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Clima

Mudanças climáticas ameaçam produção de seda, mas Paraná investe em tecnologia para manter liderança nacional

Responsável por cerca de 85% da seda brasileira, Estado aposta em irrigação, climatização e assistência técnica para proteger a sericicultura e ampliar a renda da agricultura familiar


Publicado em: 02/09/2026 às 17:00hs

Mudanças climáticas ameaçam produção de seda, mas Paraná investe em tecnologia para manter liderança nacional
Foto: AEN

O Paraná concentra aproximadamente 85% da produção nacional de seda e mantém a posição de maior produtor de casulos do bicho-da-seda da América Latina. A liderança, no entanto, enfrenta desafios provocados pelas mudanças climáticas, pela escassez de mão de obra e pela deriva de agrotóxicos sobre as plantações de amoreira.

Desenvolvida principalmente por agricultores familiares, a sericicultura paranaense movimentou R$ 34,57 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP) em 2025, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab).

Atualmente, 137 dos 399 municípios paranaenses participam efetivamente da cadeia produtiva. A seda produzida no Estado é reconhecida pela qualidade e exportada para países como França, China, Índia, Itália e Japão, onde abastece a indústria têxtil e o mercado internacional de luxo.

Número de produtores caiu de 5 mil para 1,2 mil

Apesar da relevância econômica, a sericicultura perdeu espaço nas últimas décadas. O Paraná chegou a reunir cerca de 5 mil produtores, mas atualmente conta com aproximadamente 1,2 mil sericicultores.

De acordo com Oswaldo da Silva Pádua, assessor estadual do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e responsável pela área de sericicultura, a redução está associada a fatores ambientais, produtivos e sociais.

Entre os principais problemas estão a deriva de defensivos agrícolas, pulverizações realizadas sem os cuidados necessários, operações com aviação agrícola e oscilações climáticas capazes de comprometer as amoreiras e provocar perdas na produção de casulos.

Estima-se que aproximadamente 85% das famílias que já trabalharam com a atividade tenham deixado o setor. Recuperar parte desses produtores e atrair novas famílias tornou-se uma das prioridades da cadeia estadual da seda.

Calor afeta amoreiras e criação do bicho-da-seda

As mudanças no comportamento do clima estão entre as maiores preocupações para os próximos ciclos produtivos. Temperaturas elevadas prejudicam tanto o desenvolvimento das amoreiras quanto a criação das lagartas nos barracões.

As folhas frescas da amoreira são o único alimento do bicho-da-seda, conhecido cientificamente como Bombyx mori. Qualquer perda de qualidade, redução no crescimento ou contaminação dessas plantas pode afetar diretamente a produtividade e a qualidade dos casulos.

A perspectiva de temperaturas mais altas, associada ao El Niño, reforça a necessidade de adaptar as propriedades. Segundo Pádua, novas tecnologias serão fundamentais para garantir o desenvolvimento adequado das amoreiras e preservar a alimentação das lagartas.

Nos ambientes de criação, a temperatura considerada ideal varia entre 22°C e 26°C. Acima dessa faixa, aumenta o risco de estresse térmico, perda de desempenho e redução da qualidade da matéria-prima.

Paraná instala irrigação e climatização em propriedades

Para enfrentar os efeitos do clima, associações de produtores, universidades, pesquisadores, indústrias, instituições financeiras e órgãos públicos trabalham na implantação de soluções tecnológicas e na capacitação dos sericicultores.

No Noroeste do Paraná, dez propriedades foram selecionadas como Unidades de Referência. Cada uma receberá um conjunto de tecnologias que inclui irrigação em um hectare de amoreira, estação de monitoramento climático e climatização dos barracões onde ocorre a criação das lagartas.

A iniciativa deverá ser ampliada para as regiões Centro-Sul e Norte Pioneiro, que vêm aumentando a participação na atividade. A previsão é instalar outras dez Unidades de Referência nessas áreas.

De acordo com Eduardo Venicio Libanori, técnico do IDR-Paraná, o controle da temperatura nos barracões será determinante para manter a produtividade diante do avanço do calor.

As unidades também servirão como vitrines tecnológicas, permitindo que outros produtores acompanhem os resultados e avaliem a adoção das soluções em suas propriedades.

Sericicultura gera renda para agricultura familiar

A produção de seda apresenta forte participação da agricultura familiar e pode gerar receita em pequenas áreas. Uma caixa de criação comporta aproximadamente 40 mil lagartas e produz, em média, entre 70 e 80 quilos de casulos.

Com valores de comercialização entre R$ 40 e R$ 42 por quilo, uma caixa pode proporcionar receita bruta de aproximadamente R$ 2,8 mil a R$ 3,3 mil, dependendo da produtividade e do preço recebido pelo produtor.

Além do retorno econômico, a sericicultura é considerada uma atividade de baixo impacto ambiental. A produção exige cuidado diário e oferta constante de folhas, mas pode ser integrada a pequenas propriedades e contribuir para a diversificação da renda rural.

A extensão rural tem papel estratégico nesse processo. A assistência técnica ajuda os produtores a melhorar o manejo das amoreiras, controlar as condições dos barracões, aumentar a produtividade e reduzir perdas durante os ciclos de criação.

Produção do bicho-da-seda dura cerca de 28 dias

O ciclo produtivo do bicho-da-seda dura aproximadamente 28 dias. Durante esse período, as lagartas passam por diferentes fases de desenvolvimento e se alimentam exclusivamente de folhas frescas de amoreira.

Na etapa final do crescimento, o consumo de folhas aumenta significativamente. O produtor precisa garantir alimentação frequente e de qualidade, inclusive durante a noite.

Depois de atingir o desenvolvimento adequado, as lagartas sobem em estruturas conhecidas como bosques ou montadeiras, onde começam a formar os casulos.

