SLC bate recorde de receita e Raízen dobra EBITDA, mas caixa e dívida acendem alerta no agro
Balanços do segundo trimestre de 2026 mostram avanço operacional nas duas companhias, enquanto queima de caixa, alavancagem elevada, despesas financeiras e riscos climáticos mantêm o setor sob pressão
Publicado em: 28/08/2026 às 09:30hs
Os resultados corporativos do segundo trimestre de 2026 revelaram um cenário de contrastes entre duas grandes companhias ligadas ao agronegócio brasileiro. A SLC Agrícola apresentou receita recorde para o período e forte crescimento do lucro líquido, enquanto a Raízen mais que dobrou o EBITDA ajustado e reduziu o prejuízo.
Apesar dos avanços operacionais, os balanços também expuseram desafios importantes. Na SLC Agrícola, o fluxo de caixa livre negativo e o aumento da alavancagem concentraram as atenções. Na Raízen, o elevado custo financeiro e o processo de recuperação extrajudicial continuaram pressionando o resultado final.
Os números reforçam que crescimento da receita e expansão da margem contábil nem sempre se transformam imediatamente em geração de caixa. Também colocam disciplina de capital, endividamento, clima e produtividade entre os principais pontos de atenção para os próximos trimestres.
SLC Agrícola alcança receita recorde no segundo trimestre
A SLC Agrícola encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita líquida de R$ 2,18 bilhões, crescimento de 16,8% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado foi o maior já registrado pela companhia para um segundo trimestre.
O desempenho foi sustentado pelo aumento do volume comercializado de algodão, soja e milho. No total, as vendas alcançaram 806,1 mil toneladas, avanço anual de 14,4%.
O milho segunda safra apresentou o crescimento mais expressivo, com aumento de 69,5% no volume vendido. O avanço ajudou a compensar um cenário de preços praticamente estáveis nas principais culturas.
A expansão da receita ocorreu, portanto, principalmente pelo maior volume comercializado e por uma composição mais favorável dos negócios, e não por uma valorização expressiva das commodities.
Lucro líquido da SLC cresce 75,3%
O lucro líquido da SLC Agrícola alcançou R$ 245,1 milhões no trimestre, alta de 75,3% em relação ao mesmo período de 2025.
O lucro bruto avançou 43,5%, para R$ 941,2 milhões, enquanto a margem bruta subiu 8,1 pontos percentuais, chegando a 43,3%.
Segundo a companhia, o resultado foi favorecido pela redução dos custos unitários e por uma composição mais positiva entre as fazendas. As informações financeiras e apresentações trimestrais estão reunidas na Central de Resultados da SLC Agrícola.
O desempenho mostra a capacidade da empresa de transformar uma safra maior e custos mais eficientes em crescimento da rentabilidade contábil. A leitura exige cautela, entretanto, porque parte relevante do avanço está relacionada ao reconhecimento do valor dos ativos biológicos.
Ativo biológico impulsiona lucro bruto
A marcação a valor justo dos ativos biológicos contribuiu com aproximadamente R$ 278 milhões para o lucro bruto da SLC Agrícola, valor quase três vezes superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
Esse ajuste reflete a avaliação contábil das lavouras em desenvolvimento e dos produtos agrícolas antes da venda efetiva. Embora afete o resultado bruto, não representa necessariamente uma entrada imediata de dinheiro no caixa.
Por essa razão, o EBITDA ajustado apresentou uma evolução mais moderada. O indicador alcançou R$ 580,6 milhões, alta anual de 4,3%, enquanto a margem EBITDA recuou 3,2 pontos percentuais, para 26,7%.
O contraste entre lucro bruto e EBITDA mostra que parte da melhora registrada no balanço decorreu de efeitos contábeis associados à safra, enquanto os custos operacionais e comerciais permaneceram relevantes.
Frete e armazenagem pressionam despesas
As despesas de venda da SLC Agrícola aumentaram com o escoamento do maior volume produzido. Os gastos com frete e armazenagem avançaram 61% na comparação anual.
O crescimento dessas despesas evidencia um dos desafios das grandes produtoras de commodities: colher mais exige capacidade adicional de transporte, armazenagem e comercialização.
Quando a produção cresce acima da infraestrutura disponível ou precisa ser movimentada em períodos de maior demanda logística, os custos de escoamento podem absorver parte dos ganhos obtidos no campo.
Fluxo de caixa livre fica negativo em R$ 805 milhões
O principal sinal de atenção no balanço da SLC veio do caixa. O fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 805,3 milhões no segundo trimestre, resultado 28,6% pior que o registrado no mesmo intervalo de 2025.
