Recuperação judicial no agronegócio cresce 22% e expõe pressão financeira no campo
Serasa Experian registra 474 pedidos no primeiro trimestre de 2026; juros elevados, crédito restrito, custos de produção e margens menores desafiam produtores e empresas do setor
Publicado em: 27/08/2026 às 08:30hs
Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro cresceram 21,9% no primeiro trimestre de 2026, mesmo diante da perspectiva de uma safra recorde. Entre janeiro e março, o setor contabilizou 474 solicitações, contra 389 no mesmo período de 2025, segundo dados da Serasa Experian.
O avanço evidencia um paradoxo cada vez mais presente no campo: produzir mais não significa, necessariamente, melhorar a situação financeira. Embora muitas propriedades mantenham bons índices de produtividade, os juros elevados, o crédito mais seletivo, os custos operacionais e a volatilidade das commodities continuam comprimindo as margens.
A situação exige maior atenção ao fluxo de caixa, ao nível de endividamento e à capacidade de financiar os próximos ciclos produtivos. A pressão também alcança empresas ligadas ao fornecimento de insumos, armazenagem, transporte, comercialização e processamento da produção.
Pedidos atingiram recorde em 2025
O aumento registrado no início de 2026 ocorre após um ano de forte expansão das recuperações judiciais no agronegócio. Em 2025, foram apresentados 1.990 pedidos, o maior número da série histórica da Serasa Experian.
O resultado representou crescimento de 56,4% sobre as 1.272 solicitações contabilizadas em 2024. Os números mostram que as dificuldades financeiras acumuladas nos últimos ciclos ainda afetam produtores rurais e empresas da cadeia agroindustrial.
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, o problema atual está mais relacionado à estrutura financeira dos negócios do que à capacidade de produção.
“O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção, enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente”, afirma.
Segundo o especialista, a combinação de insumos caros, crédito restrito, juros elevados e oscilações nos preços das commodities reduz a margem e aumenta o risco de descasamento entre receitas e compromissos financeiros.
Juros altos e crédito restrito pressionam o capital de giro
O encarecimento do dinheiro alterou a dinâmica de financiamento do agronegócio. Produtores que dependem de recursos para custeio, investimentos e capital de giro passaram a enfrentar taxas mais elevadas, exigências adicionais e maior seletividade das instituições financeiras.
Muitos negócios também carregam renegociações realizadas em anos anteriores, quando as projeções para preços, juros e rentabilidade eram diferentes. Com a mudança do cenário econômico, algumas operações deixaram de gerar caixa suficiente para suportar as parcelas contratadas.
“Hoje, o custo do dinheiro se tornou um dos maiores desafios para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas acreditando em um cenário diferente daquele que acabou se consolidando”, explica Barroso.
O efeito não fica restrito às propriedades rurais. A redução da capacidade de pagamento pode atingir fornecedores de insumos, cooperativas, revendas, tradings, transportadoras, prestadores de serviços e indústrias vinculadas à produção agropecuária.
Boa produtividade não garante geração de caixa
O crescimento das recuperações judiciais demonstra que indicadores produtivos e financeiros precisam ser analisados separadamente. Uma fazenda pode alcançar boa produtividade e, ainda assim, enfrentar dificuldades para pagar suas obrigações.
O resultado econômico depende do preço recebido, dos custos por hectare, do serviço da dívida, dos prazos de recebimento e da disponibilidade de capital para iniciar o próximo ciclo.
Entre os principais fatores que pressionam o caixa estão:
- Juros elevados e aumento das despesas financeiras;
- Crédito rural mais caro e seletivo;
- Custos de produção ainda elevados;
- Oscilações nos preços das commodities;
- Endividamento acumulado de safras anteriores;
- Descasamento entre receitas e vencimentos;
- Margens menores mesmo com produtividade elevada;
- Necessidade de novo financiamento para custear a safra.
Quando esses fatores se acumulam, o produtor pode perder liquidez mesmo mantendo ativos, capacidade operacional e potencial produtivo.
Recuperação judicial deve ser utilizada com planejamento
A recuperação judicial é um instrumento legal destinado a permitir a reorganização de atividades economicamente viáveis que enfrentam dificuldades financeiras. O mecanismo pode suspender temporariamente cobranças e criar condições para a negociação coletiva das dívidas, conforme as regras legais aplicáveis.
O aumento dos pedidos, entretanto, não deve ser interpretado automaticamente como sinal de uma crise estrutural de todo o agronegócio. Em muitos casos, o problema está no desequilíbrio entre a geração de caixa e o calendário de pagamentos.
Barroso alerta que a medida não deve ser tratada como a primeira alternativa.
“A recuperação judicial é um importante instrumento de reorganização empresarial, mas não pode ser vista como estratégia inicial. Quando utilizada sem planejamento ou no momento inadequado, tende apenas a prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas anteriormente”, afirma.
A viabilidade da medida depende de diagnóstico financeiro, planejamento jurídico, capacidade de continuidade operacional e elaboração de uma proposta realista para o pagamento dos credores.
Ação antecipada amplia alternativas de negociação
A identificação precoce da deterioração financeira aumenta as chances de preservar a atividade. Antes de recorrer ao Judiciário, produtores e empresas podem avaliar diferentes estratégias para reorganizar o caixa e reduzir o endividamento.
Entre as alternativas estão a renegociação estruturada das dívidas, revisão dos custos operacionais, venda de ativos não estratégicos, alongamento dos vencimentos, busca por investidores e readequação do plano de produção.
“O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial”, ressalta Barroso.
O acompanhamento deve observar não apenas o saldo disponível, mas também as projeções de receitas, despesas e vencimentos. A análise antecipada permite identificar períodos de insuficiência de caixa antes que ocorram atrasos generalizados.
Governança financeira ganha importância no agronegócio
Para Benito Pedro Vieira Santos, CEO do Grupo Avante Assessoria e especialista em governança corporativa e reestruturação empresarial, o setor precisa levar para a administração financeira o mesmo grau de eficiência alcançado na produção.
“O agronegócio brasileiro aprendeu a produzir com eficiência, mas agora precisa administrar o crescimento com a mesma excelência. Produção elevada não é suficiente quando a estrutura de capital está pressionada”, afirma.
Segundo o especialista, o produtor deve acompanhar o fluxo de caixa, projetar diferentes cenários, controlar a alavancagem e antecipar riscos. Essas práticas permitem verificar se a dívida permanece compatível com a capacidade real de pagamento.
A governança também melhora a qualidade das decisões e fortalece a relação com bancos, investidores e fornecedores. Informações financeiras organizadas tornam mais clara a situação do negócio e facilitam negociações em momentos de dificuldade.
Bancos avaliam gestão e capacidade de pagamento
As instituições financeiras já não consideram apenas o patrimônio e as garantias oferecidas pelo produtor. A geração de caixa, a qualidade dos dados, a governança e a previsibilidade dos resultados passaram a ter maior peso na análise de crédito.
“O crédito deixou de olhar apenas para o patrimônio. Hoje, capacidade de geração de caixa, qualidade das informações, governança e previsibilidade financeira são cada vez mais importantes”, explica Benito.
Esse movimento exige maior profissionalização da gestão. Demonstrativos atualizados, controles de custos, projeções financeiras e separação entre patrimônio familiar e recursos da atividade tornam-se relevantes para o acesso ao financiamento.
Na avaliação do especialista, governança não significa aumentar a burocracia, mas transformar informação em decisão. Empresas que monitoram indicadores e mantêm diálogo antecipado com os credores apresentam melhores condições para atravessar períodos adversos.
Planejamento deve incluir cenários de preço, clima e juros
O orçamento da propriedade precisa considerar diferentes possibilidades para produtividade, preços de venda, câmbio, custos de insumos e taxas de juros. Trabalhar apenas com um cenário otimista aumenta o risco de decisões incompatíveis com a capacidade financeira do negócio.
A gestão pode simular, por exemplo, os efeitos de uma queda nos preços das commodities, de perdas climáticas ou de aumento no custo do crédito. A partir dessas projeções, o produtor consegue definir limites para investimentos, contratação de dívidas e expansão da área.
Também é importante acompanhar indicadores como margem operacional, custo por hectare, endividamento sobre receita, cobertura do serviço da dívida e necessidade de capital de giro.
Cenário financeiro continuará exigindo cautela
Mesmo com perspectivas favoráveis para a produção agrícola, o ambiente financeiro deverá permanecer desafiador ao longo de 2026. A trajetória dos juros, os preços das commodities, os custos dos insumos e a oferta de crédito serão determinantes para a recuperação das margens.
Para os especialistas, o próximo ciclo do agronegócio exigirá uma combinação mais equilibrada entre produtividade e administração financeira. Além de produzir, será necessário preservar liquidez, controlar a alavancagem e antecipar riscos.
“O agronegócio brasileiro continua extremamente competitivo e possui fundamentos sólidos. Quem conseguir reorganizar sua estrutura de capital e manter disciplina na gestão estará mais preparado para atravessar esse período de maior pressão”, conclui Barroso.
Benito reforça que o novo ciclo será marcado pela capacidade de transformar produtividade em resultado financeiro. Os negócios mais preparados serão aqueles capazes de reunir eficiência no campo, geração de caixa, governança e adaptação às mudanças do mercado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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