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Clima

El Niño pode ser o mais forte já registrado e ameaça safra brasileira em 2026/27

NOAA aponta 95% de probabilidade de evento muito forte no último trimestre de 2026; excesso de chuva no Sul, estiagem no Norte e veranicos no Centro-Oeste elevam riscos para soja, milho, trigo, café e outras culturas


Publicado em: 28/08/2026 às 10:30hs

El Niño pode ser o mais forte já registrado e ameaça safra brasileira em 2026/27

O El Niño em curso no Oceano Pacífico pode atingir intensidade histórica nos últimos meses de 2026 e provocar impactos relevantes sobre o clima, a agricultura e a logística brasileira durante a safra 2026/27.

Dados divulgados em agosto pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e pelo Centro de Previsão Climática (CPC) indicam 95% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre outubro e dezembro.

Dentro desse cenário, existe uma chance estimada em 69% de o Índice Relativo do Niño Oceânico (RONI) atingir ou superar 2,5 °C no trimestre. Caso essa projeção se confirme, o episódio poderá exceder a intensidade relativa de todos os eventos registrados desde 1950.

A previsão, contudo, não significa que os efeitos ocorrerão com a mesma intensidade em todas as regiões. A própria NOAA ressalta que um El Niño forte aumenta a probabilidade dos padrões climáticos associados ao fenômeno, mas não determina isoladamente o volume de chuva ou a temperatura em cada localidade.

El Niño deve continuar até o primeiro trimestre de 2027

O Painel ENOS 2026 mostra probabilidade de 100% de permanência do El Niño até o trimestre entre janeiro e março de 2027. Para fevereiro a abril, a chance recua para 97%, enquanto, entre março e maio, permanece elevada, em 82%.

Em julho de 2026, a anomalia mensal de temperatura na região Niño 3.4 estava em 1,4 °C. Na área Niño 1+2, próxima à costa da América do Sul, o desvio atingia 2,9 °C.

Também foram identificadas anomalias de até 10 °C nas águas abaixo da superfície do Pacífico. Esse grande reservatório de calor favorece a intensificação do fenômeno ao longo da primavera e no início do verão no Hemisfério Sul.

Outros sinais atmosféricos confirmam o acoplamento entre o oceano e a atmosfera, condição necessária para a consolidação do El Niño. Entre eles estão a redução acentuada do Índice de Oscilação Sul, a supressão de chuvas sobre a Indonésia e o aprofundamento da termoclina no Pacífico Leste.

Efeitos do El Niño já aparecem no Brasil

Os primeiros sinais do padrão climático associado ao El Niño foram observados no Brasil em julho, antes mesmo do pico previsto para o fenômeno.

No Rio Grande do Sul, diferentes áreas registraram acumulados entre 200 e 300 milímetros em apenas uma semana. Em algumas cidades, foram necessários cinco dias para que o volume de chuva superasse a média histórica de todo o mês.

A sequência de instabilidades iniciada na segunda quinzena de julho provocou cheias, inundações, vendavais e episódios de granizo. Mais de 200 municípios gaúchos registraram danos associados aos temporais.

Antes da chegada das chuvas, Porto Alegre alcançou 33,8 °C em 18 de julho, a maior temperatura registrada para o mês desde o início das medições, em 1910. Em partes do Rio Grande do Sul, as máximas ficaram até 15 °C acima da média.

Enquanto o Sul enfrentou excesso de precipitação, o Centro-Oeste e o Sudeste registraram escassez de chuva e temperaturas elevadas. Na Amazônia, o início da vazante do Rio Negro aumentou a preocupação com uma possível estiagem severa no segundo semestre.

Essa combinação — chuvas intensas no Sul, seca na Amazônia e no interior do País, além de calor acima da média — corresponde ao padrão mais frequentemente relacionado ao El Niño no território brasileiro.

Sul enfrenta risco de enchentes e perdas agrícolas

A Região Sul está entre as áreas mais expostas aos efeitos do fenômeno na safra 2026/27. A previsão de precipitações acima da média durante a primavera e o início do verão aumenta o risco de enchentes, encharcamento do solo e incidência de doenças fúngicas.

O excesso de umidade também pode dificultar a semeadura da soja e comprometer a colheita das culturas de inverno, especialmente trigo, cevada e aveia.

No Rio Grande do Sul, a colheita do trigo entre setembro e novembro deverá coincidir com o período de intensificação das chuvas. O cenário eleva o risco de perda de qualidade, redução do peso hectolítrico e germinação dos grãos ainda na espiga.

Arroz e soja também poderão ser afetados por atrasos nas operações, compactação do solo e menor disponibilidade de janelas adequadas para plantio, pulverização e colheita.

Veranicos ameaçam soja e milho no Centro-Oeste

No Centro-Oeste, a principal preocupação é a distribuição irregular das chuvas entre setembro e dezembro. Mesmo com volumes acumulados próximos da média, períodos prolongados sem precipitação podem prejudicar a instalação das lavouras.

Os veranicos poderão atrasar ou interromper a semeadura da soja em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Uma implantação mais tardia tende a reduzir a janela disponível para o milho segunda safra de 2027.

Esse efeito em cadeia pode elevar o risco de o milho atravessar fases críticas de desenvolvimento fora do período ideal, ficando mais exposto à redução das chuvas no final do ciclo.

Pastagens e lavouras de algodão também exigirão atenção diante da possibilidade de calor intenso e irregularidade hídrica.

Estiagem pode prejudicar Norte e Nordeste

Na Região Norte, o El Niño costuma reduzir as chuvas e favorecer estiagens prolongadas. O cenário pode provocar queda no nível dos rios amazônicos e comprometer o transporte de cargas e insumos.

Uma vazante acentuada representa risco para a logística de grãos pelo Arco Norte, especialmente nos corredores ligados a Santarém, Barcarena e demais terminais dependentes da navegação fluvial.

O Serviço Geológico do Brasil acompanha a descida do Rio Negro em Manaus. As projeções disponíveis no painel indicam possibilidade de uma das maiores vazantes da série histórica, com o pico da estiagem esperado para outubro.

No Nordeste, o principal risco está concentrado no Semiárido. A redução da precipitação pode afetar as lavouras de milho e feijão de sequeiro, além de aumentar a pressão sobre reservatórios, abastecimento de água e geração hidrelétrica.

Soja pode ter plantio atrasado na safra 2026/27

Depois de uma produção recorde de 180,1 milhões de toneladas em 2025/26, a soja brasileira entra no novo ciclo com perspectivas de crescimento de área e produção. O desempenho, entretanto, dependerá da distribuição das chuvas.

No Sul, o excesso de umidade e a saturação do solo podem atrasar a entrada das máquinas. No Centro-Oeste, a irregularidade das precipitações poderá dificultar o início e a continuidade da semeadura.

Outro risco está concentrado entre janeiro e fevereiro de 2027. Chuvas excessivas durante a colheita podem provocar perdas de qualidade, elevar a umidade dos grãos e atrasar o plantio do milho safrinha.

Trigo é uma das culturas mais vulneráveis ao El Niño

O trigo aparece entre as culturas brasileiras com maior exposição imediata. A redução da área cultivada no Sul e as condições climáticas adversas já levaram a estimativas menores para a produção nacional.

A concentração das chuvas durante a colheita gaúcha poderá ampliar as perdas e comprometer a qualidade industrial do cereal. Com estoques mais ajustados, uma quebra adicional tende a sustentar os preços internos e aumentar os custos de aquisição para os moinhos.

O impacto final dependerá da frequência e da intensidade das chuvas, especialmente no Rio Grande do Sul e no Paraná.

Café, cana-de-açúcar e laranja exigem atenção

No Sudeste, o El Niño pode favorecer temperaturas acima da média e chuvas irregulares, sobretudo no norte de Minas Gerais e no Espírito Santo.

O café arábica entra no período de florada entre setembro e outubro. Calor intenso e deficiência hídrica nessa fase podem reduzir o pegamento das flores e limitar o potencial produtivo da próxima safra.

Na cana-de-açúcar, temperaturas elevadas e menor disponibilidade de água poderão antecipar o encerramento da moagem em algumas áreas do Centro-Sul. A combinação também pode reduzir o desenvolvimento dos canaviais destinados ao próximo ciclo.

O cinturão citrícola de São Paulo enfrenta risco de estresse térmico e precipitações mal distribuídas. A intensidade dos efeitos sobre a laranja dependerá da duração dos períodos secos e da disponibilidade de irrigação.

El Niño já influencia preços de algumas commodities

O mercado internacional vem precificando o risco climático de forma seletiva. As maiores reações aparecem em produtos tropicais cuja produção está concentrada em poucas regiões.

O cacau está entre as commodities mais sensíveis. Costa do Marfim e Gana, responsáveis por grande parte da oferta mundial, podem enfrentar chuvas irregulares, calor e intensificação dos ventos secos do Harmattan.

O óleo de palma também apresenta prêmio nos contratos com vencimento em 2027 diante da possibilidade de seca na Indonésia e na Malásia. Juntos, os dois países respondem por aproximadamente 85% da produção mundial.

Nos mercados de café, o risco climático começa a ganhar espaço. O robusta pode ser afetado pela seca no Sudeste Asiático, enquanto o arábica enfrenta incertezas relacionadas à florada brasileira.

Milho, soja e trigo negociados em Chicago ainda não apresentam um prêmio climático claro associado ao El Niño. A oferta elevada nas Américas e outros fatores, como o cenário no Mar Negro e o mercado de biocombustíveis, continuam exercendo influência maior sobre as cotações.

Monitoramento será decisivo para o planejamento da safra

A janela de maior impacto do El Niño deverá se estender de setembro de 2026 a março de 2027, período que abrange o plantio, o desenvolvimento e parte da colheita das principais culturas de verão do Brasil.

Produtores precisarão acompanhar as previsões de curto prazo, o armazenamento de água no solo e as condições específicas de cada região. Ajustes na época de semeadura, escolha de cultivares, manejo de doenças e contratação de seguro rural poderão reduzir a exposição às perdas.

Apesar da possibilidade de um evento excepcionalmente intenso, o El Niño não produz efeitos idênticos em todos os anos. A temperatura do Atlântico, os bloqueios atmosféricos e outros sistemas meteorológicos podem ampliar ou reduzir seus impactos sobre o Brasil.

O próximo boletim da NOAA e do CPC está previsto para 10 de setembro e deverá atualizar as projeções de intensidade, duração e evolução do fenômeno.

Fonte: Portal do Agronegócio

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