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Análise de Mercado

Soja e milho ganham suporte da demanda, mas clima e concorrência argentina elevam volatilidade

Hedgepoint projeta safra brasileira de soja em 181,7 milhões de toneladas e produção de milho em 140,3 milhões; exportações, biocombustíveis e incertezas climáticas devem direcionar os preços


Publicado em: 08/09/2026 às 20:00hs

Soja e milho ganham suporte da demanda, mas clima e concorrência argentina elevam volatilidade

Os mercados de soja e milho atravessam o segundo semestre em um período decisivo para a formação dos preços. Enquanto os Estados Unidos avançam na colheita, o Brasil se prepara para o plantio da safra 2026/27 sob margens mais apertadas, custos elevados e riscos climáticos associados ao El Niño.

Apesar das incertezas sobre a oferta, o consumo segue oferecendo sustentação às cotações. A demanda internacional por soja, o crescimento do esmagamento e a expansão do etanol de milho no Brasil ajudam a absorver parte relevante da produção. Ao mesmo tempo, a maior presença da Argentina no comércio mundial amplia a concorrência enfrentada pelos exportadores brasileiros.

Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, o cenário combina fundamentos capazes de limitar quedas mais expressivas nos preços com riscos climáticos, cambiais e geopolíticos que devem manter a volatilidade elevada.

Safra brasileira de soja pode alcançar 181,7 milhões de toneladas

A primeira projeção da Hedgepoint para a produção brasileira de soja em 2026/27 aponta para 181,7 milhões de toneladas, volume próximo ao registrado na temporada anterior.

A estimativa considera área plantada de aproximadamente 49,2 milhões de hectares e produtividade média de 3,69 toneladas por hectare. O avanço previsto para a área é de apenas 0,9%, abaixo do crescimento próximo de 3% considerado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

O ritmo mais moderado de expansão reflete a redução da rentabilidade no campo. A combinação entre preços menos atrativos, custos de produção elevados e fertilizantes mais caros tende a limitar investimentos em tecnologia e insumos, aumentando a dependência das condições climáticas para alcançar o potencial produtivo.

Os dados históricos apresentados pela Hedgepoint mostram que a área brasileira de soja avançou de 33,9 milhões para 49,2 milhões de hectares ao longo das últimas safras. A produtividade, entretanto, apresentou maior oscilação, evidenciando o peso do clima sobre o resultado final da produção.

El Niño aumenta incerteza sobre produtividade da soja

A projeção de 181,7 milhões de toneladas ainda não incorpora possíveis perdas provocadas pelo El Niño. As previsões indicam condições inicialmente favoráveis ao plantio em setembro e outubro, mas apontam risco de redução das chuvas no Centro-Norte a partir de novembro, enquanto o Sul poderá enfrentar umidade mais elevada.

Esse padrão climático pode permitir um começo satisfatório da semeadura e, posteriormente, impor dificuldades durante etapas importantes do desenvolvimento das lavouras.

“A soja brasileira entra no novo ciclo com uma perspectiva de crescimento muito mais moderado da oferta. O principal ponto de atenção não é apenas a área, mas a combinação entre margens comprimidas e risco climático associado ao El Niño”, afirma Luiz Fernando G. Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.

Segundo o analista, uma temporada com clima dentro da normalidade pode resultar em produção próxima de 181 milhões a 182 milhões de toneladas. Problemas mais severos no Centro-Norte, porém, abririam espaço para uma safra menor e uma reação dos preços e dos prêmios de exportação.

Exportações brasileiras de soja podem atingir novo recorde

Enquanto a próxima safra começa a ser desenhada, as exportações brasileiras de soja permanecem aquecidas. Os embarques da temporada 2025/26 são estimados em aproximadamente 114 milhões de toneladas, cerca de 6 milhões acima do recorde anterior, de 108 milhões.

Os prêmios de exportação também encontram sustentação na demanda internacional, no consumo doméstico e na menor disponibilidade de soja antes da entrada da nova colheita.

Nos Estados Unidos, a produtividade continua no centro das atenções. O USDA estima uma produção próxima de 123 milhões de toneladas, enquanto a Pro Farmer trabalha com 124,4 milhões. Na penúltima semana de agosto, 60% das lavouras norte-americanas estavam classificadas em condições boas ou excelentes, abaixo dos 69% registrados um ano antes.

Mesmo diante das incertezas produtivas, a demanda norte-americana permanece firme. O crescimento do esmagamento, impulsionado pelo biodiesel e pelo diesel renovável, soma-se à retomada das compras chinesas. As vendas antecipadas alcançaram aproximadamente 11,5 milhões de toneladas para entrega a partir de setembro.

Com a relação entre estoques e consumo próxima de 7%, eventuais perdas de produtividade nos Estados Unidos ou no Brasil podem provocar movimentos mais intensos nas cotações internacionais.

Brasil deve produzir 140,3 milhões de toneladas de milho

Para o milho, a Hedgepoint projeta produção brasileira de 140,3 milhões de toneladas na temporada 2025/26. Desse total, aproximadamente 100,7 milhões de toneladas deverão ser destinadas ao mercado doméstico, enquanto as exportações são estimadas em 41 milhões.

