Safra 2026/27: atraso na compra de fertilizantes acende alerta para custos e logística no campo
Produção recorde de grãos, expansão do etanol de milho, demanda chinesa por soja e novas regras de rastreabilidade aumentam a pressão sobre o planejamento do produtor rural
Publicado em: 02/09/2026 às 15:30hs
O agronegócio brasileiro encerra a safra 2025/26 com produção histórica, mas inicia o planejamento do ciclo 2026/27 diante de um cenário mais complexo. Custos internacionais voláteis, crédito restrito, oscilações cambiais e novas exigências de rastreabilidade estão mudando o calendário de compras de insumos e exigindo decisões antecipadas nas propriedades rurais.
De acordo com o levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve colher aproximadamente 360 milhões de toneladas de grãos na temporada que se encerra. O desempenho é sustentado pela produção recorde de soja, próxima de 180 milhões de toneladas, e por uma safra de milho estimada em 141,7 milhões de toneladas, considerando os três ciclos do cereal.
A cafeicultura também trabalha com perspectivas positivas. As estimativas para a produção brasileira de café em 2026/27 variam entre 66 milhões e mais de 75 milhões de sacas, dependendo da metodologia e do cenário considerado pelas consultorias.
Compra de fertilizantes avança abaixo do ritmo histórico
Apesar dos números favoráveis da produção, os custos dos insumos agrícolas continuam no centro das preocupações. O mercado internacional de fertilizantes voltou a enfrentar tensões em 2026, influenciado pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio e por entraves logísticos que elevaram os preços dos fretes e do gás natural, matéria-prima essencial para a fabricação de nitrogenados.
O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes apresentou recuo em junho, refletindo a queda das commodities agrícolas e dos preços médios dos insumos. Mesmo assim, o produtor rural permanece cauteloso nas negociações para a safra 2026/27.
Dados do setor indicam que pouco mais da metade do volume necessário de fertilizantes havia sido contratado até o momento, percentual inferior à média histórica para o período. O atraso aumenta o risco de concentração das compras nas semanas que antecedem o plantio, quando a demanda elevada pode pressionar preços, disponibilidade e capacidade logística.
Soja exige atenção ao câmbio e à demanda chinesa
Para Marcos Dallagnese, diretor comercial da Orbia, cada cultura atravessa uma dinâmica específica de mercado. Por isso, o produtor precisa adotar estratégias diferentes para a aquisição de insumos, comercialização da produção e gestão financeira.
“A soja segue em ritmo de recuperação de preços, de olho na demanda e na safra americana, mas isso também exige do produtor atenção redobrada ao câmbio e ao momento adequado entre a venda do grão e a compra de insumos”, afirma.
A demanda chinesa permanece entre os principais fatores capazes de influenciar as cotações da soja brasileira. Ao mesmo tempo, o comportamento da safra dos Estados Unidos e as variações do dólar podem alterar rapidamente as relações de troca, exigindo monitoramento constante do mercado.
Etanol de milho amplia disputa pelo cereal
No mercado de milho, a expansão da indústria de biocombustíveis está provocando uma transformação estrutural. Segundo levantamento do Itaú BBA, a produção de etanol de milho deverá consumir aproximadamente 37,7 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27.
O volume representa crescimento de 36% em relação ao ciclo anterior e poderá elevar a participação do biocombustível para cerca de 34% da demanda doméstica por milho.
Esse avanço intensifica a concorrência pelo cereal entre usinas de etanol, indústria de proteína animal e exportadores. Como consequência, os preços internos tendem a ficar mais sensíveis em períodos de menor disponibilidade.
“O milho vive uma transformação estrutural, com a expansão acelerada das usinas de etanol ampliando a disputa pelo grão e tornando o planejamento logístico ainda mais estratégico”, avalia Dallagnese.
