Açúcar, arroz, óleo de palma e cacau devem liderar a alta das commodities agrícolas
A expectativa de um Super El Niño preocupa especialmente os mercados de commodities cuja produção está concentrada em regiões com elevada vulnerabilidade climática.
Publicado em: 24/07/2026 às 10:40hs
Segundo a análise da Allianz Research, o maior risco de desabastecimento está concentrado em quatro produtos estratégicos para a segurança alimentar global: açúcar, arroz, óleo de palma e cacau. A combinação entre secas prolongadas, estoques reduzidos e possíveis restrições às exportações poderá provocar forte volatilidade nos preços internacionais ao longo de 2026 e 2027.
A Índia, maior exportadora mundial de arroz e uma das principais produtoras de açúcar, ocupa posição central nesse cenário. Caso o regime de monções fique abaixo da média, o governo indiano poderá repetir medidas adotadas em anos anteriores, limitando exportações para garantir o abastecimento interno.
Uma eventual restrição das vendas externas teria efeito imediato sobre o mercado internacional, já que o país responde por cerca de 40% do comércio global de arroz. Em 2023, medida semelhante provocou forte valorização das cotações internacionais em poucas semanas.
No Sudeste Asiático, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã também aparecem entre as regiões mais expostas às perdas provocadas pela seca, afetando diretamente a produção de óleo de palma, açúcar, arroz e café robusta.
Mercado de cacau continua sob forte pressão
O cacau permanece entre as commodities mais sensíveis aos efeitos do El Niño.
Costa do Marfim e Gana, responsáveis por aproximadamente 70% da produção mundial, enfrentam problemas estruturais que incluem envelhecimento dos pomares, doenças nas lavouras e limitações de produtividade. O novo episódio climático poderá intensificar esse cenário.
O relatório lembra que, durante o último ciclo de El Niño, os preços internacionais praticamente triplicaram após a combinação entre seca, doenças e redução da oferta africana. Para os analistas, o fenômeno climático funciona como um acelerador de problemas que já vinham comprometendo a produção mundial.
Soja, milho e café arábica podem seguir trajetória oposta
Ao contrário das commodities tropicais produzidas na Ásia e na África, soja, milho e café arábica apresentam perspectiva mais favorável.
Historicamente, o El Niño melhora as condições climáticas em importantes áreas agrícolas do Sul do Brasil, da Argentina e de parte dos Estados Unidos, favorecendo ganhos de produtividade e aumento da oferta mundial.
Esse cenário pode resultar em:
- safras maiores;
- recomposição dos estoques globais;
- redução das pressões inflacionárias nesses mercados;
- maior competitividade dos exportadores sul-americanos.
Por outro lado, o aumento da produção tende a limitar a valorização das cotações internacionais, especialmente quando a demanda mundial cresce em ritmo inferior ao avanço da oferta.
Agronegócio brasileiro pode colher safra maior, mas enfrentar preços menores
O estudo faz um alerta importante para produtores rurais e empresas do agronegócio: produtividade elevada não garante maior rentabilidade.
Caso Brasil e Argentina registrem safras acima da média, a tendência será de maior disponibilidade de soja e milho no mercado internacional, pressionando as cotações.
Além da queda nos preços, outro desafio poderá surgir dentro da porteira e na logística pós-colheita: a capacidade de armazenagem.
Com maior volume disponível, silos e armazéns poderão operar próximos do limite, elevando custos logísticos, pressionando fretes e exigindo maior planejamento comercial por parte dos produtores, cooperativas e tradings.
Nesse ambiente, estratégias de comercialização antecipada, uso de hedge, diversificação de mercados e gestão eficiente da armazenagem ganham ainda mais importância.
Energia, transporte e logística também entram na rota dos impactos
Os efeitos econômicos do Super El Niño não deverão ficar restritos ao campo.
O relatório destaca que secas em diversos países podem reduzir significativamente a geração hidrelétrica, aumentando a utilização de termelétricas movidas a carvão, gás natural e derivados de petróleo.
Esse movimento tende a elevar custos de geração elétrica em economias altamente dependentes de hidrelétricas, ao mesmo tempo em que modifica o consumo global de combustíveis.
Outro ponto de atenção envolve a logística internacional.
Durante o episódio de El Niño registrado entre 2023 e 2024, a redução do nível de água no Canal do Panamá obrigou a diminuição do número diário de embarcações autorizadas a cruzar a hidrovia, provocando atrasos, aumento dos custos de transporte e necessidade de rotas alternativas para cargas agrícolas e energéticas.
Caso situação semelhante volte a ocorrer em 2026/27, empresas exportadoras poderão enfrentar novos desafios logísticos, com impactos diretos sobre custos, prazos e competitividade das exportações agrícolas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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