Os estoques finais aparecem projetados em 12,8 milhões de toneladas. Embora a oferta permaneça elevada, o crescimento do consumo interno reduz a dependência das exportações para equilibrar o mercado.

A principal transformação ocorre na indústria de biocombustíveis. O consumo de milho destinado à produção de etanol deve avançar de 23 milhões para aproximadamente 28,5 milhões de toneladas. No mesmo período, a fabricação de grãos secos de destilaria, conhecidos como DDG, pode aumentar de 5,5 milhões para 6,8 milhões de toneladas.

O DDG é um coproduto utilizado principalmente na alimentação animal, permitindo que a expansão do etanol também amplie a oferta de ingredientes para rações.

Etanol de milho amplia disputa pelo cereal no mercado interno

O Brasil conta com 29 usinas de etanol de milho em operação e outros 27 projetos em desenvolvimento. A ampliação dessa capacidade industrial fortalece a demanda doméstica e tende a aumentar a concorrência pelo cereal, especialmente nas regiões próximas às plantas de processamento.

A adoção da mistura E32, com 32% de etanol na gasolina, também contribui para elevar o consumo do biocombustível e pode levar a utilização de milho pela indústria para perto de 29 milhões de toneladas.

Esse movimento ajuda a compensar uma eventual perda de competitividade do milho brasileiro no exterior. Além de criar uma nova fonte de demanda, as usinas podem reduzir custos logísticos em regiões distantes dos portos e oferecer alternativas de comercialização aos produtores.

Exportações de milho enfrentam maior concorrência da Argentina

Os embarques brasileiros de milho são estimados em 41 milhões de toneladas, mantendo-se praticamente estáveis em relação à temporada anterior. O potencial de crescimento, entretanto, encontra limites na expansão da oferta argentina e na possível redução das compras realizadas pelo Irã.

O país asiático importou aproximadamente 9 milhões de toneladas de milho brasileiro em 2025. Entre janeiro e julho de 2026, porém, as aquisições estavam cerca de 1 milhão de toneladas abaixo do ritmo observado no mesmo intervalo do ano anterior.

Na Argentina, o USDA estima uma safra de 63 milhões de toneladas, enquanto projeções locais chegam perto de 70 milhões. Com a recuperação da produção, as exportações argentinas podem saltar de 29 milhões para aproximadamente 45 milhões de toneladas, superando o volume previsto para o Brasil.

A proximidade dos portos argentinos com importantes regiões produtoras e a elevada disponibilidade exportável podem aumentar a competitividade do país nos principais mercados importadores.

Safra de milho dos Estados Unidos pode sofrer revisão

Nos Estados Unidos, a estimativa oficial do USDA aponta para uma produção de aproximadamente 407 milhões de toneladas de milho. A Pro Farmer, entretanto, projeta volume mais baixo, próximo de 390 milhões.

A diferença entre as estimativas mantém o mercado atento às condições das lavouras. Na penúltima semana de agosto, apenas 57% das plantações estavam avaliadas como boas ou excelentes, contra 71% no mesmo período do ano passado.

Uma eventual revisão negativa da produtividade pode reduzir a pressão exercida pela grande safra norte-americana. Paralelamente, as exportações dos Estados Unidos podem alcançar cerca de 83 milhões de toneladas, fazendo a relação entre estoques e consumo recuar de aproximadamente 12% para 10%.

Quebra na União Europeia pode abrir oportunidades

Na União Europeia, ondas de calor reduziram a projeção da produção de milho de cerca de 57 milhões para 50 milhões de toneladas. A menor colheita deverá aumentar a necessidade de importação do bloco.

O movimento ocorre em um período de redução da capacidade exportadora da Ucrânia, tradicional fornecedora do mercado europeu. Esse ambiente pode criar oportunidades comerciais para Estados Unidos, Brasil e Argentina.

Para o milho brasileiro, contudo, o potencial de expansão dos embarques dependerá da competitividade dos preços, dos custos logísticos, do câmbio e da intensidade da oferta argentina.

Gestão de riscos será decisiva na comercialização

Além dos fundamentos de oferta e demanda, soja e milho continuarão expostos às relações comerciais entre Estados Unidos e China, aos conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro, às oscilações do petróleo, ao comportamento do dólar e à evolução do El Niño.

Diante desse cenário, a Hedgepoint destaca a importância de uma estratégia de gestão de riscos que considere separadamente os principais componentes dos preços: as cotações na Bolsa de Chicago, o câmbio e os prêmios nos portos.

Essa divisão permite que produtores e empresas aproveitem diferentes oportunidades de proteção e comercialização, sem depender de um único momento para negociar toda a produção.

“A principal mensagem é que a demanda atualmente oferece um suporte mais consistente aos preços do que a oferta oferece pressão. Em síntese, o mercado entra no segundo semestre com fundamentos suficientemente fortes para sustentar preços, mas também com riscos suficientes para impedir uma leitura excessivamente otimista”, conclui Roque.

Fonte: Portal do Agronegócio

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