El Niño ameaça safra 2026/27 e aumenta pressão financeira sobre agroindústrias
Possível redução na oferta de grãos, atrasos logísticos e alta dos custos podem ampliar a necessidade de capital de giro; R$ 6 bilhões estão disponíveis para operações de crédito estruturado no setor
Publicado em: 09/09/2026 às 09:30hs
A possibilidade de intensificação do El Niño no segundo semestre de 2026 acende um alerta para as agroindústrias brasileiras. Além dos impactos esperados sobre as lavouras, o fenômeno climático pode reduzir a disponibilidade de matérias-primas, provocar atrasos nas entregas e elevar os custos operacionais durante a safra 2026/27.
O risco, portanto, não está restrito ao campo. Eventuais perdas de produtividade ou dificuldades na colheita podem afetar diretamente o abastecimento de armazenadoras, processadoras, cooperativas e distribuidoras, aumentando a pressão sobre estoques, contratos e capital de giro.
El Niño pode afetar até 32 milhões de toneladas de grãos
Estimativas utilizadas pelo mercado indicam que um El Niño de intensidade muito forte poderia comprometer até 10% da produção brasileira de grãos. Considerando um volume aproximado de 320 milhões de toneladas de soja e milho na safra 2025/26, o impacto potencial alcançaria 32 milhões de toneladas.
O cálculo representa uma projeção de risco, e não uma previsão de perda efetiva. A dimensão dos prejuízos dependerá da intensidade do fenômeno, da duração das anomalias climáticas e das regiões efetivamente atingidas.
Os efeitos do El Niño também tendem a variar pelo território nacional. Historicamente, o fenômeno está relacionado à redução das chuvas em áreas do Norte e do Nordeste, enquanto a Região Sul pode enfrentar precipitações mais frequentes e volumosas.
Seca e excesso de chuva ameaçam produção e logística
Nas regiões Centro-Norte, a combinação de deficiência hídrica e temperaturas elevadas pode prejudicar o desenvolvimento das culturas e reduzir o potencial produtivo. No Sul, o excesso de umidade aumenta o risco de encharcamento do solo, ocorrência de doenças e dificuldades para a entrada de máquinas nas lavouras.
Chuvas persistentes também podem atrasar a colheita e o transporte da produção. Para as agroindústrias, isso significa receber menos matéria-prima, enfrentar entregas fora do prazo ou buscar produtos em regiões mais distantes, geralmente com custos logísticos superiores.
“O choque começa na produção, mas não termina no campo. Se uma agroindústria recebe menos matéria-prima, recebe mais tarde ou precisa buscar produto em outra região, isso muda o fluxo financeiro da operação”, afirma Priscila de Freitas, diretora de crédito da Multiplike.
Segundo a executiva, o principal desafio será garantir recursos suficientes para enfrentar alterações no abastecimento sem comprometer pagamentos a fornecedores, formação de estoques e contratos já assumidos.
Capital de giro pode sofrer maior pressão na safra 2026/27
A possibilidade de adversidades climáticas ocorre em um momento de maior fragilidade financeira na cadeia do agronegócio. O avanço do endividamento, das renegociações e dos pedidos de recuperação judicial entre produtores tem levado as instituições financeiras a reforçar os critérios para a concessão de crédito.
Nesse ambiente, uma eventual redução da safra pode intensificar os desequilíbrios financeiros. Compradoras, armazenadoras, processadoras e distribuidoras precisam manter pagamentos e despesas operacionais mesmo quando o recebimento da matéria-prima ocorre em menor volume ou fora do período planejado.
Esse movimento pode criar um descasamento entre a chegada dos produtos, a geração de receitas e o vencimento das obrigações. Quanto maior o atraso na comercialização ou no processamento, maior tende a ser a necessidade de capital de giro.
Planejamento financeiro ganha importância diante do risco climático
Para as agroindústrias, a preparação deve considerar diferentes cenários de oferta, preços e prazos de entrega. A estratégia financeira precisa avaliar não apenas o volume previsto de compras e processamento, mas também os efeitos de uma matéria-prima mais cara, escassa ou entregue com atraso.
“Esperar o impacto aparecer no estoque ou no recebível para buscar capital reduz a margem de reação da empresa. Com um El Niño forte atravessando a formação da safra, a agroindústria precisa projetar o que acontece com seu caixa caso a matéria-prima chegue em menor volume, mais tarde ou a um custo diferente do esperado”, explica Priscila.
A antecipação pode ajudar as empresas a negociar contratos, diversificar fornecedores, reorganizar estoques e buscar recursos antes que os efeitos climáticos atinjam diretamente suas operações.
Crédito estruturado pode apoiar gestão dos riscos
Nesse cenário, operações de crédito estruturado aparecem como alternativa para financiar o capital de giro e reduzir os efeitos de possíveis interrupções no abastecimento.
As garantias podem reunir imóveis, estoques, recebíveis, contratos de venda e outros ativos. A composição permite distribuir o risco entre diferentes fontes de pagamento e adequar a operação financeira à realidade de cada empresa.
A Multiplike informou que dispõe de R$ 6 bilhões para operações de crédito estruturado destinadas às agroindústrias em 2026. Os recursos podem apoiar empresas que precisem reforçar o caixa, financiar estoques ou reorganizar compromissos diante das incertezas da safra 2026/27.
Com a possibilidade de impactos climáticos distintos entre as regiões brasileiras, a disponibilidade de capital e o planejamento antecipado tornam-se instrumentos importantes para evitar que os problemas iniciados nas lavouras comprometam o funcionamento de toda a cadeia agroindustrial.
Fonte: Portal do Agronegócio
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