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Quota chinesa de carne bovina ameaça exportações do Pará e expõe dependência do mercado externo

Com o limite de vendas para a China próximo do esgotamento, frigoríficos paraenses enfrentam maior risco por não terem acesso a destinos estratégicos como Estados Unidos, Chile, México e União Europeia


Publicado em: 26/08/2026 às 20:00hs

Quota chinesa de carne bovina ameaça exportações do Pará e expõe dependência do mercado externo

O avanço das exportações brasileiras de carne bovina levou a quota estabelecida pela China para o produto nacional para perto do limite, ampliando as preocupações do setor para o segundo semestre de 2026. O cenário representa um desafio ainda maior para o Pará, segundo estado com o maior rebanho bovino do Brasil, mas ainda distante de mercados capazes de compensar uma eventual redução dos embarques chineses.

A avaliação é da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A entidade alerta que os frigoríficos paraenses não estão habilitados a exportar para importantes destinos, como Estados Unidos, Chile, México e União Europeia.

Essa limitação comercial reduz as possibilidades de redirecionamento da carne que deixaria de ser enviada à China, principal destino do produto brasileiro. Os primeiros efeitos começaram a aparecer nos resultados de julho, quando as exportações nacionais perderam força, especialmente nos embarques ao mercado chinês.

Exportações brasileiras de carne bovina recuam em julho

O Brasil exportou US$ 1,63 bilhão em carne bovina e derivados em julho de 2026. O valor representa queda de 5,6% em relação ao mesmo mês de 2025.

Em volume, os embarques alcançaram 308,2 mil toneladas, retração de 16% na comparação anual.

Considerando apenas a carne bovina in natura, responsável por aproximadamente 91% da receita exportadora do setor, as vendas somaram US$ 1,447 bilhão, redução de 5,7%. O volume embarcado caiu 17,5%, para 227,89 mil toneladas.

A desaceleração foi influenciada principalmente pela retração das compras chinesas. Em julho, a receita obtida com a venda de carne in natura para a China diminuiu 39,6%, para US$ 529,24 milhões.

O volume destinado ao mercado chinês recuou 47,8%, totalizando 82,7 mil toneladas.

Pará pode sentir impacto maior com limite da quota chinesa

A proximidade do esgotamento da quota chinesa aumenta a pressão sobre os estados mais dependentes desse mercado. Para a Abrafrigo, o Pará está entre os mais vulneráveis porque dispõe de poucas alternativas relevantes para redirecionar a produção.

O estado possui 25,56 milhões de bovinos e ocupa a segunda posição entre os maiores rebanhos do país, atrás apenas de Mato Grosso, com 32,85 milhões de cabeças. Apesar dessa dimensão, o Pará aparece somente na quarta colocação nacional em abates e na sétima em exportações de carne bovina.

Na avaliação da associação, os números mostram que o desempenho exportador paraense permanece abaixo do potencial produtivo do estado. Essa diferença limita a geração de receita para pecuaristas, frigoríficos, transportadores e demais atividades ligadas à cadeia da carne bovina.

Embora parte do produto inicialmente destinado à China possa ser absorvida pelo mercado interno ou enviada para outros países, a entidade avalia que as alternativas disponíveis não seriam suficientes para acomodar todo o excedente.

Falta de habilitação restringe frigoríficos paraenses

A ausência de habilitação para mercados como Estados Unidos, Chile, México e União Europeia reduz a capacidade de reação do Pará diante da perda de ritmo nas vendas à China.

A Abrafrigo defende que o estado seja priorizado nas negociações sanitárias e comerciais conduzidas pelo governo brasileiro. A associação destaca que o Pará, assim como as demais unidades da Federação, possui reconhecimento como área livre de febre aftosa sem vacinação.

Na visão da entidade, essa condição sanitária deveria favorecer a abertura de novos destinos para a carne paraense. A ampliação das habilitações permitiria diversificar compradores, reduzir riscos comerciais e aproveitar melhor o potencial do segundo maior rebanho bovino brasileiro.

Exportações acumuladas ainda crescem em 2026

Apesar da queda registrada em julho, o resultado acumulado das exportações brasileiras permanece positivo.

Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil embarcou 2,119 milhões de toneladas de carne bovina e derivados, crescimento de 3,1% em relação ao mesmo período de 2025.

A receita aumentou 26%, alcançando US$ 11,56 bilhões. O desempenho foi favorecido principalmente pela valorização dos preços internacionais da carne bovina.

No acumulado do ano, 116 países ampliaram as compras do produto brasileiro, enquanto 60 reduziram as importações.

China concentra quase metade da receita do setor

A China permaneceu como o principal destino da carne bovina brasileira nos sete primeiros meses de 2026. O país asiático importou 857,24 mil toneladas, volume 8,5% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

A receita gerada pelas vendas ao mercado chinês avançou 30,95%, atingindo US$ 5,346 bilhões. Com esse resultado, a China respondeu por 46,26% de toda a receita obtida pelo Brasil com as exportações de carne bovina e derivados.

No segmento de carne in natura, os chineses representaram 50,75% das vendas em valor e 49,76% dos embarques em volume.

O preço médio da carne destinada à China passou de US$ 5.166 por tonelada em 2025 para US$ 6.238 em 2026, alta de 20,76%. Segundo a Abrafrigo, a valorização também reflete o aumento dos preços do boi gordo no mercado brasileiro.

Estados Unidos ampliam compras de carne brasileira

Os Estados Unidos consolidaram-se como o segundo maior comprador da carne bovina brasileira. Entre janeiro e julho, as vendas de carne in natura para o mercado norte-americano cresceram 48% em receita, alcançando US$ 1,276 bilhão.

O volume exportado avançou 23,9%, para 209,64 mil toneladas. O preço médio subiu 19,5%, passando de US$ 5.092 para US$ 6.086 por tonelada.

Somente em julho, as vendas aos Estados Unidos aumentaram 127,7% em valor, para US$ 160 milhões. O volume embarcado cresceu 105,8%, atingindo 26 mil toneladas.

As perspectivas para o mercado norte-americano permanecem favoráveis devido ao déficit de abastecimento, estimado em 2,64 milhões de toneladas em equivalente-carcaça para 2026.

O governo dos Estados Unidos também anunciou um plano para importar 300 mil toneladas de carne bovina com isenção do imposto de importação de 26,4%. Os critérios da medida ainda dependem de regulamentação.

Caso o Brasil seja incluído, a carne nacional poderá ganhar competitividade no mercado norte-americano. O Pará, entretanto, não conseguiria aproveitar imediatamente essa oportunidade enquanto seus estabelecimentos permanecerem sem habilitação para exportar ao país.

Chile e União Europeia também aumentam importações

O Chile elevou as compras de carne bovina brasileira para US$ 539 milhões entre janeiro e julho de 2026, crescimento de 45,86%. Em volume, as importações avançaram 30,64%, para 88,9 mil toneladas.

As vendas destinadas à União Europeia cresceram 21,8% em receita, alcançando US$ 480,4 milhões. O volume aumentou 9%, para 52,4 mil toneladas.

O preço médio pago pelo bloco europeu subiu 11,7%, chegando a US$ 9.163 por tonelada, valor superior ao observado nos principais mercados compradores.

Apesar do desempenho positivo, a União Europeia também desperta preocupação. Segundo a Abrafrigo, dificuldades nas negociações relacionadas à certificação de produção livre de antimicrobianos podem comprometer o acesso da carne brasileira ao bloco a partir de setembro.

A Rússia, quinto maior destino do produto nacional, ampliou as compras em 43,83% em valor, para US$ 317,4 milhões. O volume cresceu 31%, totalizando 62,34 mil toneladas.

Concentração das exportações aumenta riscos para a pecuária

China, Estados Unidos, Chile, União Europeia e Rússia concentraram 75,56% da receita brasileira com exportações de carne bovina in natura entre janeiro e julho de 2026.

Juntos, esses cinco mercados compraram US$ 7,957 bilhões. Em volume, absorveram 1,27 milhão de toneladas, correspondentes a 73,4% dos embarques nacionais.

A concentração torna o setor mais exposto a mudanças em quotas, tarifas, exigências sanitárias, conflitos geopolíticos e restrições comerciais. O risco é maior para estados que não possuem acesso a todos esses destinos.

Diante da proximidade do limite da quota chinesa, a diversificação dos compradores passa a ser estratégica para sustentar as exportações, reduzir a pressão sobre o mercado interno e preservar os preços pagos aos pecuaristas.

Para o Pará, a abertura de novos mercados será determinante para transformar o tamanho do rebanho em maior participação nos abates e nas exportações brasileiras de carne bovina.

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Fonte: Portal do Agronegócio

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