Cada casulo pode fornecer até cerca de mil metros de fio contínuo. Para a obtenção de um quilo de seda bruta, são necessários aproximadamente cinco quilos de casulos.

Diamante do Sul lidera produção paranaense

O Noroeste do Paraná possui forte tradição na sericicultura e chegou a concentrar cerca de 60% da produção estadual. Nova Esperança, localizada na região, é reconhecida por lei como a Capital Nacional da Seda.

Em 2025, entretanto, Diamante do Sul assumiu a liderança estadual na produção de casulos. Nova Esperança apareceu na segunda posição, seguida por Cândido de Abreu.

A mudança demonstra o avanço da atividade para outras áreas do Estado, especialmente o Centro-Sul e o Norte Pioneiro. Esse movimento justifica a expansão dos projetos de assistência técnica, irrigação, monitoramento climático e climatização.

Casulos passam por seleção e processamento industrial

A força da cadeia paranaense não está restrita à produção rural. O Estado também possui estrutura industrial para selecionar, secar, processar e transformar os casulos em fios destinados ao mercado internacional.

Depois de deixar as propriedades, os casulos são classificados em categorias de qualidade, como Premium Extra, Premium Bom, Premium e Kaiten.

Na etapa de secagem, equipamentos retiram a umidade de forma controlada para preservar as características do fio. Em seguida, painéis de luz auxiliam na identificação de anomalias internas.

Os casulos também passam por cozimento em temperaturas entre 60°C e 70°C. O processo facilita a liberação do fio e contribui para a firmeza e a uniformidade da seda.

Os subprodutos também podem ser aproveitados. A anafaia, formada pelas sobras de seda, é utilizada na fabricação de tecidos, cortinas e almofadas. As crisálidas podem ser destinadas à alimentação animal ou, em mercados específicos, ao consumo humano.

Seda do Paraná chega às grifes internacionais

A qualidade do fio paranaense permite que a produção abasteça marcas internacionais de luxo. Entre elas estão as francesas Hermès e Chanel, que utilizam a matéria-prima em lenços, vestuário e coleções de alta-costura.

Segundo informações divulgadas pelo setor, desde 2006 toda a seda utilizada mundialmente pela Hermès tem origem no Paraná.

Londrina, no Norte do Estado, abriga a Fiação de Seda Bratac, apontada como a única fábrica de fio de seda em escala industrial do Ocidente e a primeira empresa brasileira do segmento a conquistar certificação orgânica têxtil.

Em 2014, a empresa produziu 432,5 toneladas de fio. Das 413 toneladas comercializadas naquele ano, 54,7% tiveram como destino a Europa e 45,2% foram enviadas à Ásia.

Plano de dez anos busca recuperar cadeia da seda

O Paraná prepara um plano de desenvolvimento e sustentabilidade da sericicultura para os próximos dez anos. A estratégia foi estruturada pela Câmara Técnica da Seda e reúne diferentes elos da cadeia produtiva.

Participam das ações instituições de pesquisa pública e privada, universidades, órgãos de extensão rural, indústrias, agentes financeiros, associações de sericicultores e a Associação Brasileira de Fiações de Seda (Abraseda).

Segundo Marcelo Garrido, chefe do Deral, a sericicultura integra os projetos estratégicos do IDR-Paraná para aumentar a renda dos agricultores familiares, elevar a produção e a produtividade e promover maior sustentabilidade ambiental.

A expectativa é que a combinação de assistência técnica, pesquisa, irrigação, climatização, monitoramento climático e inovação ajude os produtores a enfrentar as novas condições ambientais.

O plano também pretende recuperar parte das famílias que deixaram a atividade, incentivar a sucessão rural e garantir matéria-prima para a indústria instalada no Estado.

Tecnologia será decisiva para preservar liderança

A produção de seda tem origem milenar. O bicho-da-seda começou a ser criado na China há mais de cinco mil anos e deu nome à histórica Rota da Seda, responsável por conectar comercialmente o Oriente e o Ocidente.

No Brasil, a atividade chegou ao Rio de Janeiro em 1848. Em 1922, a fundação da Indústria de Seda Nacional S.A., em Campinas (SP), ajudou a consolidar a sericicultura na agroindústria brasileira.

Atualmente, a produção está concentrada principalmente no Paraná, especialmente no Vale da Seda, e em áreas do interior de São Paulo.

Para preservar essa tradição e manter a liderança nacional, o Paraná terá de avançar na adaptação climática e na modernização das propriedades. A capacidade de proteger as amoreiras, controlar a temperatura dos barracões e reduzir os riscos provocados pela deriva de agrotóxicos será determinante para o futuro da atividade.

Com tecnologia, organização da cadeia e fortalecimento da agricultura familiar, o Estado busca manter a competitividade da seda paranaense e ampliar sua presença nos mercados de maior valor agregado.

Sericicultura paranaense em números
  • 85%: participação aproximada do Paraná na produção brasileira de seda;
  • R$ 34,57 milhões: Valor Bruto da Produção estadual em 2025;
  • 137 municípios: presença efetiva da atividade no Paraná;
  • 1,2 mil produtores: número atual aproximado de sericicultores;
  • 5 mil produtores: quantidade aproximada registrada no período de maior expansão;
  • 40 mil lagartas: capacidade estimada de uma caixa de criação;
  • 70 a 80 quilos: produção média de casulos por caixa;
  • 28 dias: duração aproximada de cada ciclo;
  • 22°C a 26°C: faixa de temperatura recomendada nos barracões;
  • 5 quilos de casulos: volume necessário para produzir aproximadamente um quilo de seda bruta;
  • Mil metros: extensão que o fio de um único casulo pode alcançar.

Fonte: Portal do Agronegócio

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