Café combina expectativa de recorde com preços voláteis
Embora o Brasil caminhe para uma possível safra recorde de café em 2026/27, o mercado segue marcado pela volatilidade. Praças produtoras de Minas Gerais, como Guaxupé e Varginha, registraram valorizações expressivas em julho.
O movimento foi favorecido pelos estoques certificados reduzidos e pelo ritmo lento da comercialização antecipada da nova safra, que permanece abaixo da média histórica para esta época do ano.
Segundo Dallagnese, os preços favoráveis não eliminam a necessidade de cautela.
“O café segue em um bom momento de preços e volatilidade, mesmo diante da expectativa de safra recorde, o que exige acompanhamento constante do mercado por parte do produtor”, observa.
Gestão financeira ganha importância na compra de insumos
O produtor brasileiro vem adotando uma postura mais estratégica na tomada de decisões. Em vez de considerar somente oportunidades pontuais de preço, passou a avaliar conjuntamente condições comerciais, disponibilidade de crédito, previsibilidade operacional e o melhor momento para fechar negócios.
“Hoje, o produtor precisa olhar para a compra de insumos como parte da gestão financeira da propriedade. Não basta apenas garantir o produto. É necessário buscar eficiência, previsibilidade, parceiros confiáveis e ferramentas que apoiem a tomada de decisão ao longo da safra”, explica o diretor da Orbia.
Essa mudança se torna ainda mais relevante em um ambiente de margens apertadas. A combinação entre custos de produção, juros elevados e oscilações das commodities pode comprometer a rentabilidade quando as compras e as vendas não são coordenadas.
Plataformas digitais avançam no agronegócio
A digitalização também está modificando a forma como fertilizantes, defensivos, sementes e outros insumos são negociados. Plataformas digitais permitem ao produtor consultar fornecedores, comparar condições e realizar operações sem depender exclusivamente dos modelos tradicionais de comercialização.
A Orbia, criada inicialmente como um programa de fidelidade, passou a reunir diferentes soluções para a cadeia agrícola. A plataforma conecta produtores a revendas, distribuidores e cooperativas, oferecendo recursos para cotação, compra e pagamento online de insumos.
“A digitalização trouxe mais agilidade e transparência para o mercado. O produtor consegue comparar ofertas, acompanhar condições comerciais e acessar diferentes fornecedores em um só lugar, contribuindo para um planejamento mais eficiente das compras”, destaca Dallagnese.
Rastreabilidade europeia impõe novo desafio ao agro
Além dos custos e das questões operacionais, a safra 2026/27 será marcada pelo avanço das exigências internacionais relacionadas à sustentabilidade, conformidade regulatória e comprovação de origem.
Entre os principais temas está o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR. A aplicação gradual das regras amplia a necessidade de sistemas capazes de identificar a origem da produção e demonstrar que os produtos atendem aos critérios exigidos pelo mercado europeu.
O café está entre as commodities brasileiras mais expostas à regulamentação, devido à importância da União Europeia como destino das exportações nacionais. A soja também está incluída entre os produtos alcançados pelas novas exigências.
Nesse contexto, produtores, cooperativas, tradings e exportadores precisarão fortalecer seus mecanismos de rastreabilidade, organização documental e controle das informações ao longo de toda a cadeia produtiva.
Planejamento será decisivo na safra 2026/27
O cenário para o novo ciclo reúne perspectivas de produção elevada, demanda crescente e oportunidades em diferentes mercados. Ao mesmo tempo, a demora na contratação de insumos pode concentrar pedidos próximos ao plantio e provocar gargalos de abastecimento e transporte.
A capacidade de coordenar compras, vendas, crédito, câmbio e logística será determinante para proteger as margens do produtor rural.
“O agro brasileiro continua extremamente forte e competitivo, mas o cenário atual exige cada vez mais profissionalização. Quem conseguir unir planejamento, tecnologia e gestão terá maior capacidade de enfrentar um ambiente de margens apertadas e pressão crescente do mercado global”, conclui Dallagnese.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias