Super El Niño 2026/27 pode transformar mercados agrícolas, pressionar inflação global e redesenhar oportunidades para o agronegócio brasileiro
Estudo internacional aponta que fenômeno climático poderá ser um dos mais intensos das últimas décadas, elevando preços de alimentos na Ásia, alterando fluxos do comércio mundial e favorecendo a produção de grãos na América do Sul, especialmente no Brasil.
Publicado em: 23/07/2026 às 20:00hs
O avanço do El Niño 2026/27 deixou de ser apenas uma preocupação meteorológica para se tornar um dos principais fatores de risco para a economia mundial. Segundo estudo da Allianz Research, o fenômeno tem potencial para se tornar o mais intenso em mais de uma década, provocando impactos que vão muito além da agricultura e alcançam inflação, comércio internacional, cadeias globais de suprimentos, logística e resultados corporativos.
Embora historicamente associado às mudanças no regime de chuvas, o novo episódio do El Niño poderá desencadear uma profunda redistribuição da produção agrícola mundial. Enquanto diversas regiões da Ásia, África e Oceania enfrentam risco elevado de secas severas, parte da América do Sul deverá registrar condições climáticas mais favoráveis para culturas como soja, milho e outras commodities agrícolas.
Essa diferença de comportamento climático tende a criar vencedores e perdedores no mercado internacional, alterando preços, competitividade e fluxos comerciais.
Fenômeno deixa de ser apenas climático e passa a representar risco macroeconômico
O relatório destaca que o El Niño não deve ser analisado apenas sob a ótica da produção agrícola. Seus efeitos alcançam praticamente toda a economia mundial.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que episódios típicos do fenômeno elevam os preços globais dos alimentos em aproximadamente 5% ao longo de um ano. Estudos econômicos ainda apontam que os eventos de 1982/83 e 1997/98 provocaram perdas acumuladas de trilhões de dólares na renda mundial durante os cinco anos seguintes.
Além das perdas produtivas, eventos extremos costumam provocar:
- aceleração da inflação de alimentos;
- aumento dos custos logísticos;
- pressão sobre energia e transporte;
- restrições às exportações em diversos países;
- maior volatilidade nos mercados financeiros;
- impactos sobre políticas monetárias e taxas de juros.
Na avaliação dos economistas da Allianz, o cenário atual é ainda mais sensível porque diversos mercados agrícolas iniciam este ciclo com estoques reduzidos e governos muito mais propensos a intervir no comércio internacional por meio de restrições às exportações, formação de estoques estratégicos e controle de preços.
Probabilidade de um evento extremo cresce para 2026
As principais instituições meteorológicas internacionais vêm aumentando as projeções para a intensidade do fenômeno.
As estimativas apontam elevada probabilidade de que o atual episódio evolua para um Super El Niño, categoria reservada aos eventos mais intensos registrados desde meados do século passado.
Caso essa projeção se confirme, os impactos climáticos deverão ser significativamente superiores aos observados em episódios moderados, aumentando a frequência de secas, ondas de calor e alterações no regime de chuvas em diversas regiões produtoras do planeta.
Ásia concentra os maiores riscos para a produção mundial de alimentos
O estudo identifica a Ásia como a região de maior vulnerabilidade econômica.
Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia, Vietnã e outros importantes produtores agrícolas poderão enfrentar perdas relevantes de produtividade devido à redução das chuvas.
Entre as commodities mais expostas estão:
- arroz;
- açúcar;
- óleo de palma;
- café robusta;
- cacau.
A combinação entre menor oferta, estoques reduzidos e possível adoção de restrições às exportações pode provocar forte volatilidade nos preços internacionais desses produtos, pressionando a inflação global de alimentos.
Como consequência, empresas da indústria alimentícia, fabricantes de bens de consumo e grandes redes varejistas poderão enfrentar aumento expressivo dos custos de produção, efeito que tende a ser parcialmente repassado ao consumidor final.
Brasil pode assumir posição estratégica no abastecimento global
Enquanto parte importante da Ásia enfrenta risco elevado de perdas agrícolas, o cenário para o Brasil tende a ser mais favorável em diversas regiões produtoras.
Historicamente, episódios de El Niño costumam favorecer o regime de chuvas no Sul do Brasil e em áreas importantes da Argentina, beneficiando culturas como soja, milho e parte da produção de açúcar.
Esse aumento da oferta pode fortalecer o papel da América do Sul como principal fornecedora mundial de grãos durante o ciclo 2026/27, ampliando sua relevância no comércio internacional.
Entretanto, maior produção não significa necessariamente maior rentabilidade. Safras volumosas costumam pressionar as cotações internacionais, reduzir margens dos produtores e aumentar a necessidade de armazenagem, criando novos desafios para cooperativas, tradings e empresas do setor agropecuário.
Fonte: Portal do Agronegócio
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