Publicidade
Análise de Mercado

Geopolítica, demanda da Ásia e gestão de riscos redefinem estratégias do agronegócio brasileiro

Disputa entre Estados Unidos e China, avanço do protecionismo, dependência de insumos e eventos climáticos exigem novas estratégias de produtores e cooperativas


Publicado em: 28/08/2026 às 11:35hs

Geopolítica, demanda da Ásia e gestão de riscos redefinem estratégias do agronegócio brasileiro
Foto: Júlia Duda

A reconfiguração do comércio internacional, a crescente disputa entre Estados Unidos e China e a concentração das exportações agropecuárias no mercado asiático estão transformando o ambiente de negócios do agronegócio brasileiro. Nesse cenário, a gestão integrada de riscos torna-se indispensável para sustentar os planos de expansão de produtores rurais e cooperativas.

O tema marcou o encerramento do Workshop do Comitê Consultivo do Planejamento Estratégico do Cooperativismo Paranaense (PRC300), realizado na quarta-feira (26/08). O encontro contou com a participação de Marcos Sawaya Jank, professor sênior do Insper e coordenador do Núcleo Insper Agro Global.

Durante a apresentação, o especialista analisou as transformações da geopolítica mundial no século XXI e seus efeitos sobre o comércio de alimentos, energia e insumos agrícolas.

Comércio mundial entra em fase de fragmentação

A economia internacional passou por mudanças estruturais desde o fim da Guerra Fria. As décadas de 1990 e 2000 foram marcadas pela expansão da internet, pelo ingresso da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) e pelo fortalecimento do livre-comércio multilateral.

Esse movimento perdeu força diante do avanço do protecionismo, do retorno de tarifas e cotas de importação e da disputa por áreas estratégicas de influência. A fragmentação econômica aumentou a necessidade de países e empresas diversificarem mercados, fornecedores e rotas logísticas.

Segundo Jank, a interdependência comercial vem cedendo espaço a políticas voltadas à segurança econômica e alimentar. Os países importadores passaram a tratar a disponibilidade de alimentos e insumos como uma questão de segurança de Estado.

Rotas marítimas ampliam riscos para o agronegócio

As tensões em importantes corredores de navegação acrescentam incertezas ao comércio internacional. Entre os pontos estratégicos estão os estreitos de Ormuz, Bab-el-Mandeb e Taiwan, além do Canal de Suez.

Qualquer interrupção nessas rotas pode elevar os custos de frete, aumentar o tempo das viagens e comprometer o abastecimento de combustíveis, fertilizantes e outros insumos utilizados pela agropecuária.

Para o Brasil, o risco é duplo. O país depende das exportações de produtos agropecuários para gerar receitas, mas também precisa importar grande parte dos fertilizantes, defensivos e combustíveis empregados no campo.

Agronegócio lidera exportações brasileiras

O Brasil mantém posição relevante no fornecimento mundial de alimentos e energia, sustentado pela elevada produtividade da agricultura tropical e pela capacidade de produzir mais de uma safra na mesma área.

De acordo com os dados apresentados por Jank, as commodities representam a maior parcela dos US$ 260 bilhões exportados pelo país. O agronegócio responde por 50% desse total, enquanto energia e petróleo participam com 16% e a mineração, com 12%.

Essa competitividade está relacionada à adoção de tecnologias e sistemas produtivos adaptados às condições tropicais, como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e segunda safra de milho.

A produção de biocombustíveis também amplia a relevância brasileira na transição energética. O país possui cadeias consolidadas de etanol de cana-de-açúcar, etanol de milho e biodiesel, além do avanço do biometano.

Mercado asiático concentra demanda por produtos brasileiros

A Ásia ocupa posição central na estratégia comercial do agronegócio brasileiro. A região tornou-se o principal destino de grãos, carnes, açúcar, café, celulose e outros produtos produzidos no país.

O Brasil exporta aproximadamente 45% das calorias que produz, percentual significativamente superior à média mundial, estimada em 20%. O indicador demonstra a importância do país para a segurança alimentar global, mas também evidencia sua exposição às decisões econômicas e políticas dos grandes mercados compradores.

