Nutrição de vacas leiteiras: probióticos e fontes lipídicas podem ampliar eficiência e sólidos do leite
Especialistas no 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite destacam estratégias para melhorar o aproveitamento da dieta, proteger a saúde dos animais e apoiar o desempenho dos rebanhos
Publicado em: 09/10/2026 às 11:45hs
A nutrição dos rebanhos leiteiros ganha novas possibilidades com o uso de probióticos e a combinação de fontes lipídicas nas dietas. Essas estratégias podem contribuir para a saúde digestiva, a eficiência alimentar e a produção de sólidos do leite, desde que ajustadas às necessidades dos animais e às características dos produtos utilizados.
O tema esteve na programação científica do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet). Nesta quinta-feira (8), especialistas discutiram os mecanismos de ação dos probióticos e o papel dos ácidos graxos na alimentação de bezerras e vacas leiteiras.
Probióticos podem favorecer o aproveitamento dos nutrientes
O zootecnista Bruno Ieda Cappellozza apresentou os efeitos dos probióticos sobre o funcionamento do rúmen e do intestino, destacando sua contribuição potencial para o aproveitamento dos nutrientes da dieta.
Segundo o especialista, bacilos utilizados como probióticos podem produzir enzimas que auxiliam na degradação de componentes dos concentrados, da silagem e da ração totalmente misturada, conhecida pela sigla TMR.
No intestino, a atuação envolve mecanismos diretos e indiretos. Entre eles estão a inibição de determinadas bactérias potencialmente patogênicas e o estímulo à produção de muco, que participa da proteção da parede intestinal.
Essa barreira física, química e biológica pode ajudar a preservar a integridade do intestino e reduzir os impactos de agentes patogênicos e micotoxinas, conforme explicou Cappellozza.
Bezerras e vacas exigem abordagens diferentes
A fase de vida do animal influencia os objetivos da suplementação. Nas bezerras, o sistema imunológico e a microbiota intestinal ainda estão em desenvolvimento. Nesse período, os probióticos podem favorecer a formação de uma comunidade microbiana mais adequada à saúde digestiva.
De acordo com Cappellozza, a proteção intestinal e a limitação do crescimento de bactérias patogênicas podem contribuir, indiretamente, para reduzir a ocorrência de diarreias e pneumonia. A melhora da saúde nessa etapa também pode repercutir no crescimento e no desempenho futuro dos animais.
Nas vacas, o foco está principalmente na saúde ruminal e intestinal e no melhor aproveitamento da alimentação. Essa contribuição ganha relevância em fases de elevada exigência nutricional e metabólica, como o período de transição e o início da lactação.
O especialista também mencionou possíveis efeitos sobre a contagem de células somáticas (CCS) e a ocorrência de doenças. Entretanto, ressaltou que os resultados dependem da escolha do microrganismo, da cepa, da dose e da forma de utilização.
Por isso, a avaliação dos probióticos deve considerar as características de cada produto. Microrganismos e cepas distintos apresentam mecanismos de ação diferentes, o que impede generalizar seus efeitos sobre o rebanho.
Fontes lipídicas vão além do fornecimento de energia
O doutor em Saúde Animal Jonas de Souza abordou a importância dos lipídeos e dos ácidos graxos para a produção, a reprodução e a saúde dos bovinos.
Embora a suplementação lipídica seja utilizada na bovinocultura leiteira desde a década de 1980, sua relevância aumentou nos últimos dez anos. Segundo o especialista, esse movimento acompanha o avanço genético dos rebanhos e a busca por maior concentração de sólidos no leite.
Com animais mais produtivos, as fontes de gordura ajudam a ajustar o fornecimento de nutrientes. O avanço das pesquisas, porém, mostrou que a formulação precisa considerar também o perfil dos ácidos graxos e suas funções no organismo.
A combinação de diferentes fontes lipídicas, conforme Souza, permite direcionar a estratégia nutricional aos objetivos de cada categoria e fase produtiva.
Perfil dos ácidos graxos influencia os resultados da dieta
Entre os principais ácidos graxos presentes na alimentação dos bovinos estão o palmítico, o esteárico, o oleico, o linoleico e o linolênico.
Segundo Souza, os ácidos linoleico e linolênico, encontrados principalmente em forragens e oleaginosas, fornecem ômega 6 e ômega 3 e participam do equilíbrio de processos inflamatórios.
O ácido oleico, fonte de ômega 9, foi associado pelo especialista à melhora da digestibilidade das gorduras e ao desempenho produtivo. Ele também destacou estudos que relacionam seu fornecimento a efeitos sobre a regulação da insulina, o consumo de alimento e a resposta das vacas no pós-parto.
Já o ácido esteárico pode contribuir para a recuperação do escore de condição corporal. O palmítico, por sua vez, tem aplicação voltada ao aumento da síntese de gordura do leite e da produção corrigida para energia.
Sólidos do leite ganham importância para a competitividade
A valorização da gordura e da proteína amplia a atenção à composição do leite, além do volume produzido. Na avaliação de Souza, mudanças no consumo de derivados reforçam a importância desses componentes para a indústria.
O especialista projeta maior disponibilidade de tecnologias e produtos de suplementação lipídica no Brasil nos próximos anos, acompanhando a evolução dos rebanhos e as exigências do mercado.
Para ele, o foco em sólidos também pode fortalecer a competitividade brasileira no comércio internacional de lácteos. Nesse cenário, a escolha das fontes nutricionais passa a integrar uma estratégia que reúne saúde animal, eficiência produtiva e qualidade da matéria-prima.
Fonte: Portal do Agronegócio
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