Logística reversa de embalagens de defensivos faz agronegócio liderar reciclagem no Brasil
Enquanto somente 8,3% dos resíduos urbanos são reciclados no país, sistema do setor agrícola destina corretamente as embalagens vazias e encaminha 92% do volume para reciclagem
Publicado em: 11/09/2026 às 10:00hs
O Brasil ainda enfrenta grandes desafios para ampliar a reciclagem de resíduos urbanos, mas apresenta resultados de destaque internacional na logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas. O contraste mostra como a integração entre produtores, indústria, distribuidores e unidades de recebimento pode transformar resíduos pós-consumo em matéria-prima para novos produtos.
Quarto maior gerador de resíduos plásticos do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia, o país recicla somente 8,3% do lixo urbano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
No agronegócio, o cenário é diferente. Dados apresentados pelo setor indicam que 100% das embalagens vazias de defensivos agrícolas recebidas pelo sistema são destinadas corretamente, com 92% encaminhadas à reciclagem.
Agro brasileiro supera países desenvolvidos na reciclagem
O desempenho coloca o Brasil à frente de importantes economias na recuperação de embalagens de defensivos agrícolas. Nos Estados Unidos, o índice de reciclagem desse material chega a aproximadamente 33%. No Japão, alcança 50%, enquanto a Alemanha registra cerca de 70%.
Na França, o percentual varia entre 75% e 77%. No Brasil, a taxa de 92% evidencia o avanço de um modelo estruturado para recolher, transportar, processar e reinserir o plástico pós-consumo na própria cadeia produtiva.
O resultado brasileiro está relacionado à consolidação do Sistema Campo Limpo, programa de logística reversa que conecta agricultores, canais de distribuição, indústria fabricante e unidades de recebimento.
Embalagens retornam à própria cadeia de defensivos
Depois de utilizadas, as embalagens vazias passam pela tríplice lavagem nas propriedades rurais e são devolvidas pelos agricultores aos pontos indicados pelo Sistema Campo Limpo. A logística reversa é coordenada pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV).
Parte do material recolhido segue para a Campo Limpo Reciclagem e Transformação de Plásticos, que converte as embalagens pós-consumo em resina reciclada. Essa matéria-prima é utilizada na fabricação de novas embalagens destinadas ao envase de defensivos agrícolas.
O processo fecha o ciclo dentro do próprio setor: a embalagem utilizada no campo é recolhida, reciclada e transformada em um novo recipiente para uso na mesma cadeia.
Tecnologia e escala viabilizam economia circular
Para Marcelo Okamura, presidente da Campo Limpo Reciclagem, a logística reversa depende da existência de uma indústria capaz de absorver o material pós-consumo e transformá-lo em um produto seguro e economicamente viável.
“O agro destoa positivamente do restante dos segmentos porque criamos uma solução real, unindo tecnologia própria e escala industrial. O que poderia ser um problema ambiental se transforma em uma nova embalagem de máxima performance. Assim, fechamos o ciclo”, afirma.
Segundo o executivo, a combinação entre tecnologia, capacidade industrial e participação coordenada dos agentes da cadeia permitiu transformar a logística reversa em uma operação permanente, e não apenas em uma ação pontual de recolhimento.
Campo Limpo produz embalagens com material reciclado
Fundada em 2008, a Campo Limpo Reciclagem atua há 16 anos no desenvolvimento de tecnologias para reciclagem de plásticos provenientes das embalagens vazias de defensivos.
A companhia é responsável pela produção de embalagens fabricadas com resina reciclada pós-consumo originada no Sistema Campo Limpo. Segundo a empresa, sua operação é a única do país a fabricar exclusivamente embalagens recicladas destinadas ao mercado de defensivos agrícolas.
“A Campo Limpo é o maior exemplo de como essa engrenagem funciona na prática. A companhia atua como o elo final que viabiliza esse resultado e coloca o Brasil na vanguarda global”, destaca Okamura.
O processo produtivo possui certificação da Organização das Nações Unidas para o transporte terrestre e marítimo de produtos perigosos e recebeu uma patente verde do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Estrutura industrial opera em duas cidades paulistas
A Campo Limpo mantém um complexo industrial com duas unidades subsidiárias em Taubaté, no interior de São Paulo. A empresa também possui uma filial em Ribeirão Preto, inaugurada em 2018.
As instalações processam o plástico recebido pelo sistema e produzem novas embalagens para a cadeia agrícola. A estrutura também funciona como centro de desenvolvimento de soluções tecnológicas destinadas à reciclagem e à transformação de materiais pós-consumo.
Outros setores ainda buscam modelos sustentáveis
Enquanto o agronegócio consolidou uma cadeia de recolhimento, reciclagem e reaproveitamento, segmentos como eletrônicos, vidro e embalagens do varejo ainda enfrentam dificuldades para construir modelos com escala e viabilidade econômica.
A experiência das embalagens de defensivos mostra que a logística reversa precisa ir além da coleta. Para funcionar de maneira contínua, o sistema deve encontrar destinação industrial para o resíduo, assegurar a qualidade do material reciclado e criar demanda para o novo produto.
“O Brasil tem competência para liderar a economia circular no mundo, e o agronegócio já provou, com rentabilidade e responsabilidade, como isso pode ser feito”, conclui Okamura.
Fonte: Portal do Agronegócio
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