Preço do leite sob pressão: oferta e importações crescem, enquanto custos apertam margens
Queda no mercado spot e em derivados sinaliza risco para os próximos pagamentos ao produtor; alimentação mais cara amplia preocupação na pecuária leiteira
Publicado em: 26/10/2026 às 11:50hs
O mercado brasileiro de leite chega ao fim de outubro com pressão sobre os preços e maior preocupação com as margens dos produtores. A recuperação da captação nacional, o crescimento das importações e o consumo insuficiente para absorver a oferta disponível enfraquecem as negociações entre indústrias e as cotações de importantes derivados.
Levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) e do MilkPoint Mercado mostram que esse movimento ocorre enquanto a alimentação do rebanho fica mais cara. A combinação aumenta o risco de redução da rentabilidade caso as baixas avancem para a remuneração do leite captado.
Leite spot cai e sinaliza pressão sobre pagamentos ao produtor
Na segunda quinzena de outubro, o preço do leite spot — negociado entre empresas da cadeia — recuou em todos os estados acompanhados pelo MilkPoint Mercado. A média pesquisada ficou em R$ 2,586 por litro, redução de R$ 0,059 frente à quinzena anterior.
Em Minas Gerais, a queda foi de R$ 0,120 por litro, levando a cotação a R$ 2,589. Em Goiás, o preço médio chegou a R$ 2,490, após retração de R$ 0,040.
Embora as baixas tenham perdido intensidade em relação à primeira metade do mês, o resultado indica continuidade da pressão nas negociações. Para os pecuaristas, o principal ponto de atenção é a possibilidade de esse enfraquecimento chegar aos próximos pagamentos das indústrias.
O mercado spot, porém, tem período de referência e dinâmica diferentes dos indicadores ao produtor. Por isso, suas oscilações podem antecipar mudanças nas condições comerciais, mas não correspondem diretamente ao valor recebido nas propriedades.
Última referência do Cepea ainda mostra estabilidade no campo
No último indicador consolidado apresentado, referente ao leite captado em agosto, a Média Brasil líquida do Cepea foi de R$ 2,8869 por litro, praticamente estável diante dos R$ 2,8761 de julho. Em junho, a referência havia sido de R$ 2,7464 por litro.
Esses valores ainda não incorporam integralmente o enfraquecimento observado nas negociações de outubro. Os próximos levantamentos serão importantes para dimensionar a transmissão das quedas do spot e dos derivados à remuneração dos produtores.
Captação maior amplia disponibilidade de matéria-prima
A recuperação da produção nacional é um dos fatores que explicam a mudança de cenário. O Índice de Captação de Leite do Cepea, o ICAP-L, avançou 2,38% em julho sobre junho e outros 3,86% em agosto, na comparação mensal.
O crescimento acompanha a recuperação sazonal da atividade, especialmente no Sul. Em outras bacias leiteiras, a chegada das chuvas também pode favorecer a produção nos próximos meses, conforme as condições climáticas e o manejo das propriedades.
Com mais matéria-prima disponível, os laticínios precisam escoar um volume maior de produtos. Entretanto, segundo o MilkPoint Mercado, o varejo mantém compras cautelosas, reposições pontuais e negociações por preços menores.
UHT e muçarela recuam, mas derivados têm comportamentos distintos
No atacado paulista, os dados do Cepea apontaram queda real de 4,76% no leite UHT em setembro, frente a agosto, com média próxima de R$ 4,69 por litro. A muçarela caiu 2,77%, para cerca de R$ 34,91 por quilo, e o leite em pó fracionado recuou 4,38%, para R$ 29,63 por quilo.
Na parcial de outubro até o dia 15, o levantamento registrou novas baixas de 2,32% para o UHT e de 2,05% para a muçarela, nas respectivas bases de comparação. As médias informadas foram de R$ 4,54 por litro e R$ 34,97 por quilo.
Em outra referência de mercado, o MilkPoint identificou redução da muçarela de R$ 31,60 para R$ 31,30 por quilo.
A pressão, contudo, não atingiu todos os derivados da mesma forma. No levantamento mais recente do MilkPoint, o leite em pó integral permaneceu em R$ 24,00 por quilo, o desnatado caiu para R$ 23,30 e o fracionado avançou para R$ 30,00 por quilo.
As pesquisas acompanham referências e períodos próprios, o que exige cuidado na comparação direta entre os valores.
Importações de lácteos crescem quase 26% em setembro
A entrada de produtos estrangeiros também amplia a oferta no Brasil. Segundo o Cepea, com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as importações somaram 249,6 milhões de litros em equivalente-leite em setembro.
O volume representa crescimento de 8,38% sobre agosto e de 25,99% em relação a setembro de 2025.
O leite em pó respondeu por aproximadamente 69,8% das compras externas, enquanto os queijos participaram com 29,6%. Esses produtos aumentam as alternativas de abastecimento e reforçam a concorrência no mercado doméstico, somando-se à recuperação da produção brasileira.
Alimentação mais cara reduz poder de compra do pecuarista
Enquanto os preços perdem sustentação, as despesas da atividade avançam. O Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária leiteira, acompanhado pelo Cepea, subiu 0,63% em agosto e 0,46% em setembro.
Em setembro, o grupo de concentrados registrou alta de 0,84%, com encarecimento do milho, da soja em grão e do farelo de soja utilizados na alimentação animal.
A relação de troca entre leite e milho também piorou. Em agosto, foram necessários 23,19 litros de leite para adquirir uma saca de 60 quilos do cereal, contra 22,54 litros em julho.
Isso significa que o produtor precisou vender mais leite para comprar a mesma quantidade de milho. Apesar da piora mensal, a relação permaneceu mais favorável que a média dos últimos 12 meses, próxima de 28 litros por saca.
O impacto sobre a margem varia conforme a produtividade do rebanho, a participação da ração nas despesas, as condições de compra dos insumos e o preço recebido em cada propriedade.
Mercado internacional sobe, mas reação no Brasil depende da demanda
No exterior, os dados apresentados pelo MilkPoint Mercado mostram um movimento diferente. O 414º leilão da Global Dairy Trade (GDT) registrou alta de 2,5% no índice geral, com preço médio de US$ 4.021 por tonelada.
O leite em pó integral avançou 4,4%, para US$ 3.760 por tonelada, enquanto o desnatado subiu 3,4%, para US$ 3.975.
A valorização internacional pode alterar a competitividade das importações, mas seus efeitos sobre o mercado brasileiro dependem também do câmbio, da disponibilidade interna e do consumo. Assim, o resultado do leilão não assegura uma recuperação imediata dos preços nacionais.
O que acompanhar no mercado do leite nos próximos meses
As análises do Cepea e do MilkPoint Mercado indicam que a oferta crescente e as dificuldades de escoamento dos derivados continuam limitando a reação das cotações no curto prazo.
O clima poderá modificar esse equilíbrio. No boletim de outubro, o Cepea considera que possíveis efeitos do El Niño podem restringir a expansão da produção mais adiante e amenizar as quedas. Essa possibilidade, entretanto, ainda não confirma uma mudança de tendência.
Para avaliar os próximos movimentos, os principais pontos de atenção são os pagamentos ao produtor, o ritmo da captação, as importações, as vendas de derivados e os custos de alimentação. A evolução desses fatores determinará a intensidade da pressão sobre as margens e as condições para uma eventual recuperação do mercado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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