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Pesquisas

Planta tratada como mato pode proteger lavouras de batata-semente contra viroses

Pesquisa do IAC avalia o uso de espécies sentinelas para detectar precocemente vírus transmitidos por pulgões e moscas-brancas e apoiar decisões de manejo no campo


Publicado em: 15/09/2026 às 10:00hs

Planta tratada como mato pode proteger lavouras de batata-semente contra viroses

Plantas que normalmente seriam eliminadas das lavouras por serem confundidas com mato podem se tornar aliadas na proteção da batata-semente. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Agronômico (IAC-APTA) avalia o uso de espécies indicadoras capazes de alertar produtores sobre a circulação de vírus antes mesmo do aparecimento de sintomas visíveis na cultura.

O trabalho é desenvolvido no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fitossanidade do IAC, vinculado à Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA) e à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Produzidas inicialmente em ambientes livres de insetos vetores, as plantas indicadoras são mantidas sadias até o momento de serem levadas à lavoura. No campo, passam a funcionar como sentinelas: por serem mais sensíveis aos vírus da batata, podem apresentar sinais de infecção antes da cultura comercial.

A estratégia busca oferecer uma ferramenta prática e de baixo custo para o biomonitoramento fitossanitário, especialmente na produção de batata-semente, uma das etapas mais sensíveis da cadeia produtiva.

Viroses ameaçam qualidade da batata-semente

As doenças causadas por vírus estão entre os principais desafios da bataticultura. Embora não representem risco ao consumo humano, podem comprometer o desenvolvimento das plantas e provocar perdas de produtividade nas gerações seguintes.

O problema ganha maior relevância na produção de batata-semente porque o material propagativo precisa apresentar elevada qualidade sanitária. A multiplicação de tubérculos contaminados pode favorecer o acúmulo de vírus e reduzir progressivamente o potencial produtivo das lavouras.

A identificação das viroses somente pela aparência das plantas também é difícil. Os sintomas podem ser confundidos com deficiência nutricional, fitotoxicidade provocada por defensivos agrícolas ou efeitos de condições climáticas adversas.

Por esse motivo, a confirmação da presença de vírus normalmente depende de análises laboratoriais. O biomonitoramento não pretende substituir esses exames, mas indicar com maior rapidez quando é necessário aprofundar a investigação.

Plantas sentinelas ajudam a antecipar decisões

As espécies avaliadas pertencem à família das solanáceas, a mesma da batata, e apresentam alta sensibilidade aos vírus transmitidos por insetos vetores, principalmente pulgões e moscas-brancas.

No campo, pequenos grupos dessas plantas podem ser distribuídos em pontos estratégicos, como as bordaduras da lavoura e os locais mais expostos à entrada dos insetos. Durante as inspeções, técnicos e produtores acompanham o desenvolvimento e verificam a ocorrência de sintomas.

As flores precisam ser retiradas para impedir a formação de frutos e a disseminação de sementes. Esse manejo também mantém o crescimento apical das plantas e prolonga sua utilização no monitoramento.

Quando as sentinelas permanecem sadias, o resultado representa um indicativo de que a área continua sob controle. O aparecimento de sintomas, por outro lado, acende um alerta para a possível circulação de vírus e orienta uma avaliação mais detalhada da lavoura.

A informação pode ajudar produtores e inspetores a decidir se a produção reúne condições sanitárias para ser comercializada ou reservada para o plantio seguinte como batata-semente própria.

Tecnologia complementa diagnóstico laboratorial

De acordo com o pesquisador científico José Alberto Caram, da Divisão de Pesquisa e Desenvolvimento de Fitossanidade do IAC, a proposta é acrescentar uma ferramenta acessível ao sistema de monitoramento, sem substituir os métodos laboratoriais.

O recurso pode apoiar os inspetores envolvidos na certificação da batata-semente, além de técnicos e agricultores interessados em reservar parte da própria produção para a próxima temporada. Com um alerta antecipado, torna-se possível investigar a ocorrência de viroses e ajustar o manejo antes de definir o destino dos tubérculos.

As plantas indicadoras já são utilizadas há décadas em laboratórios de fitovirologia para auxiliar na identificação de doenças. O avanço da pesquisa do IAC está na adaptação desse conhecimento para as condições práticas de cultivo.

“As plantas indicadoras já eram usadas para diagnóstico em laboratório. O que estamos fazendo é transformar esse conhecimento em uma ferramenta de biomonitoramento para a produção de batata-semente”, explica Caram.

Agricultura tropical mantém pressão de insetos vetores

A estratégia é especialmente relevante para as condições brasileiras. Em países europeus, as baixas temperaturas do inverno reduzem naturalmente as populações de pulgões e de outros insetos transmissores de vírus.

No Brasil, entretanto, esses vetores podem permanecer ativos durante praticamente todo o ano. A pressão constante favorece a disseminação das viroses e exige técnicas de monitoramento adaptadas à agricultura tropical.

Com a instalação das plantas sentinelas em pontos vulneráveis da propriedade, o produtor pode ampliar a vigilância sobre a entrada dos insetos e identificar mais cedo possíveis ameaças à qualidade sanitária da produção.

Datura metel pode atuar como barreira biológica

Entre as espécies estudadas está a Datura metel, que pode desempenhar duas funções na lavoura. Além de indicar a presença de vírus, a planta apresenta um mecanismo natural de antibiose com potencial para atuar como barreira biológica contra pulgões e moscas-brancas.

Segundo Caram, após entrarem em contato com a planta, os insetos podem rejeitá-la e interromper a alimentação. A característica amplia o interesse pela espécie, que poderá contribuir simultaneamente para o monitoramento das viroses e para a redução da movimentação de vetores.

A pesquisa busca, assim, transformar plantas frequentemente eliminadas das áreas agrícolas em instrumentos de vigilância fitossanitária. Se validada para uso em campo, a estratégia poderá auxiliar na proteção da batata-semente, acelerar a tomada de decisão e reduzir os riscos de multiplicação de material contaminado.

Fonte: Portal do Agronegócio

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