Touros melhoradores elevam lucro, reduzem custos e aceleram produtividade na pecuária
Avaliação genética e eficiência alimentar podem aumentar o lucro por animal em 27% e gerar economia de R$ 360 mil em confinamentos com mil bovinos
Publicado em: 17/09/2026 às 16:30hs
A utilização de touros com mérito genético comprovado pode ampliar a produtividade, reduzir custos e gerar ganhos econômicos permanentes na pecuária de corte. Resultados apresentados pela Embrapa Cerrados mostram que reprodutores avaliados melhoram características como fertilidade, precocidade sexual, ganho de peso, qualidade de carcaça e eficiência alimentar.
Os dados foram apresentados pelo pesquisador Cláudio Magnabosco durante a palestra “Impacto econômico de touros melhoradores na pecuária de corte”, realizada na 34ª Expoabra, no Parque Granja do Torto, em Brasília.
Em uma das simulações, um animal com eficiência alimentar 10% superior proporcionou lucro próximo de R$ 2.600, resultado 27% maior que os cerca de R$ 2 mil obtidos com um novilho de desempenho médio.
“O touro melhorador é uma ferramenta de lucro. De uma geração para outra, o ganho genético é cumulativo e permanente, assim como o erro ou o pioramento genético”, afirmou Magnabosco.
Eficiência produtiva ainda desafia pecuária brasileira
O Brasil possui um rebanho maior que o dos Estados Unidos, mas registra menor eficiência na conversão do número de animais em carne produzida.
Segundo os dados apresentados, a produção brasileira estimada para 2026 pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) é de 12,35 milhões de toneladas equivalente-carcaça, obtidas a partir de um rebanho de 195,5 milhões de cabeças. A relação é de 15,83 bovinos para cada tonelada equivalente-carcaça produzida.
Nos Estados Unidos, informações do Departamento de Agricultura do país (USDA) indicam produção de 11,81 milhões de toneladas equivalente-carcaça com 86,7 milhões de bovinos, relação de 7,34 cabeças por tonelada.
“A palavra de ordem é eficiência de produção. Na pecuária de corte, temos que atender à demanda do mercado e tornar o sistema mais rentável”, destacou o pesquisador.
O avanço depende da combinação entre genética, sanidade, nutrição, manejo, bem-estar animal e oferta de forragem de qualidade. O objetivo é produzir mais carne por área, com menor custo e melhor utilização dos recursos naturais.
Touros sem avaliação ainda predominam nos rebanhos
O Brasil possui aproximadamente 320 mil touros avaliados para reprodução. Apesar disso, cerca de 80% dos reprodutores utilizados nos rebanhos ainda seriam animais escolhidos apenas pela aparência ou pelo desempenho visual dentro do lote.
Esses bovinos são conhecidos como “ponta de boiada”. Embora possam parecer superiores, não possuem indicadores capazes de demonstrar quais características genéticas transmitirão aos descendentes.
“O produtor escolhe o que considera ser o melhor boi do lote e o utiliza como reprodutor. Mas não existem indicadores sobre esse touro. Ele é bom em quê e em quais condições? Isso cria um ciclo vicioso que precisamos interromper”, alertou Magnabosco.
O impacto da escolha é multiplicado porque um único touro pode cobrir, em média, de 25 a 30 vacas por estação de monta. Caso o reprodutor transmita características indesejáveis, o problema poderá alcançar dezenas de descendentes e permanecer no rebanho por várias gerações.
Matrizes e novilhas concentram patrimônio genético
As matrizes e as novilhas de reposição constituem o principal estoque genético da propriedade, pois permanecem no rebanho durante vários ciclos produtivos.
Uma novilha eficiente precisa ser formada dentro da própria fazenda, preferencialmente a partir de touros avaliados para fertilidade, habilidade materna, precocidade sexual e desempenho à desmama.
A escolha do reprodutor deve considerar o objetivo econômico da propriedade e as exigências do mercado consumidor. Entre as características mais importantes estão fertilidade, conversão alimentar, velocidade de crescimento, qualidade da carne, acabamento de carcaça e longevidade produtiva.
