Resíduos têxteis viram matéria-prima e impulsionam economia circular na indústria
Reaproveitamento de capas de fardos, estopas e sobras da fiação reduz descarte, economiza matérias-primas e amplia a sustentabilidade na cadeia do algodão
Publicado em: 02/09/2026 às 16:30hs
A economia circular avança na indústria têxtil brasileira ao transformar materiais antes considerados perdas em novos insumos produtivos. Capas de fardos de algodão, estopas, resíduos da fiação, papelão e plásticos passaram a integrar iniciativas que reduzem o envio de rejeitos aos aterros e melhoram o aproveitamento dos recursos dentro das fábricas.
O movimento ganha relevância diante do volume de resíduos gerado pelo setor. Pesquisa divulgada pelo Sebrae em abril de 2023 indica que o Brasil produz aproximadamente 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano. Desse total, apenas 20% são reciclados, enquanto mais de 130 mil toneladas acabam em lixões ou aterros sanitários.
Além dos benefícios ambientais, a adoção de práticas circulares começa a se tornar uma exigência estratégica para empresas que atuam ou pretendem atuar no comércio internacional.
União Europeia amplia exigências para resíduos têxteis
A regulamentação internacional reforça a necessidade de mudanças na cadeia produtiva. Desde janeiro de 2025, a União Europeia exige a coleta seletiva de resíduos têxteis em todos os países do bloco, conforme as diretrizes estabelecidas pela legislação europeia sobre resíduos.
As regras avançaram com a adoção da responsabilidade ampliada do produtor para os setores têxtil e calçadista. Pelo novo modelo, as empresas passam a participar do financiamento e da organização da gestão dos produtos após o fim de sua vida útil.
A tendência deve influenciar cadeias produtivas de diferentes países, especialmente aquelas que exportam tecidos, fios, roupas, calçados e outros produtos para o mercado europeu. Nesse contexto, rastreabilidade, reciclagem, logística reversa e redução de resíduos ganham importância comercial.
Resíduos da fiação retornam ao processo produtivo
A circularidade começa quando a indústria deixa de considerar todo resíduo como rejeito. Materiais gerados durante a abertura dos fardos, a preparação das fibras e a produção dos fios podem receber destinos específicos e retornar à cadeia como matéria-prima, combustível ou produto reciclável.
A Incofios, empresa de fiação de algodão com cinco unidades produtivas instaladas em Santa Catarina e Mato Grosso, incorporou esse modelo à rotina industrial. Em 2025, a companhia reciclou ou reaproveitou 97,3% dos 1,51 milhão de quilos de resíduos gerados em suas fábricas.
O volume total produzido apresentou redução de 24,7% em comparação com o ano anterior. Apenas 2,7% dos materiais precisaram ser encaminhados para aterros sanitários.
Segundo o diretor-geral da Incofios, Edson Augusto Schlogl, os resultados estão ligados à organização do processo produtivo e à definição de um destino adequado para cada material, desde as capas utilizadas nos fardos de algodão até as embalagens que deixam as unidades industriais.
Para o executivo, o reaproveitamento não representa uma iniciativa isolada, mas uma prática incorporada à cultura da companhia e à forma como a empresa compreende sua responsabilidade dentro do setor têxtil.
Briquetes transformam resíduos em biocombustível
Parte das sobras geradas no processo de fiação é utilizada na fabricação de briquetes, empregados como biocombustível em caldeiras. A medida permite substituir parcialmente fontes convencionais de energia e evita que materiais com potencial energético sejam descartados.
Estopas limpas, resíduos de varrição, sucatas, papelão e outros materiais seguem para reciclagem, reutilização ou comercialização. A separação adequada é fundamental para preservar a qualidade dos resíduos e permitir seu aproveitamento por outras atividades econômicas.
Esse modelo ajuda a reduzir custos com descarte, melhora a eficiência no uso das matérias-primas e pode abrir novas fontes de receita para as indústrias.
Paletização reduz consumo de papelão e plástico
A economia circular também alcança a logística dos fios. Em 2025, a Incofios aumentou em 31,34% o volume de produtos enviados de maneira paletizada, em substituição às tradicionais caixas de papelão.
A mudança evitou o uso de mais de 103 mil caixas, proporcionando uma economia superior a 108 mil quilos de papelão e 18,5 mil quilos de plástico.
A iniciativa demonstra que a redução de resíduos não depende apenas da reciclagem. Mudanças nas embalagens, no transporte, no armazenamento e na organização da produção também podem diminuir o consumo de recursos antes mesmo de o descarte ocorrer.
Indústria aposta em upcycling e logística reversa
Outras estratégias começam a ganhar espaço no setor têxtil. Projetos de upcycling transformam retalhos, aparas e sobras de tecidos em produtos de maior valor agregado, prolongando a vida útil dos materiais.
Parcerias entre indústrias, recicladores e cooperativas permitem destinar corretamente resíduos que uma única fábrica não consegue absorver. Programas de logística reversa envolvendo fornecedores e clientes também contribuem para recuperar embalagens, tecidos e produtos usados antes que cheguem aos aterros.
As principais alternativas adotadas pelo setor incluem:
- reaproveitamento de fibras e sobras da fiação;
- transformação de resíduos em biocombustíveis;
- reciclagem de papelão, plástico e sucata;
- substituição de embalagens descartáveis;
- produção de novos artigos por meio do upcycling;
- parcerias com cooperativas e empresas recicladoras;
- implantação de sistemas de logística reversa.
Essas soluções são complementares. A combinação entre prevenção, reutilização, reciclagem e valorização energética permite reduzir de forma mais consistente o volume de rejeitos gerado pelas fábricas.
Economia circular aumenta eficiência da cadeia têxtil
Embora o índice nacional de reciclagem dos resíduos têxteis ainda esteja próximo de 20%, experiências desenvolvidas pela indústria mostram que é possível conciliar produção em escala, eficiência operacional e redução do impacto ambiental.
A circularidade muda a forma como as empresas calculam seus resultados. Além do volume de fios e tecidos produzidos, passam a importar indicadores como consumo de embalagens, geração de resíduos, aproveitamento de materiais e percentual destinado aos aterros.
Para a cadeia do algodão, o avanço desse modelo representa uma oportunidade de agregar sustentabilidade ao produto desde o campo até a indústria. Ao reconhecer o resíduo têxtil como matéria-prima, o setor reduz perdas, preserva recursos naturais e se prepara para atender mercados cada vez mais atentos à origem e ao destino dos produtos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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