toda a cadeia produtiva com base em mais de 150 critérios relacionados ao manejo dos animais, às condições de trabalho, à biosseguridade e à sustentabilidade.
Além de facilitar o acesso a mercados mais exigentes, a certificação pode contribuir para aumentar a eficiência operacional dos frigoríficos e melhorar a qualidade da carne entregue ao consumidor.
Bem-estar animal passa a influenciar acesso ao grande varejo
As políticas de conformidade, rastreabilidade e garantia de origem adotadas pelas grandes redes estão ampliando a procura por fornecedores capazes de comprovar boas práticas em todas as etapas da produção.
Nesse cenário, a certificação funciona como instrumento de transparência e demonstra que o frigorífico segue protocolos técnicos voltados à proteção dos animais, dos trabalhadores e do meio ambiente.
O Frigorífico Rainha da Paz, localizado no Paraná, conquistou o selo em 2025. A adequação permitiu à empresa estruturar sua operação para atender às exigências de importantes redes varejistas e fortalecer sua presença nos canais de distribuição mais competitivos do país.
“A maior vantagem da certificação é a expansão de mercado e a eliminação de restrições comerciais. Estar apto a atender às exigências do grande varejo torna a empresa sustentável e competitiva a longo prazo”, afirma Saulo Climaco, gerente industrial do Frigorífico Rainha da Paz.
Manejo adequado melhora a eficiência do frigorífico
A certificação também influencia diretamente a rotina industrial. No caso dos suínos, animais robustos, mas sensíveis a mudanças ambientais e ao estresse provocado pelo transporte, o cumprimento dos protocolos técnicos pode tornar a chegada ao frigorífico mais segura e organizada.
Quando o transporte, o desembarque, o período de descanso e a condução são realizados corretamente, há menor sobrecarga sobre os animais e as equipes. Isso favorece o fluxo da linha de produção e reduz problemas relacionados à locomoção.
As auditorias incluem avaliações de diferentes áreas da operação, como:
- qualidade do desembarque e da condução dos animais;
- densidade e condições das baias de descanso;
- estrutura e manutenção das instalações;
- biosseguridade e controle sanitário;
- prevenção de contaminações;
- segurança dos alimentos;
- gestão ambiental e práticas sustentáveis;
- capacitação e condições de trabalho das equipes.
Certificação ajuda a reduzir perdas e preservar a qualidade da carne
Falhas no manejo podem provocar prejuízos diretos e indiretos para a indústria frigorífica. Entre as perdas mais visíveis estão fraturas, hematomas, escoriações e dificuldades de deslocamento, situações capazes de comprometer o ritmo do abate e gerar descarte de partes da carcaça.
O estresse dos animais também pode afetar características importantes da carne. Alterações no pH interferem no processamento industrial, no rendimento e nos atributos sensoriais do produto.
Como consequência, fatores como cor, aparência, textura e sabor podem ser prejudicados, reduzindo o valor comercial da proteína e comprometendo a experiência do consumidor.
Ao estabelecer procedimentos padronizados e monitoramento contínuo, a certificação contribui para diminuir essas ocorrências, aumentar a previsibilidade da operação e preservar a qualidade do produto final.
Mudança cultural envolve treinamento e monitoramento
A implantação dos protocolos exige uma transformação que vai além de ajustes físicos nas instalações. O processo depende do envolvimento das lideranças, do treinamento frequente dos colaboradores e do acompanhamento permanente dos indicadores de bem-estar.
A melhoria das condições de trabalho também integra a proposta. Equipes preparadas e ambientes mais seguros favorecem a condução adequada dos animais e ajudam a fortalecer os resultados industriais.
As auditorias da Certificação em Bem-Estar Único são realizadas pela QIMA, empresa internacional que atua na inspeção e certificação de cadeias de fornecimento.
“Para permitir total isenção e o rigor técnico demandados pelo grande varejo, as auditorias são realizadas pela QIMA, uma das certificadoras internacionais mais respeitadas e utilizadas como referência no varejo de alimentos no Brasil”, explica Filipe Dalla Costa, coordenador técnico de Bem-Estar Animal da MSD Saúde Animal.
Segundo ele, o processo analisa de maneira integrada o ambiente, o manejo e os efeitos da atividade sobre animais, pessoas e sustentabilidade.
“O selo assegura que o bem-estar animal e humano caminhem juntos, fortalecendo a resiliência do negócio e gerando valor para a sociedade”, acrescenta Dalla Costa.
Frigorífico pretende levar selo às embalagens
Embora o movimento de certificação seja impulsionado principalmente pelas exigências do grande varejo, o próximo desafio será tornar essas informações mais acessíveis ao consumidor.
O Frigorífico Rainha da Paz planeja divulgar o selo nas embalagens, nas campanhas publicitárias e nos demais canais de comunicação da empresa. A estratégia busca mostrar com mais clareza os cuidados adotados na cadeia produtiva e o valor agregado da carne certificada.
“Vemos essa necessidade. A introdução e disseminação do selo através das embalagens e da propaganda dos produtos e da empresa como um todo seria um grande avanço”, afirma Climaco.
A maior visibilidade pode ajudar o consumidor a identificar produtos provenientes de cadeias comprometidas com o bem-estar animal, a segurança dos alimentos e a sustentabilidade. Para os frigoríficos, a certificação tende a ganhar relevância como ferramenta de acesso ao mercado, redução de perdas e fortalecimento da reputação.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias