Novas forrageiras elevam ganhos da pecuária em até 20% por hectare, aponta Embrapa
Cultivares modernas ampliam lotação, produtividade e oferta de alimento na seca, enquanto 80% das pastagens brasileiras ainda utilizam tecnologias consideradas defasadas
Publicado em: 16/09/2026 às 13:00hs
As forrageiras deixaram de ser apenas uma fonte de alimento para assumir uma função estratégica na produtividade e na rentabilidade da pecuária brasileira. Cultivares modernas desenvolvidas para enfrentar períodos de seca, pragas, doenças e solos de baixa fertilidade podem elevar os ganhos econômicos por hectare em até 20% na comparação com materiais mais antigos.
Os resultados foram apresentados pelo pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados, durante a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”, realizada no painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, durante a 34ª Expoabra, no Parque de Exposições Granja do Torto, em Brasília.
Segundo Ayres, a evolução genética e produtiva dos bovinos nas últimas décadas não foi acompanhada, na mesma velocidade, pela modernização das pastagens.
“O boi de hoje não é o mesmo animal de 40 ou 50 anos atrás. E, quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta. É necessária uma mudança de mentalidade para entender que não se trata apenas de capim”, afirmou.
Pastagens sustentam maior parte da produção de carne bovina
O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, ocupa a segunda posição entre os produtores globais de carne e lidera as exportações do produto. Em 2025, o Valor Bruto da Produção Agropecuária alcançou R$ 1,3 trilhão, dos quais aproximadamente R$ 250 bilhões vieram da pecuária.
Grande parte dessa produção começa nas pastagens. O País reúne 160,5 milhões de hectares destinados ao pastejo, sendo 62,7 milhões de hectares localizados no Cerrado.
Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) mostram que 80,14% dos bovinos abatidos no Brasil no ano passado foram terminados a pasto.
Para Ayres, essa característica diferencia a carne brasileira no mercado internacional. O pesquisador classifica o produto nacional como “boi verde”, por ser proveniente de um sistema no qual a maior parte dos animais é criada e terminada em áreas de pastagem.
Pecuária moderna ainda utiliza cultivares do século passado
Sanidade, genética, reprodução, nutrição e gestão formam os principais pilares da pecuária. Entretanto, enquanto os produtores avançaram na genética dos animais, a escolha das forrageiras ainda costuma ser definida principalmente pelo preço das sementes.
Segundo o pesquisador, as sementes representam somente cerca de 10% do custo total de implantação de uma pastagem, considerando todas as operações necessárias. Mesmo assim, aproximadamente 80% das cultivares utilizadas pela pecuária brasileira seriam tecnologias desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990.
“Em 2026, ainda estamos usando cultivares do século passado, desenvolvidas com a lógica de um boi que não existe mais”, observou.
O descompasso pode limitar a capacidade de suporte das propriedades, a produção de arrobas por hectare e o retorno dos investimentos realizados em genética animal.
Novas forrageiras respondem aos desafios do campo
A Embrapa, em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto), desenvolve cultivares adaptadas aos atuais desafios da pecuária.
Os materiais buscam oferecer maior resistência a pragas e doenças, melhor disponibilidade de alimento durante a seca, maior valor nutritivo e desempenho superior nas transições entre as estações do ano.
“Temos que entender a cultivar de forrageira como entendemos a cultivar de soja, o carro moderno ou a automação na indústria. É muita tecnologia”, comparou Ayres.
Entre as opções apresentadas estão BRS Carinás, BRS Paiaguás, BRS Zuri, BRS Tamani, BRS Sarandi e BRS Quênia, cada uma indicada para condições específicas de solo, clima e sistema produtivo.
BRS Carinás amplia biomassa e ganho de peso por hectare
Lançada em abril, a BRS Carinás é um híbrido de Brachiaria decumbens desenvolvido como evolução da tradicional cultivar Basilisk, conhecida como capim-braquiarinha.
A planta apresenta porte mais alto, folhas mais largas e compridas e crescimento semiereto, característica que facilita o manejo. A maior presença de perfilhos basais favorece a produção de folhas e melhora a qualidade da forragem.
Assim como a Basilisk, a BRS Carinás tolera solos ácidos e com baixos níveis de fósforo. Entre seus diferenciais estão a cobertura mais rápida do solo, menor espaço para plantas invasoras, maior produção de biomassa e teor de proteína entre 13% e 14%.
De acordo com os resultados apresentados, a cultivar permite maior taxa de lotação e ganho de peso que pode alcançar 13 arrobas por hectare ao ano.
BRS Paiaguás aumenta oferta de alimento durante a seca
A Brachiaria brizantha BRS Paiaguás foi desenvolvida para ampliar o período de pastejo na transição entre as estações chuvosa e seca.
A senescência mais tardia das folhas permite manter alimento disponível por mais tempo. Durante a seca, a cultivar apresentou ganho médio diário por animal cerca de 80% superior ao da BRS Piatã, além de taxa de lotação aproximadamente 40% maior.
A característica pode reduzir a intensidade do vazio forrageiro, período em que a oferta e a qualidade das pastagens normalmente diminuem.
BRS Zuri e BRS Tamani atendem sistemas intensivos
Indicada para sistemas intensificados com pastejo rotacionado, a BRS Zuri é uma cultivar de Panicum maximum de porte alto, elevada produção de folhas e capacidade de resposta à adubação nitrogenada.