A alavancagem também avançou para 4,2 vezes o EBITDA. Esse indicador relaciona a dívida líquida à geração operacional de resultado e ajuda a medir a capacidade financeira da companhia.
A queima de caixa pode refletir o descasamento entre os desembolsos necessários para produzir a safra e o momento em que os recursos das vendas efetivamente entram na empresa. Ainda assim, o aumento da alavancagem exige acompanhamento, especialmente em um ambiente de juros elevados e volatilidade climática.
Clima reduz projeção para o milho e favorece o algodão
As condições climáticas também provocaram ajustes nas estimativas de produtividade da SLC Agrícola. A projeção para o milho segunda safra foi reduzida em 11%, em razão do plantio fora da janela ideal e da quantidade insuficiente de chuvas durante o desenvolvimento da cultura.
O algodão apresentou movimento contrário. A empresa revisou para cima a produtividade esperada em 7% na primeira safra e em 4% na segunda.
A compensação entre culturas evidencia a importância da diversificação do portfólio agrícola. Perdas ou revisões negativas em uma atividade podem ser parcialmente absorvidas por resultados mais favoráveis em outra.
Essa proteção, entretanto, não elimina o risco. A intensificação de eventos climáticos pode afetar simultaneamente produtividade, qualidade, logística e custos de produção.
Certificações avançam nas áreas da SLC
A SLC Agrícola também ampliou a participação das áreas certificadas no trimestre. A área reconhecida pelo padrão de agricultura regenerativa regenagri cresceu 79% em relação ao ano anterior.
A certificação ORIGINS, voltada à rastreabilidade da soja, avançou 85% na mesma comparação.
O ritmo de expansão indica que rastreabilidade, práticas regenerativas e comprovação da origem estão se tornando componentes comerciais relevantes. Compradores internacionais, instituições financeiras e indústrias ampliam a demanda por informações socioambientais capazes de acompanhar os produtos desde a fazenda.
Para companhias com exposição ao mercado externo, essas certificações deixam gradualmente de atuar apenas como atributos reputacionais e passam a integrar as condições de acesso a determinadas cadeias de fornecimento.
Raízen mais que dobra EBITDA ajustado
A Raízen, que adota calendário anual iniciado em abril, divulgou em 13 de agosto os resultados do primeiro trimestre do ano-safra 2026/27, período equivalente aos meses de abril a junho de 2026.
A receita líquida atingiu R$ 51,46 bilhões, avanço de 4% em relação ao mesmo trimestre do ciclo anterior. O EBITDA ajustado mais que dobrou e chegou a R$ 3,85 bilhões.
A melhora foi impulsionada principalmente pela distribuição de combustíveis no Brasil. O EBITDA ajustado do segmento avançou 269%, alcançando R$ 3,54 bilhões.
A margem por metro cúbico comercializado subiu de R$ 142 para R$ 493, refletindo maior rentabilidade na operação de distribuição.
Distribuição de combustíveis sustenta resultado operacional
O volume de combustíveis vendido pela Raízen no Brasil cresceu 6,6%, para 7,18 bilhões de litros.
As vendas de produtos do ciclo Otto, que incluem gasolina e etanol, avançaram 8%, alcançando 3,11 bilhões de litros. O diesel registrou crescimento de 6,5%, para 3,65 bilhões de litros.
A combinação entre maior volume e recuperação das margens transformou a distribuição de combustíveis no principal motor do resultado trimestral.
O desempenho ajudou a compensar a retração registrada no segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia, mais diretamente exposto às condições climáticas e à disponibilidade de cana-de-açúcar.
Moagem de cana recua e pressiona bioenergia
No segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia, conhecido pela sigla EAB, o EBITDA ajustado caiu 63,1%, para R$ 300,8 milhões.
A moagem de cana-de-açúcar recuou 2%, para 19,7 milhões de toneladas, considerando o portfólio atual de 24 usinas. As condições climáticas adversas reduziram a produtividade agrícola e dificultaram a colheita.
A produtividade medida em açúcar total recuperável por hectare caiu 3,2%, enquanto o ATR por tonelada recuou 2,9%, para 118,4 quilos.
Com menor disponibilidade de açúcar na matéria-prima e preços mais favoráveis ao etanol, a companhia alterou o mix industrial. A produção de açúcar caiu 13,6%, para 1,03 milhão de toneladas, enquanto a fabricação de etanol de primeira geração cresceu 9,4%, alcançando 737 milhões de litros.
