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Gestão

Safra recorde não garante lucro: crédito caro e custos elevados apertam margens do agronegócio

Produção brasileira de grãos pode alcançar 360,8 milhões de toneladas, mas queda dos preços, juros altos e endividamento exigem maior controle de custos, caixa e investimentos


Publicado em: 01/09/2026 às 16:00hs

Safra recorde não garante lucro: crédito caro e custos elevados apertam margens do agronegócio

O agronegócio brasileiro caminha para alcançar uma produção recorde de grãos, mas o aumento do volume colhido não representa, necessariamente, maior rentabilidade para o produtor rural. Apesar dos avanços em tecnologia e produtividade, o setor enfrenta margens estreitas, custos elevados, crédito caro e crescimento do endividamento.

A avaliação é da produtora rural e advogada Cristina Gross, sócia-diretora do Grupo Gross e diretora financeira da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). Em artigo sobre o atual ciclo econômico do agro, ela alerta que os resultados do setor precisam ser analisados para além dos números da produção.

A principal conclusão é que produzir mais não significa ganhar mais. A sustentabilidade econômica das propriedades também depende dos preços recebidos, dos custos por hectare, da geração de caixa, do nível de endividamento e da capacidade de investir.

Produção de grãos pode atingir 360,8 milhões de toneladas

A safra brasileira de grãos 2025/26 poderá alcançar o recorde de 360,8 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026, depois de registrar crescimento de 12,2% em 2025.

O contraste mostra que o avanço da produção pode coexistir com uma piora nas condições financeiras das propriedades e empresas. Quando os preços agrícolas recuam e os custos permanecem elevados, o ganho de produtividade pode não ser suficiente para preservar as margens.

“Estar na fronteira tecnológica não impede uma crise financeira. O agro pode produzir mais, incorporar inteligência artificial, automação e novas tecnologias e, ainda assim, enfrentar um período de forte pressão sobre suas margens”, afirma Cristina.

No artigo “O paradoxo do agro brasileiro: por que o setor avança em tecnologia enquanto atravessa um ciclo de margens estreitas, crédito caro e endividamento”, a produtora utiliza os conceitos dos ciclos econômicos de Kondratieff e Juglar para interpretar o momento do setor e avaliar possíveis caminhos para uma recuperação.

Preço da soja cai enquanto custo por hectare avança

A perda de rentabilidade pode ser observada na relação entre o preço da soja e os custos de produção em Mato Grosso. Segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) citados na análise, a cotação da oleaginosa caiu de R$ 167,95 por saca, em maio de 2022, para R$ 106,58 em maio de 2026.

No mesmo período, o custo total estimado da soja avançou de aproximadamente R$ 5,2 mil para R$ 7,7 mil por hectare. Dessa forma, enquanto o preço recebido pelo produtor recuou 36,5%, o custo por hectare aumentou cerca de 48%.

O cenário afeta principalmente propriedades que ampliaram estruturas ou assumiram financiamentos durante o período de valorização das commodities. Com a posterior queda dos preços, os investimentos passaram a conviver com juros elevados, menor geração de caixa e redução da capacidade de pagamento.

Recuperações judiciais crescem no agronegócio

Outro sinal da pressão financeira é o aumento dos pedidos de recuperação judicial relacionados ao agronegócio. Conforme dados da Serasa Experian mencionados no artigo, os registros passaram de 534 em 2023 para 1.990 em 2025.

O avanço evidencia que parte dos produtores e das empresas encontrou dificuldades para reorganizar dívidas e manter os compromissos financeiros. Além das cotações das commodities, fatores como quebra de safra, aumento dos custos, crédito restrito e decisões de investimento também ajudam a explicar esse movimento.

Nesse contexto, o endividamento precisa ser avaliado em conjunto com a capacidade de geração de caixa da propriedade. Mesmo negócios com patrimônio relevante podem enfrentar problemas quando as receitas não são suficientes para cobrir despesas operacionais, parcelas de financiamentos e novos investimentos.

Virada do agro dependerá de juros, preços, custos e clima

Para Cristina, uma recuperação consistente não será determinada apenas por uma boa safra. A mudança de ciclo dependerá da combinação entre melhora da relação de troca, redução efetiva dos juros, normalização do crédito, condições climáticas favoráveis e maior eficiência na gestão.

A análise considera que uma recuperação seletiva poderá surgir a partir de 2028, alcançando primeiro produtores e empresas com melhor estrutura financeira. Uma expansão mais ampla poderia ocorrer entre 2029 e 2031, caso os diferentes fatores econômicos e produtivos avancem de forma conjunta.

A produtora ressalta, entretanto, que esse horizonte representa um cenário condicionado, e não uma previsão automática. Uma nova alta das commodities, isoladamente, não resolveria problemas acumulados de endividamento, gestão de custos ou ausência de liquidez.

Gestão financeira ganha importância dentro da fazenda

Diante das margens estreitas, o planejamento financeiro passa a ocupar posição tão estratégica quanto o manejo agronômico. A propriedade precisa conhecer o custo real de cada cultura, avaliar o retorno dos investimentos e dimensionar o endividamento de acordo com sua capacidade de pagamento.

“Produzir com precisão, investir com critério e preservar capacidade para agir serão diferenciais cada vez mais importantes”, destaca Cristina.

Entre as medidas relevantes estão o controle do fluxo de caixa, a proteção de preços, a análise criteriosa de novos financiamentos, o planejamento tributário e a priorização de investimentos capazes de gerar eficiência comprovada.

Pressão no campo alcança toda a economia regional

As dificuldades enfrentadas pelos produtores não ficam restritas às propriedades rurais. A redução das margens afeta a compra de máquinas e insumos, a contratação de serviços, o transporte, a armazenagem e o comércio dos municípios dependentes da atividade agropecuária.

O movimento também interfere na arrecadação, na oferta de crédito e nas decisões de investimento ao longo de toda a cadeia. Regiões agrícolas como o Oeste da Bahia e outras áreas do Matopiba sentem de forma direta os efeitos das mudanças no ritmo de capitalização dos produtores.

O atual ciclo reforça, portanto, uma mudança de prioridade dentro do agronegócio: mais do que buscar sucessivos recordes de produção, propriedades e empresas precisarão transformar produtividade em margem, liquidez e capacidade de permanecer competitivas no longo prazo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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