O material também oferece uma alternativa para áreas afetadas por manchas foliares, problema que provoca perdas em cultivares como Tanzânia-1 e Mombaça, lançadas na década de 1990.
Em experimento comparativo com o capim Massai, a BRS Zuri apresentou ganho médio diário e taxa de lotação entre 10% e 15% superiores, considerando os períodos de chuva e seca.
A BRS Tamani, também da espécie Panicum maximum, tem porte mais baixo, elevada massa foliar e manejo facilitado. Indicada para sistemas intensivos, responde à adubação nitrogenada e supera o capim Massai em produção de forragem e ganho médio de peso ao longo do ciclo.
BRS Sarandi atende solos de menor fertilidade
Lançado em 2022, o Andropogon gayanus BRS Sarandi chegou ao mercado 42 anos depois da BRS Planaltina, primeira cultivar de forrageira tropical desenvolvida pela Embrapa.
O material é indicado principalmente para sistemas de cria e recria implantados em solos de baixa fertilidade, pedregosos ou arenosos. Também apresenta capacidade de rebrotar rapidamente no início das chuvas, oferecendo alimento enquanto outras cultivares ainda estão em recuperação.
Ayres recomendou a utilização da BRS Sarandi em 20% a 30% da área das propriedades, especialmente nos solos mais rasos e menos férteis.
Experimentos conduzidos pela Embrapa Cerrados apontaram produção de 11 a 15 toneladas de forragem por hectare ao ano, teor de proteína entre 7% e 11%, taxa de lotação de três unidades animais por hectare e ganhos entre 10 e 15 arrobas por hectare ao ano.
A cultivar é recomendada para o Matopiba — região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e para o norte de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Cultivares modernas podem gerar mais de R$ 3 mil por hectare
As diferenças de desempenho também se refletem no resultado econômico das propriedades. Os cálculos apresentados por Ayres consideraram os ganhos das novas cultivares em comparação com materiais mais antigos durante um ano de produção.
A BRS Paiaguás proporcionou retorno 7% superior ao da BRS Piatã, equivalente a R$ 1.035 adicionais por hectare ao ano. Na comparação com a Basilisk, a BRS Carinás apresentou ganho 13% maior, ou R$ 483 por hectare ao ano.
A BRS Zuri também superou o capim Mombaça em 13%, com diferença de R$ 483 por hectare ao ano. A BRS Tamani registrou ganho 9% superior ao do capim Massai, representando R$ 1.593 adicionais por hectare.
O maior resultado foi observado com a BRS Quênia, que superou a cultivar Mombaça em 17%, com receita adicional calculada em R$ 3.243 por hectare ao ano. A BRS Sarandi, por sua vez, apresentou ganho 20% superior ao da BRS Planaltina, diferença de R$ 1.275 por hectare ao ano.
“Esses números representam o que os produtores deixam de ganhar por não utilizarem cultivares modernas. As diferenças obtidas em apenas um ano certamente pagam o custo adicional das sementes, que é pequeno. Imagine esses valores multiplicados por cinco ou seis anos, período em que os pastos permanecerão na propriedade”, ressaltou Ayres.
Baixa produtividade ainda limita pecuária brasileira
Apesar do potencial da atividade, a produtividade média da pecuária nacional permanece em 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano. Cerca de 76% dos pecuaristas, o equivalente a 1,12 milhão de propriedades, estão abaixo dessa média, conforme os dados apresentados pelo pesquisador.
Os indicadores reprodutivos também mostram espaço para avanços. O Brasil possui 65,6 milhões de matrizes de corte aptas à reprodução, segundo a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). A taxa média de natalidade está próxima de 60%, enquanto a taxa de desfrute é de apenas 19%.
Na avaliação de Ayres, aproximadamente 26,3 milhões de matrizes permanecem vazias todos os anos. Além de não produzirem bezerros, esses animais geram uma despesa estimada entre R$ 800 e R$ 1.200 por cabeça anualmente.
Se a taxa de desmame aumentasse de 60% para 80%, o Brasil poderia produzir mais 16,4 milhões de bezerros. Em uma fazenda com 100 matrizes, a mudança representaria 20 animais adicionais. Considerando bezerros de 12 meses, com 285 quilos e valor médio de R$ 3.400, a renda adicional seria de aproximadamente R$ 68 mil.
Evolução do boi exige pastagens mais produtivas
A pecuária moderna já registra avanços importantes no desempenho dos animais. No sistema tradicional, o peso médio de carcaça variava de 210 a 220 quilos, com abate entre 36 e 42 meses e rendimento de carcaça entre 50% e 52%.
Nos sistemas modernos, o peso médio subiu para uma faixa de 290 a 310 quilos, aproximadamente 80 quilos a mais. A idade de abate foi reduzida para 18 a 24 meses, enquanto o rendimento de carcaça avançou para 54% a 56%.
Para que esse potencial genético seja convertido em produtividade, a oferta de alimento precisa acompanhar as novas exigências dos animais.
“Se o boi mudou, temos que mudar o pasto também. Não é só capim, é tecnologia de ponta. O pasto precisa produzir mais, durar mais, responder melhor ao manejo, sustentar mais animais, gerar mais arrobas e entregar mais resultado”, concluiu Ayres.
Informações técnicas sobre as cultivares de forrageiras tropicais podem ser consultadas na página de cultivares da Embrapa e no aplicativo Pasto Certo, disponível para Android, iOS e computadores.
Fonte: Portal do Agronegócio
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