“Temos que nos orientar por quem paga a conta. A seleção precisa considerar aquilo que realmente importa para o mercado e para o sistema de produção”, explicou o pesquisador.
Como identificar um touro melhorador
A aparência física, denominada fenótipo, não é suficiente para determinar a superioridade de um reprodutor. O desempenho observado resulta da interação entre genética e ambiente.
A identificação dos animais superiores combina avaliação genética, análise genômica, testes funcionais, desempenho individual e resultados dos descendentes.
Nos programas de melhoramento, amostras de pelos são coletadas para análise genética. Os animais também são cadastrados e avaliados quanto às características físicas e produtivas. Posteriormente, softwares especializados processam as informações e verificam a consistência dos dados.
Uma das principais ferramentas utilizadas é a Diferença Esperada na Progênie Genômica (DEPG), que estima o desempenho esperado dos descendentes a partir de informações do próprio animal, de parentes e de marcadores moleculares presentes no DNA.
Avaliação genômica antecipa decisões no rebanho
Os marcadores moleculares são variações na sequência do DNA associadas a características de interesse econômico. A incorporação dessas informações aumenta a precisão das avaliações, especialmente em animais jovens ou com poucos descendentes.
A tecnologia também permite analisar características caras ou difíceis de medir, identificar paternidade e acelerar a evolução genética do rebanho.
Entre as DEPGs mais relevantes estão as relacionadas à eficiência alimentar, maciez da carne e stayability, indicador que mede a capacidade de uma matriz permanecer produtiva por mais tempo.
A avaliação genômica não substitui as demais ferramentas. Testes de progênie, avaliações genéticas e provas de desempenho podem ser utilizados de forma complementar para elevar a confiabilidade da seleção.
Embrapa já avaliou mais de 4,8 mil touros jovens
Desde 1998, a Embrapa Cerrados realiza o Teste de Desempenho de Touros Jovens (TDTJ), com apoio de instituições parceiras.
A avaliação ocorre a pasto e considera características de crescimento, reprodução, funcionalidade e carcaça. Entre os critérios estão peso corporal, ganho de peso, perímetro escrotal, volume testicular, estrutura corporal, precocidade, musculosidade, aprumos, área de olho de lombo e acabamento de carcaça.
Com base nesses resultados, os animais são classificados nas categorias elite, superior e comercial.
Em 27 anos, o programa avaliou mais de 4,8 mil bovinos das raças Nelore, Tabapuã, Guzerá e Brahman, provenientes principalmente das regiões Centro-Oeste e Sudeste.
Mais de 50 touros foram contratados por centrais de inseminação, e a estimativa é que os reprodutores avaliados tenham gerado mais de 250 mil descendentes.
Eficiência alimentar pode elevar lucro em 27%
Os animais classificados como elite ou superiores no TDTJ seguem para o Teste de Eficiência Alimentar. A avaliação compara o ganho de peso com o consumo de matéria seca.
O objetivo é identificar bovinos que consomem menos alimento que o esperado e, simultaneamente, apresentam ganho de peso acima da previsão. Apenas comer pouco não significa ser eficiente: o animal também precisa converter adequadamente o alimento consumido em carne.
Em uma comparação apresentada por Magnabosco, o novilho com eficiência alimentar 10% superior gerou lucro próximo de R$ 2.600. O resultado foi 27% maior que os cerca de R$ 2 mil obtidos pelo animal de desempenho médio.
“É muito importante não adquirir animais que simplesmente comem pouco. É necessário verificar o ganho médio residual. O animal precisa ganhar muito peso e consumir pouco”, ressaltou.
Seleção genética reduz R$ 264 mil no custo do confinamento
A dimensão econômica da eficiência alimentar também foi demonstrada em uma simulação com mil bovinos confinados durante 90 dias.
O sistema utilizou aproximadamente 38 hectares de silagem de milho, com custo de R$ 7 mil por hectare, e dieta formada por 60% de volumoso e 40% de concentrado.
A utilização de animais eficientes reduziu o consumo em 54 toneladas de matéria seca e gerou uma economia de R$ 264 mil no custo de produção.
