Soja após milho produz até 26% mais e amplia rentabilidade no campo, aponta estudo de 15 anos
Pesquisa realizada em Mato Grosso mostra que o sistema soja-milho eleva a produtividade, reduz o custo de fertilizantes por saca, fortalece a resistência à seca e amplia o potencial brasileiro de produção de biocombustíveis
Publicado em: 02/09/2026 às 16:00hs
O cultivo de soja seguido pelo milho de segunda safra pode aumentar significativamente a produtividade, a estabilidade e o retorno econômico das propriedades rurais. É o que demonstra um estudo conduzido por pesquisadores da Agroicone, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Fundação Mato Grosso.
Publicado na revista científica Industrial Crops and Products, da Elsevier, o trabalho avaliou 15 safras consecutivas e concluiu que os sistemas de sucessão de culturas apresentam desempenho agronômico e financeiro superior ao da monocultura de soja.
Durante o período analisado, a soja cultivada no sistema soja-milho alcançou produtividade média de 65,89 sacas por hectare. Na monocultura, a média ficou em 52,15 sacas por hectare no plantio direto e em 54,36 sacas no cultivo convencional.
Na comparação com a monocultura em plantio direto, o ganho de produtividade do sistema soja-milho chegou a aproximadamente 26%.
“Esse conjunto de dados demonstra que os sistemas de cultivo sequencial melhoram, de forma fundamental, o desempenho agronômico e econômico dos agroecossistemas tropicais, em comparação com a monocultura contínua”, afirma Luciane Chiodi Bachion, líder do estudo, pesquisadora e sócia da Agroicone.
Pesquisa acompanhou cinco sistemas de produção de soja
O experimento foi realizado em Itiquira, no sul de Mato Grosso, entre as safras 2008/09 e 2022/23. A área possui Latossolo Vermelho distrófico e está inserida em uma região de clima tropical, com estação seca de aproximadamente três meses, entre junho e agosto.
Os pesquisadores acompanharam cinco sistemas de produção implantados lado a lado:
- monocultura de soja em plantio direto;
- monocultura de soja em cultivo convencional;
- sucessão soja-milho;
- sucessão soja-braquiária;
- sucessão soja-milheto.
Os tratamentos foram distribuídos em quatro blocos experimentais e repetidos a cada safra. A soja recebeu a mesma quantidade de fertilizante em todos os sistemas ao longo do estudo, permitindo avaliar com maior precisão os efeitos da sucessão de culturas sobre a produtividade, os custos e a rentabilidade.
Os resultados foram submetidos a análises estatísticas que consideraram o ano agrícola, o sistema de cultivo e a interação entre esses fatores.
Sucessão de culturas eleva produtividade da soja
Os maiores rendimentos foram registrados nas áreas com sucessão de culturas. A soja cultivada após a braquiária apresentou a maior média do período, com 66,47 sacas por hectare. Na sequência, apareceu o sistema soja-milho, com 65,89 sacas.
As médias das áreas de monocultura foram consideravelmente menores: 52,15 sacas por hectare no plantio direto e 54,36 sacas no sistema convencional.
Além de produzir mais, os sistemas diversificados apresentaram menor oscilação entre as safras, característica que pode reduzir a exposição do produtor às variações climáticas.
“Além da média mais alta, os sistemas de sucessão também oscilaram menos ano a ano ao longo das quinze safras, uma estabilidade que ajuda a proteger o produtor da variação climática entre uma safra e outra”, explica Sofia Arantes, pesquisadora da Agroicone.
Sistema soja-milho demonstra maior resiliência à seca
A diferença de desempenho entre a sucessão de culturas e a monocultura tornou-se ainda mais evidente nas safras marcadas por déficit hídrico.
Nos ciclos 2014/15 e 2020/21, parte dos blocos conduzidos em monocultura produziu menos de 20 sacas de soja por hectare. Nos sistemas de sucessão, a produtividade permaneceu próxima de 50 sacas por hectare.
O maior rendimento de toda a série também foi obtido em uma área diversificada. Na safra 2018/19, o sistema soja-milho atingiu 91,74 sacas por hectare.
Os resultados indicam que a presença de palhada, raízes em diferentes profundidades e maior atividade biológica contribui para melhorar o armazenamento de água e a capacidade de resposta das plantas em períodos de estiagem.
