Arroba valorizada e milho favorável abrem janela para intensificar terminação de bovinos a pasto
Relação de troca estimula suplementação estratégica na recria e na engorda, mas pecuarista precisa avaliar custos, disponibilidade de forragem e preço da reposição
Publicado em: 17/09/2026 às 14:30hs
A valorização da arroba do boi gordo e a relação favorável com o preço do milho abrem uma janela de oportunidade para pecuaristas intensificarem o ganho de peso dos animais. Nesse cenário, a suplementação estratégica e a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) podem contribuir para elevar o peso das carcaças e melhorar a rentabilidade da atividade.
No fim de agosto, os contratos futuros de boi gordo registraram maior procura na B3, em meio à expectativa de preços mais elevados nos vencimentos a partir de outubro. Após uma média de R$ 345,92 por arroba em agosto, as projeções para novembro chegaram a aproximadamente R$ 372,50. Na curva futura, fevereiro de 2027 apareceu cotado a R$ 376,75 por arroba.
Apesar da perspectiva positiva, o resultado financeiro do pecuarista não depende apenas do preço recebido pelo boi terminado. O avanço da arroba também costuma pressionar os valores dos animais de reposição, tornando necessário produzir mais peso em menos tempo e com controle rigoroso dos custos.
Relação de troca favorece suplementação dos bovinos
Para o zootecnista André Alves de Oliveira, doutor em sistemas intensivos de produção de bovinos e gerente técnico de gado de corte da Trouw Nutrition Brasil, o momento exige planejamento dentro da fazenda.
Animais encaminhados à terminação no ciclo atual podem ter sido adquiridos por preços inferiores aos praticados atualmente. A eventual venda da arroba em patamares mais altos favorece o resultado, mas a margem efetiva dependerá da quantidade de peso agregada e do custo necessário para produzi-la.
“Independentemente de a arroba atingir ou não novos patamares especulativos, o fato concreto é que o produtor está em um excelente momento para agregar peso à carcaça”, afirma Oliveira.
A relação de troca entre a arroba do boi gordo e o milho encerrou agosto em 5,17 sacas por arroba, um dos níveis mais favoráveis dos últimos anos. A perspectiva, entretanto, é de recuo para 4,54 sacas por arroba em março de 2027.
A possível piora desse indicador, somada à valorização da reposição, reforça a oportunidade de elevar a suplementação enquanto os insumos permanecem competitivos.
Recria intensiva pode melhorar resultado na terminação
Uma das estratégias apontadas pelo especialista é aumentar o nível de suplementação durante a recria. O objetivo é conduzir animais mais pesados à fase final, reduzindo a necessidade de prolongar a terminação, etapa que concentra parte expressiva dos custos do ciclo pecuário.
“Chegar com animais mais pesados à terminação, após um nível maior de suplementação na recria, é uma estratégia para repor um garrote mais caro”, explica Oliveira.
A decisão precisa considerar o custo da dieta, a qualidade das pastagens, a capacidade de lotação e o ganho médio diário esperado. O aumento da suplementação somente gera retorno quando o peso adicional produzido apresenta valor superior ao custo marginal da alimentação.
Além disso, cada propriedade deve calcular a estratégia de acordo com seu fluxo de caixa, disponibilidade de mão de obra, estrutura de cochos e oferta regional de grãos e coprodutos.
Terminação Intensiva a Pasto reduz demanda por infraestrutura
A Terminação Intensiva a Pasto surge como uma opção para acelerar a engorda sem exigir toda a estrutura de um confinamento convencional. O sistema combina o fornecimento elevado de concentrado com a permanência dos bovinos nas pastagens.
Na estratégia denominada Confinamento Expresso, marca da Bellman | Trouw Nutrition, o fornecimento diário de ração varia entre 1,5% e 2% do peso vivo do animal. O volume corresponde, geralmente, a aproximadamente 8 a 12 quilos por cabeça ao dia.
Nesse modelo, o concentrado representa entre 70% e 85% do consumo de matéria seca, enquanto a forragem responde pela parcela restante da dieta. Conforme o especialista, a estratégia pode acelerar o ganho de peso, melhorar o acabamento das carcaças e alcançar índices produtivos próximos aos observados no confinamento fechado.
A intensificação também permite ampliar a taxa de lotação, que pode chegar a dez animais por hectare, dependendo da disponibilidade e da qualidade da forragem, do manejo e das condições da propriedade.
Dieta precisa garantir energia e segurança ruminal
O aumento no fornecimento de concentrado exige equilíbrio entre energia, proteína, minerais, vitaminas e aditivos. Formulações inadequadas ou mudanças bruscas na dieta podem provocar distúrbios digestivos, comprometer o consumo e reduzir o desempenho dos animais.
Entre os ingredientes que podem compor as dietas estão os Grãos Secos de Destilaria com Solúveis, conhecidos como DDGs. O coproduto da fabricação de etanol de milho possui concentração de proteína e energia e, em algumas regiões, pode apresentar custo competitivo em relação ao próprio cereal.
A viabilidade, entretanto, depende da oferta local, do preço do produto, dos custos de transporte e da composição nutricional de cada lote.
Para dietas formuladas na fazenda, a empresa cita os núcleos Bellpeso Express, destinado à combinação com fontes energéticas, e Bellpeso HP DDG, desenvolvido para rações com inclusão de DDG. Segundo Oliveira, o balanceamento adequado busca estabilizar o consumo, preservar o ambiente ruminal e melhorar a eficiência alimentar.
Planejamento forrageiro define sucesso da TIP
Embora reduza a necessidade de instalações típicas do confinamento fechado, a Terminação Intensiva a Pasto não dispensa planejamento. Antes de elevar a lotação ou aumentar o fornecimento de concentrado, o pecuarista deve calcular a massa de forragem disponível e a capacidade de suporte dos piquetes.
A pastagem continua exercendo função importante no sistema, mesmo quando representa uma parcela menor do consumo de matéria seca. A falta de forragem pode provocar disputa entre os animais, instabilidade no consumo e queda no desempenho esperado.
Também é necessário dimensionar corretamente os cochos, garantir acesso à água de qualidade, estabelecer protocolos de adaptação à dieta e acompanhar regularmente o ganho de peso.
Viabilidade varia conforme o preço regional dos grãos
Estratégias mais intensivas tendem a apresentar maior competitividade em regiões com agricultura consolidada e oferta abundante de insumos, especialmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Áreas de expansão agrícola no Norte e no Nordeste, como Rondônia, Pará e Matopiba, também podem reunir condições favoráveis.
Em localidades onde milho, DDG e outros ingredientes apresentam custos elevados, o nível de suplementação precisa ser ajustado para preservar a eficiência econômica.
A valorização da arroba melhora as perspectivas da pecuária, mas não assegura lucro isoladamente. O melhor resultado dependerá da capacidade de transformar insumos em peso adicional, controlar o custo da dieta e entregar animais mais pesados sem prolongar excessivamente o ciclo de produção.
Fonte: Portal do Agronegócio
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