Outro experimento comparou dois touros com ganhos diários previstos semelhantes, mas consumos efetivos diferentes. Ao final de 90 dias, a diferença no consumo de alimento chegou a 8,18%, equivalente a R$ 368,01 por animal, ou cerca de R$ 4 por dia.
Considerando a utilização do sêmen do touro mais eficiente e um confinamento com mil descendentes, a redução potencial no custo de alimentação chegaria a R$ 360 mil em 90 dias.
Genética BRGN agrega R$ 258 mil por ano
As pesquisas da Embrapa Cerrados com a marca Brasil Genética Nelore (BRGN) começaram em 2000. O programa foi estruturado para desenvolver animais Nelore adaptados às condições do Cerrado e disponibilizar genética avaliada ao mercado.
Em uma simulação com mil matrizes, 800 nascimentos por ano e mortalidade de 2%, o sistema produziria 784 animais anualmente. Para atender ao rebanho, seriam utilizados aproximadamente 34 touros BRGN, na proporção de um reprodutor para cada 30 vacas.
Considerando uma arroba adicional de carcaça por descendente e a arroba cotada a R$ 330, o ganho econômico estimado seria próximo de R$ 258 mil por ano.
Nelore BRGN supera média em peso e carcaça
Os resultados produtivos também mostram diferenças entre a genética BRGN e a média dos animais Nelore avaliados em programas de melhoramento.
A DEP para peso aos 450 dias é de 6,3 quilos na média da raça, enquanto os animais BRGN alcançam 25,12 quilos. Para área de olho de lombo, a média do Nelore é de -0,56 centímetro quadrado, diante de +3,1 centímetros quadrados no BRGN.
O peso ao abate passa de 505,8 para 540,12 quilos, enquanto o peso médio de carcaça avança de 17,44 para 19,28 arrobas. O rendimento de carcaça aumenta de 51,72% para 53,53%.
Em mil descendentes, a superioridade da DEP para peso aos 450 dias representa uma produção adicional de 25.120 quilos com o Nelore BRGN, ante 6.300 quilos na média comparativa.
O custo diário de alimentação também foi menor: R$ 9,48 para o BRGN jovem, diante de R$ 9,72 para o Nelore convencional de quatro anos.
Touros avaliados aumentam prenhez das filhas
A genética do reprodutor exerce impacto direto sobre a eficiência reprodutiva das filhas. O pesquisador apresentou resultados de touros com diferentes DEPs para probabilidade de parto até os 30 meses.
Entre os reprodutores com indicador de 36%, apenas 8% das filhas ficaram prenhes até essa idade. No grupo com DEP de 49,5%, a taxa chegou a 47%.
Nos touros com probabilidade de parto de 63%, aproximadamente 98% das filhas emprenharam até os 30 meses.
“Se não houver touros avaliados, não adianta apenas oferecer mais alimento. O animal precisa ter potencial genético para emprenhar, e o uso de reprodutores melhoradores é fundamental”, afirmou Magnabosco.
Genética deve atender ao objetivo da propriedade
Os touros não apresentam o mesmo desempenho em todas as características. Alguns são superiores para produção de leite das filhas, enquanto outros se destacam em fertilidade, longevidade, acabamento de carcaça, precocidade sexual ou eficiência alimentar.
Por isso, a escolha não deve ser orientada somente pelo preço da dose de sêmen, pela aparência do animal ou pela recomendação comercial. O produtor precisa identificar os pontos que limitam o próprio sistema e selecionar a genética capaz de corrigi-los.
“O produtor tem que comprar aquilo de que seu sistema de produção precisa, e não simplesmente o que a central de inseminação deseja vender”, orientou o pesquisador.
Os ganhos proporcionados por um touro melhorador são cumulativos porque permanecem nas matrizes, novilhas e futuras gerações. A mesma lógica vale para decisões equivocadas, que podem disseminar características indesejáveis pelo rebanho.
A seleção de reprodutores comprovadamente superiores, portanto, deixa de ser apenas uma decisão zootécnica e passa a integrar a estratégia financeira da fazenda, com efeitos sobre custos, produtividade, qualidade da carne e rentabilidade.
Fonte: Portal do Agronegócio
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