Oceanos completam 100 dias de calor recorde enquanto El Niño amplia alerta climático no Brasil
Temperaturas excepcionalmente altas nos mares reforçam riscos associados ao El Niño, enquanto seca dos rios, queda dos reservatórios e avanço do fogo na Amazônia evidenciam a pressão climática no país
Publicado em: 09/09/2026 às 19:00hs
O avanço de um El Niño potencialmente muito forte no Pacífico Equatorial deixou de ser o único sinal de alerta para o clima global. Em 10 de setembro, a temperatura média da superfície dos oceanos deverá completar 100 dias consecutivos em níveis recordes, segundo o monitoramento apresentado por cientistas e especialistas em clima.
O cenário chama atenção porque o El Niño se desenvolve sobre oceanos que já acumulam uma quantidade excepcional de calor. Essa combinação pode ampliar desequilíbrios na atmosfera e elevar o risco de secas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas intensas e outros eventos extremos em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, os efeitos não são uniformes, mas os sinais de agravamento incluem queda dos níveis de rios na Região Norte, redução dos reservatórios, temperaturas acima da média em quase todo o território nacional e concentração dos focos de incêndio na Amazônia.
Oceanos atingem sequência histórica de temperaturas elevadas
A temperatura da superfície dos oceanos deverá alcançar a marca de 100 dias consecutivos em níveis recordes. Dentro desse período, cientistas também identificaram, de maneira preliminar, a maior temperatura média diária já observada nos mares.
O novo recorde ainda precisa ser confirmado pelas bases oficiais, mas reforça a dimensão do aquecimento oceânico registrado em 2026.
Oceanos mais quentes aumentam a disponibilidade de energia e umidade na atmosfera. Dependendo das condições regionais, isso pode contribuir para chuvas mais intensas, ondas de calor marinhas, alterações na circulação dos ventos e desequilíbrios nos ecossistemas.
O excesso de calor também ameaça recifes de coral, cadeias alimentares marinhas, estoques pesqueiros e comunidades que dependem diretamente dos oceanos.
El Niño se forma sobre um planeta mais quente
O El Niño é uma oscilação natural caracterizada pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, principalmente na faixa próxima à América do Sul. Essa mudança reorganiza a circulação atmosférica e interfere nos padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo.
O episódio atual, porém, apresenta uma condição adicional: ele ocorre em meio a temperaturas oceânicas globais excepcionalmente elevadas.
Enquanto o El Niño redistribui o calor já existente entre oceano e atmosfera, a mudança climática aumenta a quantidade total de energia acumulada no sistema terrestre. Isso significa que dois processos diferentes estão atuando simultaneamente e podem intensificar determinados extremos climáticos.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) prevê fortalecimento do El Niño até o fim de 2026. Segundo a agência, há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte durante o outono e o inverno no Hemisfério Norte, período que corresponde à primavera e ao verão no Hemisfério Sul.
Temperatura do Pacífico permanece em 1,8°C
O índice de monitoramento do El Niño permanece em 1,8°C desde 10 de agosto, completando quatro semanas sem avanço. É o maior intervalo de estabilidade desde o início da escalada, em maio.
A ausência de nova elevação, entretanto, não significa enfraquecimento do fenômeno. O índice continua em patamar elevado e está apenas 0,2°C abaixo da faixa tradicionalmente associada a um episódio muito forte.
Além disso, existe uma defasagem entre o aquecimento do oceano e seus impactos no continente. O sinal climático pode levar de semanas a meses para alterar de forma mais ampla o regime de chuvas, a temperatura, a umidade do solo, os rios e os reservatórios.
A NOAA ressalta que um El Niño mais intenso aumenta a probabilidade de impactos compatíveis com o fenômeno, mas não determina, isoladamente, o comportamento climático de cada região.
El Niño pode provocar extremos diferentes no Brasil
Os efeitos esperados para o Brasil variam conforme a região. Historicamente, episódios de El Niño podem favorecer chuvas acima da média no Sul e elevar o risco de estiagem e calor em áreas do Norte e do Nordeste.
No Centro-Oeste e no Sudeste, as preocupações envolvem temperaturas elevadas, baixa umidade, irregularidade das precipitações e pressão sobre os reservatórios. A intensidade dos impactos dependerá também de outros fatores atmosféricos e oceânicos.
Para o agronegócio, o cenário exige acompanhamento permanente das previsões. A distribuição irregular da chuva pode alterar o calendário de plantio, dificultar a germinação das sementes, aumentar a incidência de pragas e doenças e comprometer o desenvolvimento das lavouras.
Pecuária, irrigação, geração de energia, transporte fluvial e abastecimento urbano também ficam mais vulneráveis diante de períodos prolongados de calor e escassez hídrica.
Rio Branco fica abaixo da mínima histórica em Boa Vista
Os níveis dos rios reforçam o alerta no Norte do país. Em Boa Vista, o rio Branco atingiu 118 centímetros, cota classificada pelo Serviço Geológico do Brasil como inferior às mínimas registradas para esta época do ano.