Esse quadro exige uma estratégia capaz de preservar a presença brasileira na Ásia, ao mesmo tempo que amplia a diversificação de destinos e reduz a dependência de poucos parceiros.

China investe para reduzir dependência de alimentos importados

A China tem adotado medidas para elevar sua capacidade produtiva e diminuir a exposição ao mercado internacional. Entre as prioridades estão os investimentos em biotecnologia, irrigação, mecanização e automação agrícola.

O país asiático, entretanto, enfrenta limitações importantes, como escassez de água, disponibilidade restrita de terras agricultáveis e envelhecimento da população rural.

Esses fatores tendem a manter a necessidade chinesa de importar alimentos e matérias-primas. Para o Brasil, a demanda abre oportunidades comerciais, mas também reforça a necessidade de acompanhar as políticas de autossuficiência e diversificação de fornecedores adotadas por Pequim.

Dependência de fertilizantes aumenta vulnerabilidade

Apesar de sua força como exportador, o agronegócio brasileiro apresenta fragilidades estruturais. Uma das principais é a dependência externa de fertilizantes.

O país importa entre 85% e 90% dos nutrientes utilizados nas lavouras, incluindo fontes de nitrogênio, fósforo e potássio. Também existe dependência relevante de defensivos agrícolas e combustíveis.

Conflitos internacionais, sanções econômicas, restrições comerciais e problemas nas rotas marítimas podem afetar a disponibilidade desses produtos e elevar os custos de produção.

Outro gargalo está na armazenagem. O déficit na capacidade estática obriga parte dos produtores a comercializar a safra em momentos desfavoráveis ou manter os grãos em estruturas provisórias, ampliando riscos e despesas logísticas.

Juros, câmbio e queda das commodities pressionam o produtor

O ambiente econômico brasileiro acrescenta desafios à atividade rural. Taxas de juros elevadas, oscilações cambiais, carga tributária e inflação dos custos reduzem as margens e dificultam o financiamento da produção.

Ao mesmo tempo, os preços internacionais de grãos e carnes recuaram em relação aos níveis observados em 2022. A combinação entre menor receita e despesas elevadas vem comprometendo o fluxo de caixa de produtores e empresas.

O resultado aparece no crescimento dos pedidos de recuperação judicial e na procura por renegociação de dívidas no setor agropecuário. Esse quadro reforça a importância de controles financeiros, proteção de preços e planejamento adequado do endividamento.

El Niño amplia incertezas para as safras

Os eventos climáticos extremos completam o conjunto de riscos enfrentados pelo agronegócio. Fenômenos como o El Niño podem alterar a distribuição das chuvas, elevar as temperaturas e afetar o rendimento das lavouras.

Os impactos variam conforme a cultura e a região, mas podem provocar perdas de produtividade, atrasos no plantio e na colheita, aumento da incidência de pragas e doenças e dificuldades logísticas.

Diante da maior instabilidade climática, seguro rural, zoneamento, diversificação produtiva e investimentos em irrigação e conservação do solo ganham relevância estratégica.

Gestão integrada de riscos será decisiva para cooperativas

Na avaliação de Marcos Jank, o novo cenário exige políticas públicas de médio e longo prazo voltadas ao seguro rural, à agregação de valor e à internacionalização da bioenergia brasileira.

Para produtores e cooperativas, a resposta deve envolver uma administração integrada dos riscos de produção, mercado, segurança jurídica e gestão financeira.

Essa estratégia inclui diversificar compradores e fornecedores, proteger preços e margens, controlar o endividamento, investir em armazenagem e elevar o valor agregado dos produtos.

Em um ambiente internacional mais fragmentado e sujeito a disputas geopolíticas, a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá não apenas da produtividade no campo, mas também da capacidade de antecipar ameaças, reduzir vulnerabilidades e aproveitar as oportunidades abertas pela demanda mundial por alimentos e energia renovável.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias