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Análise de Mercado

Guerra comercial entre EUA e Canadá ameaça agricultura e eleva custos dos alimentos

Tarifas de até 50% ampliam a incerteza sobre cadeias de suprimentos, exportações e preços agrícolas, enquanto produtores temem que o campo se torne alvo da disputa bilateral


Publicado em: 26/08/2026 às 19:00hs

Guerra comercial entre EUA e Canadá ameaça agricultura e eleva custos dos alimentos

A escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e Canadá acendeu um alerta no setor agropecuário da América do Norte. Embora parte relevante do comércio agrícola entre os dois países ainda permaneça protegida pelas regras do acordo comercial USMCA, a ampliação das tarifas aumenta os riscos para cadeias integradas de produção, processamento, transporte e distribuição de alimentos.

O impasse ganhou força após o fracasso das negociações comerciais em 22 de agosto. Na sequência, o governo do presidente norte-americano Donald Trump aplicou tarifas de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses, atingindo cerca de 5% das exportações do Canadá destinadas ao mercado dos Estados Unidos.

Entre os produtos afetados estão lácteos, eletrônicos e máquinas industriais. A medida se soma às barreiras já existentes sobre aço, alumínio, madeira e veículos, ampliando o alcance do conflito e aumentando a preocupação entre empresas e produtores rurais.

Canadá anuncia retaliação contra produtos dos Estados Unidos

Em resposta, o governo canadense anunciou novas tarifas sobre C$ 27,6 bilhões em mercadorias importadas dos Estados Unidos. As medidas entrarão em vigor em 8 de setembro e terão alíquotas de 15%, 25% e 50%, conforme o produto atingido.

A retaliação canadense deverá alcançar setores como aço, produtos lácteos, eletrodomésticos, máquinas agrícolas, papel e celulose e equipamentos eletrônicos. As alíquotas foram definidas para corresponder às tarifas adotadas pelo governo norte-americano.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou que a resposta será proporcional e acompanhada por programas de apoio aos trabalhadores e às empresas prejudicadas pela disputa.

O aumento das barreiras representa mais um obstáculo para a revisão do USMCA, acordo comercial que reúne Estados Unidos, Canadá e México e sustenta uma das cadeias produtivas mais integradas do mundo.

Agricultura teme se tornar efeito colateral da disputa

Apesar de a maior parte da agricultura canadense ainda não estar diretamente submetida às novas tarifas, organizações do setor alertam que os efeitos indiretos podem atingir diferentes atividades rurais.

A Wheat Growers Association manifestou preocupação com a possibilidade de os produtos agrícolas serem utilizados como instrumentos de pressão nas negociações. A entidade defende que agricultores e alimentos não sejam transformados em moeda de troca na disputa comercial.

Produtores canadenses e norte-americanos mantêm relações construídas ao longo de décadas em áreas como fornecimento de insumos, pesquisa, genética, processamento, logística e comercialização. A imposição de tarifas pode comprometer esse sistema integrado e elevar os custos nos dois lados da fronteira.

Segundo a Wheat Growers, a cooperação entre os agricultores deve ser considerada um ativo estratégico para os dois países, especialmente porque muitas cadeias não podem ser separadas rapidamente sem prejuízos econômicos.

Comércio agrícola movimenta cerca de US$ 70 bilhões por ano

A Canadian Federation of Agriculture também destacou a importância da relação bilateral. Canadá e Estados Unidos mantêm um fluxo anual de aproximadamente US$ 70 bilhões em produtos agrícolas e alimentos.

O Canadá ocupa a posição de segundo maior parceiro agrícola dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o mercado norte-americano representa um dos principais destinos para grãos, carnes, lácteos, alimentos processados e outros produtos canadenses.

Essa integração também envolve fertilizantes. O Canadá fornece mais de 80% das importações norte-americanas de potássio, insumo essencial para a produção agrícola. Qualquer restrição sobre esse comércio poderia encarecer a adubação e afetar os custos das lavouras nos Estados Unidos.

Tarifas podem encarecer máquinas, insumos e alimentos

A preocupação do agronegócio não se limita às exportações. A retaliação canadense inclui máquinas agrícolas norte-americanas, o que pode elevar os custos de aquisição e reposição de equipamentos nas propriedades rurais do Canadá.

As tarifas também podem provocar aumento nos preços de embalagens, componentes industriais, peças, combustíveis, fertilizantes e serviços logísticos. Como diversas mercadorias atravessam a fronteira mais de uma vez durante o processo produtivo, a cobrança acumulada pode comprometer margens e competitividade.

No mercado de alimentos, parte dos custos adicionais tende a ser repassada aos consumidores. Produtos lácteos, bebidas, grãos, carnes e alimentos processados estão entre os segmentos mais vulneráveis a interrupções ou encarecimento das cadeias de abastecimento.

O risco é maior para pequenas e médias empresas, que normalmente possuem menor capacidade financeira para absorver tarifas, redirecionar exportações ou substituir fornecedores em curto prazo.

Produtores enfrentam custos elevados e clima imprevisível

A disputa ocorre em um momento já desafiador para a agricultura norte-americana e canadense. Produtores convivem com custos elevados de insumos, volatilidade das commodities e maior frequência de eventos climáticos extremos.

Nesse ambiente, novas barreiras comerciais reduzem a previsibilidade para o planejamento das próximas safras. A incerteza pode adiar investimentos, limitar contratações e dificultar a formação de preços para produtos vendidos antecipadamente.

As organizações agrícolas defendem a retomada das negociações e a preservação do comércio de alimentos e insumos essenciais. A avaliação é que uma guerra tarifária prolongada poderá causar perdas para produtores, indústrias e consumidores dos dois países.

Disputa pode acelerar busca do Canadá por novos mercados

Diante do agravamento das relações com os Estados Unidos, o Canadá também intensifica sua estratégia de diversificação comercial. O governo canadense pretende ampliar acordos e elevar as exportações destinadas à Europa, Ásia e outros mercados.

Para o agronegócio, a abertura de novos destinos pode reduzir a dependência do mercado norte-americano, mas exige tempo, infraestrutura, acordos sanitários e adaptação às exigências dos compradores.

No curto prazo, Estados Unidos e Canadá continuarão fortemente dependentes um do outro. Por isso, entidades rurais avaliam que a retomada do diálogo é fundamental para impedir que a disputa industrial avance sobre a agricultura e comprometa uma das maiores relações comerciais de alimentos do mundo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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