Resultado financeiro mantém Raízen no vermelho
Apesar da forte recuperação operacional, a Raízen encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão. O valor representa uma redução de 11% em relação ao resultado negativo registrado um ano antes.
O principal fator de pressão foi o resultado financeiro, que ficou negativo em R$ 2,97 bilhões, alta de 42,4% na comparação anual.
O custo financeiro foi equivalente a uma parcela expressiva do EBITDA ajustado produzido no trimestre, demonstrando o peso da dívida sobre os resultados da companhia.
A alavancagem ficou em 4,8 vezes o EBITDA. O índice recuou em relação às 5,2 vezes do trimestre imediatamente anterior, mas permaneceu acima das 4,5 vezes observadas um ano antes.
Recuperação extrajudicial entra em nova etapa
O plano de recuperação extrajudicial da Raízen foi homologado em 30 de julho, após o encerramento do trimestre analisado. Por isso, a homologação não produziu efeitos contábeis nas demonstrações encerradas em 30 de junho.
A decisão marcou uma nova etapa da reestruturação financeira da companhia e tornou o acordo aplicável aos credores abrangidos pelo processo. Os documentos estão disponíveis na página oficial do Plano de Recuperação Extrajudicial da Raízen.
O processo busca reorganizar a estrutura de capital, alongar obrigações e criar condições para a recuperação financeira da empresa.
Corte de investimentos ajuda Raízen a gerar caixa
A Raízen reduziu os investimentos em 32,6% na comparação anual. O capex somou R$ 1,05 bilhão no trimestre.
Ao mesmo tempo, o fluxo de caixa operacional saiu de uma posição de consumo para uma geração positiva de R$ 3,56 bilhões.
A melhora sinaliza maior disciplina na utilização dos recursos, mas precisa ser analisada em conjunto com a elevada dívida e com a capacidade da companhia de manter investimentos essenciais à operação.
Cortes de capex ajudam a preservar liquidez no curto prazo. Em períodos prolongados, porém, podem limitar expansão, modernização e ganhos futuros de produtividade se atingirem projetos estratégicos.
Lucro contábil não significa dinheiro disponível
Os resultados da SLC Agrícola representam um exemplo claro da diferença entre reconhecimento contábil e geração efetiva de caixa.
A companhia apresentou receita e lucro em expansão, beneficiados por maior produção, redução de custos e valorização dos ativos biológicos. Ao mesmo tempo, registrou fluxo de caixa livre negativo e elevação da alavancagem.
Nas produtoras agrícolas, os gastos com sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e operações ocorrem antes da colheita. O reconhecimento do valor da safra pode aparecer no balanço antes do recebimento das vendas.
Essa diferença entre o momento contábil e o financeiro torna o caixa uma variável fundamental para avaliar a qualidade e a sustentabilidade dos resultados.
Disciplina de capital será decisiva para o setor
SLC Agrícola e Raízen chegam ao próximo ciclo por caminhos diferentes, mas com uma prioridade comum: equilibrar resultado operacional, dívida, investimentos e geração de caixa.
A SLC precisa converter o desempenho produtivo e o lucro recorde em recursos financeiros, reduzindo o descasamento entre produção, comercialização e recebimento.
A Raízen precisa transformar a melhora operacional em redução sustentável do prejuízo e do endividamento, ao mesmo tempo que executa seu plano de recuperação extrajudicial.
Em ambas as companhias, os resultados mostram que crescimento sem geração de caixa suficiente pode aumentar a vulnerabilidade financeira.
Clima segue como principal risco operacional
O clima permanece entre os maiores fatores de incerteza para o agronegócio. Seus efeitos aparecem tanto na produtividade do milho e do algodão da SLC quanto na moagem e na qualidade da cana processada pela Raízen.
Alterações nas chuvas e temperaturas podem provocar revisões de produtividade, mudanças no calendário de colheita, aumento de custos e redução da oferta de matéria-prima.
A diversificação entre culturas e segmentos ajuda a diluir os impactos, mas não elimina a exposição. O desempenho dos próximos trimestres dependerá da combinação entre clima, preços das commodities, custo financeiro, execução operacional e capacidade de geração de caixa.
Os balanços do segundo trimestre de 2026 deixam uma mensagem clara para o setor: receita e EBITDA continuam relevantes, mas liquidez, alavancagem e disciplina de capital serão os indicadores decisivos para separar crescimento sustentável de expansão financiada por mais dívida.
Fonte: Portal do Agronegócio
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