O nível caiu 18 centímetros em uma semana e ficou 130 centímetros abaixo do observado na mesma data de 2016, ano em que a estação registrou sua menor marca histórica.
Em Caracaraí, o recuo semanal chegou a 35 centímetros, deixando o rio 189 centímetros abaixo do nível verificado em 1998. Todas as 11 estações monitoradas apresentaram redução.
As maiores quedas semanais foram observadas no rio Purus, em Beruri, com 110 centímetros, e no Solimões, em Manacapuru, com 99 centímetros. Em Manaus, o rio Negro baixou 94 centímetros, embora ainda permaneça dentro da faixa considerada normal para o período.
Reservatórios acumulam perdas no Nordeste e no Centro-Sul
A disponibilidade de água também diminuiu em diferentes sistemas de reservatórios. Na Paraíba, o volume armazenado caiu de 50,4% para 47,3% em apenas uma semana, redução de 3,1 pontos percentuais.
A perda semanal superou o recuo acumulado nas três semanas anteriores, que havia sido de 2,9 pontos. Com o movimento, a Paraíba passou a registrar percentual inferior ao Ceará.
O conjunto dos reservatórios monitorados no Nordeste fechou em 48,6%, permanecendo pela segunda semana consecutiva abaixo de 50%. Os seis estados acompanhados apresentaram redução.
No Sudeste/Centro-Oeste, maior subsistema elétrico do país, o armazenamento recuou pela sexta semana seguida e chegou a 57,1%. A queda acumulada no período foi de 6,1 pontos percentuais.
A recuperação mais consistente costuma ocorrer com o retorno das chuvas entre novembro e dezembro. Até lá, o comportamento das precipitações será determinante para o abastecimento de água e para a geração hidrelétrica.
Agosto teve calor acima da média em quase todo o Brasil
Agosto terminou com temperaturas superiores à média em praticamente todo o território nacional. A principal exceção foi o Rio Grande do Sul, onde as marcas ficaram próximas ou ligeiramente abaixo do padrão climatológico.
Mato Grosso registrou o maior desvio térmico, superior a 3°C. O resultado aumenta a preocupação com umidade do solo, disponibilidade hídrica, conforto térmico dos animais e risco de incêndios.
No Rio Grande do Sul, a mudança em relação a julho foi significativa. No mês anterior, toda a Região Sul apresentava temperaturas entre 1,5°C e 3°C acima da média. Em agosto, o extremo sul gaúcho também acumulou mais de 200 milímetros de chuva acima do normal.
Na direção oposta, Roraima, Amapá e o norte do Pará concentraram os maiores déficits de precipitação do país, justamente na área onde os rios apresentam níveis críticos.
Amazônia concentra 64% dos focos de incêndio
Entre 1º e 7 de setembro, o Brasil contabilizou 4.198 focos de calor, redução de 31% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar da queda nacional, a distribuição dos incêndios mudou de forma preocupante.
A Amazônia concentrou 64% dos registros da primeira semana de setembro, quase o dobro da participação observada um ano antes, quando respondia por 33% dos focos. O Amazonas assumiu a liderança entre os estados, superando o Pará.
No acumulado de 2026, a quantidade de focos na Amazônia está 27% acima do resultado do mesmo período de 2025. No Cerrado, houve queda de 23%.
Os números indicam uma migração da pressão do fogo entre os biomas. A redução nacional, portanto, não elimina o alerta, porque as queimadas passaram a se concentrar com maior intensidade na floresta amazônica.
Desalojados e desabrigados crescem 59% em 2026
O número de pessoas desalojadas ou desabrigadas por desastres chegou a 522,6 mil no acumulado de 2026, aumento de 59% frente às 329,2 mil registradas no mesmo intervalo do ano anterior.
Em sentido contrário, o total de pessoas afetadas caiu de 24,1 milhões para 18,3 milhões. A diferença está relacionada ao tipo de desastre: secas e estiagens podem atingir grandes populações sem provocar retirada imediata das residências, enquanto tempestades, inundações e deslizamentos tendem a gerar mais deslocamentos.
Nos primeiros dias de setembro, 78 pessoas estavam fora de casa em seis municípios. A estiagem, entretanto, continuou avançando. Entre os dias 1º e 3, outros 17 municípios de sete estados tiveram situação de emergência reconhecida pelo governo federal.
Cientistas debatem calor recorde nos oceanos
Os dados sobre as temperaturas oceânicas serão discutidos nesta quinta-feira (10), às 10h, no horário de Brasília, durante uma coletiva virtual com cientistas e especialistas em oceanos.
O encontro deverá abordar a sequência de 100 dias de calor recorde, o possível novo máximo diário da temperatura da superfície do mar e a interação entre o aquecimento global e o El Niño.
Para o Brasil, a combinação reforça a necessidade de monitoramento climático, gestão preventiva dos recursos hídricos e preparação dos setores produtivos. No agronegócio, decisões sobre plantio, irrigação, manejo do solo, prevenção de incêndios e contratação de seguro rural ganham ainda mais relevância diante da possibilidade de extremos climáticos nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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