Custo alimentar cai para menos de 48% da arroba produzida e confinamento bate recorde na relação de troca
ICAP/Ponta Agro mostra menor custo alimentar em 23 meses no Sudeste e lucro da arroba produzida supera R$ 1,1 mil por cabeça nas duas principais regiões de confinamento do Brasil
Publicado em: 14/08/2026 às 10:30hs
O confinamento de bovinos ganhou eficiência econômica em julho, com queda do custo alimentar, recuperação da receita e melhora da margem nas principais regiões produtoras do país. Dados do Índice de Custo Alimentar Ponta (ICAP), da Ponta Agro, mostram que, no Sudeste, menos da metade das arrobas produzidas durante o ciclo de confinamento foi necessária para pagar toda a alimentação dos animais.
O custo alimentar representou 47,9% das 7,59 arrobas produzidas por animal na região. Na prática, foram necessárias apenas 3,64 arrobas para cobrir a alimentação de um ciclo médio de 109 dias.
O desempenho levou a Relação de Troca ICAP/Boi Gordo ao recorde de 29,97 dias, acima dos 29,18 dias registrados em abril. Isso significa que uma arroba de boi gordo passou a ser suficiente para pagar praticamente um mês de alimentação no confinamento.
O indicador é calculado com base em dados reais coletados por tecnologias de gestão de confinamento da Ponta Agro. Segundo a empresa, a base monitorada representa cerca de 62% dos animais confinados no Brasil, conforme dados do Beef Report Abiec 2025.
Custo alimentar recua no Sudeste
A melhora dos indicadores no Sudeste foi resultado da combinação entre menor custo da alimentação e valorização da arroba do boi gordo.
Em julho, o ICAP da região caiu 2,63%, para R$ 11,48 por cabeça/dia, menor nível desde agosto de 2024. Ao mesmo tempo, a cotação da arroba avançou 3,77%, chegando a R$ 344.
Com o custo alimentar mais baixo e a receita maior, apenas 3,64 das 7,59 arrobas produzidas foram destinadas ao pagamento da alimentação. As 3,95 arrobas restantes, equivalentes a 52,1% da produção, ficam disponíveis para absorver os demais custos da atividade e contribuir para a formação da margem.
Centro-Oeste mantém forte eficiência apesar de alta do ICAP
No Centro-Oeste, o cenário foi diferente. O ICAP avançou 1,63% em julho, para R$ 13,12 por cabeça/dia.
A alta, porém, não foi provocada pelo encarecimento da dieta de terminação. Pelo contrário, o custo da dieta caiu 1,05%, registrando o quarto recuo consecutivo, enquanto o milho apresentou nova queda de 9,1%.
A pressão sobre o ICAP veio principalmente do aumento do consumo de matéria seca, de 2,11%, além da elevação dos custos das fases de adaptação, de 3,30%, e crescimento, de 1,19%.
Mesmo assim, o Centro-Oeste manteve forte desempenho econômico no confinamento.
Lucro da arroba produzida supera R$ 1,1 mil
A lucratividade da arroba produzida avançou nas duas regiões e atingiu os maiores níveis desde março.
No Sudeste, o indicador chegou a R$ 1.145,71 por cabeça, alta de 13,73%. No Centro-Oeste, alcançou R$ 1.138,30, crescimento de 8,08%.
A diferença entre as duas regiões foi de apenas R$ 7,41 por cabeça, configurando praticamente um empate técnico.
O cálculo considera os dados médios dos animais abatidos no mês de referência e leva em conta exclusivamente o resultado das arrobas produzidas durante o período de confinamento. O indicador não incorpora eventual ágio pago na compra do boi magro.
Indicadores de julho
- Centro-Oeste
- Custo da arroba produzida: R$ 180,62, queda de 3,08%
- Arroba do boi físico: R$ 321,50, queda de 0,62%
- Lucro da arroba produzida: R$ 1.138,30 por cabeça, alta de 8,08%
- Sudeste
- Custo da arroba produzida: R$ 193,05, queda de 3,13%
- Arroba do boi físico: R$ 344,00, alta de 3,77%
- Lucro da arroba produzida: R$ 1.145,71 por cabeça, alta de 13,73%
Insumos mais baratos aliviam custo da dieta no Centro-Oeste
Na análise trimestral, considerando o período de maio a julho, o custo da dieta de terminação no Centro-Oeste encerrou julho 3,13% abaixo da média do trimestre.
O movimento foi sustentado principalmente pela redução dos custos de volumosos e energéticos.
- Energéticos: -7,44%
- Proteicos: -0,76%
- Volumosos: -9,88%
- Outros: +7,26%
Entre os ingredientes energéticos, o milho grão seco ficou 17,3% abaixo da média trimestral. Também apresentaram redução a casca de soja, com queda de 6,4%, e a silagem de milho grão úmido, com recuo de 4,9%.
Entre os ingredientes proteicos, a estabilidade esconde movimentos distintos. A ureia caiu 12,7%, enquanto a torta de algodão recuou 7%. Na direção contrária, o DDG subiu 27,1% e o farelo de amendoim avançou 15,8%.
Nos volumosos, a silagem de milho ficou 24,3% abaixo da média trimestral, enquanto a casca de algodão recuou 23,6%. O principal movimento de alta veio do feno, que ficou 14,9% acima da média do período.
Bagaço de cana ajuda a reduzir custo da dieta no Sudeste
No Sudeste, o custo da dieta de terminação encerrou julho 4,91% abaixo da média registrada entre maio e julho.
O principal fator de alívio veio dos volumosos, enquanto energéticos e proteicos permaneceram próximos da média trimestral.
- Energéticos: +1,32%
- Proteicos: +0,41%
- Volumosos: -8,71%
- Outros: -28,64%
O milho grão seco ainda estava 2,5% acima da média trimestral, mas a queda observada em julho sinaliza redução dessa pressão com o avanço da segunda safra.
A polpa cítrica, com queda de 5,2%, e a casca de soja, com recuo de 3,3%, também contribuíram para equilibrar os custos dos energéticos.
Entre os proteicos, o caroço de algodão apresentou queda de 20,3%, enquanto o farelo de amendoim subiu 22% e a ureia avançou 10,3%.
Nos volumosos, a redução de 8,71% foi favorecida pela maior participação do bagaço de cana-de-açúcar no mix das dietas, em um momento de avanço da safra canavieira.
Relação de troca atinge recorde no Sudeste
O principal destaque do ICAP em julho foi a combinação entre eficiência produtiva, redução do custo alimentar e recuperação do preço da arroba.
No Sudeste, a Relação de Troca ICAP/Boi Gordo chegou a 29,97 dias, novo recorde da série histórica. Em abril, o indicador havia atingido 29,18 dias.
Em termos práticos, uma arroba de boi gordo passou a pagar quase um mês de alimentação de um animal confinado.
Considerando um ciclo médio de 109 dias e produção de 7,59 arrobas por animal, apenas 3,64 arrobas foram necessárias para cobrir o custo alimentar. Assim, o cocho consumiu 47,9% de toda a produção de arrobas.
No Centro-Oeste, a relação de troca recuou de 25,06 para 24,50 dias, influenciada pelo aumento do ICAP e pela relativa estabilidade da arroba.
Ainda assim, o desempenho produtivo foi expressivo: das 8,08 arrobas produzidas por animal, apenas 4,04 foram necessárias para pagar a alimentação, exatamente 50% da produção.
Mercado físico e boi China apresentam cenários diferentes
No mercado físico, o Sudeste retomou a liderança da lucratividade da arroba produzida, mas a diferença para o Centro-Oeste foi pequena.
Já no mercado de exportação, considerando o chamado boi China, a vantagem se inverteu.
O lucro da arroba produzida foi estimado em:
- Centro-Oeste: R$ 1.206,98 por cabeça
- Sudeste: R$ 1.191,25 por cabeça
O resultado evidencia como o destino do animal e as condições de comercialização podem alterar significativamente a rentabilidade final do confinamento.
Eficiência alimentar ganha peso na gestão do confinamento
Os números de julho reforçam a importância da gestão do custo alimentar para a rentabilidade da pecuária intensiva.
A redução dos preços de ingredientes estratégicos, combinada à eficiência produtiva e à recuperação da arroba em determinadas regiões, aumentou o espaço econômico disponível para absorver despesas operacionais e formar margem.
No Sudeste, o custo alimentar atingiu o menor nível em 23 meses, enquanto a Relação de Troca estabeleceu novo recorde.
No Centro-Oeste, mesmo com o avanço do ICAP, a redução do custo da dieta e a maior produção de arrobas contribuíram para manter a atividade competitiva.
Inteligência de dados ajuda na tomada de decisão
O ICAP é elaborado a partir de informações coletadas em confinamentos monitorados pelas tecnologias de gestão da Ponta Agro, incluindo o TGC — sistema de gestão de confinamentos utilizado no mercado brasileiro.
A base reúne milhões de registros de diárias de alimentação de bovinos e permite acompanhar a evolução do custo alimentar nas principais regiões produtoras.
Para os confinadores, esse tipo de informação pode auxiliar decisões relacionadas à compra de insumos, formulação de dietas, planejamento do ciclo, avaliação da viabilidade econômica e acompanhamento das margens.
Em um mercado marcado pela volatilidade dos preços do boi gordo e dos ingredientes das dietas, a capacidade de identificar rapidamente mudanças no custo de produção se torna cada vez mais relevante.
Perspectiva para o confinamento
Os dados de julho mostram um ambiente mais favorável para o confinamento brasileiro, principalmente pela combinação entre queda do custo alimentar, maior eficiência produtiva e recuperação da receita em parte das regiões produtoras.
O fato de menos da metade das arrobas produzidas no Sudeste ser suficiente para pagar toda a alimentação representa um marco importante para a atividade e reforça o peso da gestão de custos na formação das margens.
Ao mesmo tempo, a proximidade da lucratividade entre Sudeste e Centro-Oeste mostra que diferentes estruturas de custo e preço podem levar a resultados semelhantes, exigindo do produtor uma análise regionalizada e baseada em dados.
Estimativas de lucratividade consideram a cotação da arroba no mercado balcão, segundo a Scot Consultoria, sem incluir bonificações relacionadas à rastreabilidade, padrão de qualidade ou protocolos específicos de mercado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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