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Preços Agropecuários

El Niño pode pressionar caixa do agronegócio mesmo com alta dos preços agrícolas

Perdas de produção, atrasos nos recebimentos e custos elevados exigem revisão do fluxo de caixa e da capacidade de pagamento, avalia CEO da Sanp


Publicado em: 27/10/2026 às 15:00hs

El Niño pode pressionar caixa do agronegócio mesmo com alta dos preços agrícolas

A valorização dos produtos agrícolas nem sempre compensa os prejuízos provocados pelo clima. Quando há redução do volume comercializado ou atraso na entrada de receitas, o produtor pode enfrentar dificuldades para pagar dívidas e financiar a continuidade da atividade, mesmo em um mercado de preços mais altos.

A avaliação é de Pedro Boldrin, CEO da Sanp, empresa especializada em estruturação de crédito e gestão de endividamento no agronegócio. Segundo ele, os riscos associados ao El Niño precisam entrar nas projeções financeiras conforme a localização, as culturas e as condições comerciais de cada operação.

O ponto central é avaliar a receita efetivamente disponível, considerando quanto será vendido, o custo da produção e as datas de recebimento.

Preço maior não garante recuperação da receita

Uma quebra de produção pode restringir a oferta e elevar as cotações, beneficiando produtores de regiões que preservaram suas lavouras. Para quem perdeu parte da colheita, porém, a valorização pode ser insuficiente para recompor o faturamento.

Segundo Boldrin, analisar a capacidade de pagamento apenas pela cotação do produto deixa de fora fatores decisivos para o resultado financeiro.

Além do volume disponível, qualidade, condições de venda e prazo de recebimento influenciam o dinheiro que chegará ao caixa da propriedade.

Oscilação da batata mostra risco de projetar receitas por uma cotação isolada

Os preços recentes da batata ilustram como o cenário pode mudar rapidamente. Segundo o Hortifrúti/Cepea, o preço médio da batata ágata especial no atacado de Belo Horizonte subiu 58,6% na semana de 5 a 9 de outubro, para R$ 107,64 por saca.

Na semana seguinte, de 12 a 16 de outubro, a média recuou 29%, para R$ 76,38 por saca.

No primeiro período, as chuvas dificultaram a colheita e limitaram a oferta. Depois, o levantamento apontou avanço das colheitas mesmo em condições desfavoráveis, problemas de qualidade e menor demanda.

A sequência mostra que dificuldades no campo não resultam necessariamente em preços mais altos por tempo suficiente para compensar as perdas.

Vencimentos precisam ser confrontados com o fluxo de caixa

Para Boldrin, mudanças na produção ou no calendário de comercialização exigem uma revisão das projeções utilizadas na contratação do crédito.

Se o recebimento atrasa ou o volume vendido diminui, os compromissos financeiros não se ajustam automaticamente. O diagnóstico deve reunir dívidas com bancos e fornecedores, garantias vinculadas e despesas necessárias à manutenção da atividade.

Uma empresa pode ter patrimônio e expectativa de faturamento, mas não contar com recursos disponíveis na data de vencimento de uma parcela. Identificar esse intervalo permite dimensionar a necessidade de capital de giro e discutir alternativas com os credores.

Atraso de receita e perda de margem exigem respostas diferentes

O executivo destaca que uma dificuldade temporária de recebimento precisa ser diferenciada de uma operação que deixou de gerar resultado.

No primeiro caso, o problema pode estar no desencontro entre entradas e saídas de dinheiro. No segundo, contratar novos financiamentos sem revisar custos, investimentos e retorno esperado pode prolongar o desequilíbrio.

Essa distinção ajuda a definir a finalidade do crédito e a avaliar se a nova obrigação será compatível com a geração de caixa do negócio.

Expansão também deve considerar cenários menos favoráveis

A mesma análise se aplica à compra de terras, máquinas ou outras operações. Segundo Boldrin, os projetos devem ser confrontados com cenários de menor receita, permitindo verificar quanto do caixa ficará comprometido e se o retorno previsto sustentará o financiamento.

O planejamento também precisa considerar que os efeitos do clima variam entre regiões, culturas e canais de comercialização. Mesmo grupos com produção preservada podem ser afetados por mudanças nos preços e nas condições de venda.

Na avaliação do executivo, levar informações atualizadas aos credores antes do vencimento amplia o tempo disponível para discutir prazos e alternativas. Para as instituições financeiras, conhecer a atividade e o destino dos recursos contribui para avaliar limites e operações de crédito conforme a capacidade de pagamento de cada grupo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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