Custo de fertilizantes por saca fica menor
O fertilizante representa aproximadamente 40% do custo total de produção da soja. Embora todos os sistemas tenham recebido a mesma dose do insumo, as áreas de sucessão apresentaram menor custo por saca produzida devido ao ganho de produtividade.
Entre as safras 2009/10 e 2022/23, o custo médio com fertilizantes foi de US$ 9,25 por saca no sistema soja-braquiária e de US$ 9,28 por saca no sistema soja-milho.
Na monocultura em plantio direto, o valor médio chegou a US$ 10,22 por saca. No cultivo convencional, ficou em US$ 10,07. Na safra 2014/15, este último sistema registrou o maior custo de toda a série, de US$ 16,26 por saca.
De acordo com Luciane, o resultado está relacionado à reciclagem biológica de nutrientes promovida pelas raízes do milho e da braquiária. Essas plantas conseguem absorver elementos presentes em camadas mais profundas, posteriormente devolvidos à superfície durante a decomposição dos resíduos vegetais.
A cobertura também diminui perdas por erosão e evaporação, favorece a infiltração de água, amplia o aporte de carbono e auxilia no controle de plantas daninhas.
“Mesmo com a aplicação da mesma quantidade de fertilizante, os sistemas diversificados apresentam menor custo por unidade de soja produzida e maior retorno econômico”, explica a pesquisadora.
Milho de segunda safra aumenta retorno econômico
O sistema soja-milho foi o mais rentável entre os modelos analisados, registrando retornos superiores a US$ 30 por saca nas safras 2011/12, 2020/21 e 2021/22.
O resultado combina o aumento da produtividade da soja com a possibilidade de realizar uma segunda colheita comercial na mesma área e no mesmo ano agrícola. A produção adicional ajuda a diluir despesas fixas com máquinas, mão de obra, estrutura e financiamento da terra.
Essa vantagem ficou evidente na safra 2014/15, afetada por forte estiagem. Enquanto os demais sistemas apresentaram retorno financeiro próximo de zero, o soja-milho conseguiu manter margem positiva com a comercialização do cereal.
Braquiária e milheto não proporcionam receita direta por meio de uma colheita comercial. Ainda assim, os benefícios dessas plantas de cobertura elevaram a produtividade e a receita da soja cultivada posteriormente, inclusive em temporadas climaticamente desfavoráveis.
Soja e milho ampliam potencial de produção de biocombustíveis
O estudo também avaliou a contribuição do cultivo sequencial para a transição energética. Considerando os rendimentos obtidos no experimento, cada hectare conduzido no sistema soja-milho teria capacidade para gerar mais de quatro mil litros de biocombustíveis.
O volume reúne o potencial de produção de biodiesel de soja, etanol de milho e óleo técnico de milho. A quantidade é quase sete vezes superior ao volume de biodiesel que poderia ser produzido apenas com a soja cultivada em monocultura na mesma área.
Com isso, a sucessão soja-milho ganha importância estratégica para ampliar o fornecimento de matérias-primas à indústria de biocombustíveis sem exigir a abertura de novas áreas agrícolas.
Diversificação melhora a saúde do solo
Os benefícios do cultivo sequencial também se acumulam ao longo do tempo. A alternância de espécies favorece a ciclagem de nutrientes, aumenta a matéria orgânica, melhora a estrutura física e estimula a presença de microrganismos benéficos.
A sucessão também pode interromper ciclos de pragas e doenças associados à monocultura, reduzindo a pressão sobre a lavoura e contribuindo para sistemas produtivos mais equilibrados.
Com raízes ocupando diferentes camadas, o solo passa a armazenar água e nutrientes de maneira mais eficiente. Essa condição oferece maior suporte às plantas durante períodos de estresse hídrico e ajuda a explicar a estabilidade produtiva observada durante os 15 anos da pesquisa.
“As evidências que reunimos confirmam que a diversificação no campo é uma estratégia eficaz para otimizar o uso da terra, aumentar o rendimento financeiro, a produtividade, a resiliência e a eficiência no uso de fertilizantes, apoiando o movimento de transição para uma economia de baixo carbono”, conclui Sofia Arantes.
Fonte: Portal do Agronegócio
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