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Clima

Aquecimento global acima de 1,5°C pode causar perdas superiores a 2% do PIB mundial

Relatório do PNUMA aponta que a ultrapassagem do limite climático tornou-se inevitável; especialistas defendem descarbonização imediata e adaptação da agricultura, das cidades e da infraestrutura


Publicado em: 04/09/2026 às 10:35hs

Aquecimento global acima de 1,5°C pode causar perdas superiores a 2% do PIB mundial

O avanço do aquecimento global para uma faixa entre 1,5°C e 1,7°C poderá provocar perdas econômicas superiores a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Os prejuízos devem atingir setores estratégicos, como agricultura, infraestrutura, energia e saúde, ampliando a pressão sobre governos, empresas e populações vulneráveis.

O alerta foi apresentado pelo economista Sergio Margulis, especialista sênior do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor de Economia da Sustentabilidade da PUC-Rio, durante mesa-redonda promovida pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), nesta quarta-feira (2).

O encontro discutiu o novo relatório especial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre o chamado overshoot, termo utilizado para descrever a ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C de aquecimento estabelecido pelo Acordo de Paris.

Ultrapassagem de 1,5°C é considerada inevitável

De acordo com o relatório analisado pelos especialistas, o planeta deverá superar temporariamente a marca de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. A extensão e a duração dessa ultrapassagem serão decisivas para determinar a intensidade dos impactos econômicos, sociais e ambientais.

Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), ligado à Organização Meteorológica Mundial (OMM), explicou que, quanto mais elevada e prolongada for a temperatura acima desse limite, maiores serão os danos e a necessidade de retirar dióxido de carbono da atmosfera.

A cientista ressaltou que as novas gerações deverão conviver com temperaturas superiores a 1,5°C e, posteriormente, com um processo lento e incerto de redução do aquecimento.

Orçamento de carbono pode acabar em três ou quatro anos

Segundo Thelma Krug, a temperatura média global já está aproximadamente 1,37°C acima dos níveis pré-industriais. O avanço ocorre a um ritmo estimado de 0,26°C por década.

O orçamento de carbono restante para manter alguma possibilidade de limitar o aquecimento a 1,5°C seria de cerca de 130 bilhões de toneladas de dióxido de carbono a partir de 2026.

O volume é reduzido diante do atual ritmo de emissões. Em 2024, as atividades industriais e o uso de combustíveis fósseis lançaram aproximadamente 40 bilhões de toneladas de CO₂ na atmosfera. Mantido esse patamar, o orçamento disponível poderia ser consumido dentro de três ou quatro anos.

Mudanças climáticas ameaçam agricultura, saúde e energia

As perdas provocadas pelo aquecimento global já são observadas em diferentes regiões do planeta. Quebras de safra, danos à infraestrutura, maior demanda por energia, disseminação de doenças e impactos sobre a disponibilidade de água estão entre os principais efeitos econômicos associados às mudanças climáticas.

Na agricultura, o aumento das temperaturas e a maior frequência de eventos extremos podem reduzir a produtividade das lavouras, elevar os custos de produção e ampliar a instabilidade dos preços dos alimentos.

Secas prolongadas, ondas de calor, enchentes e chuvas concentradas também dificultam o planejamento da produção agropecuária, pressionando sistemas de irrigação, seguro rural, armazenamento e logística.

Descarbonização exigirá investimentos trilionários

Para evitar que os custos climáticos cresçam ainda mais, Sergio Margulis defendeu a aceleração dos investimentos em descarbonização. O economista observou que os recursos atualmente destinados à transição para uma economia de baixo carbono já representam parcela relevante do PIB mundial, mas ainda são insuficientes.

A estimativa apresentada no encontro indica a necessidade de investimentos próximos de US$ 5 trilhões por ano. Os recursos deverão ser direcionados à expansão das energias renováveis, eficiência energética, eletrificação, proteção de ecossistemas e redução do uso de combustíveis fósseis.

Adiar essas medidas tende a elevar a conta global. Além das perdas diretamente provocadas pelos eventos climáticos, os países precisarão destinar volumes crescentes de recursos à reconstrução de áreas atingidas e à adaptação de cidades, sistemas produtivos e serviços públicos.

Economia mundial ainda depende dos combustíveis fósseis

Apesar do crescimento dos investimentos em fontes renováveis, a expansão da economia global permanece fortemente ligada ao petróleo, ao carvão e ao gás natural. Essa dependência impede que as emissões diminuam na velocidade necessária para conter o aumento da temperatura.

Na avaliação de Margulis, o relatório do PNUMA representa um novo alerta para governos e empresas. O cenário exige uma redução rápida e consistente das emissões, acompanhada pela preparação dos territórios para impactos que já não podem ser totalmente evitados.

Brasil precisa acelerar adaptação aos eventos extremos

Os especialistas destacaram que países mais vulneráveis não podem esperar uma eventual reversão do aquecimento para começar a agir. O Brasil já convive com sinais concretos da emergência climática, exemplificados pelas enchentes no Rio Grande do Sul e por períodos severos de seca em outras regiões.

A adaptação deverá considerar as particularidades de cada território. No Sul, as projeções indicam maior ocorrência de chuvas intensas e episódios de inundação. Na Amazônia e no semiárido, o risco está relacionado principalmente à redução das chuvas, ao prolongamento das estiagens e ao aumento das ondas de calor.

Essas diferenças exigem políticas regionais para a agricultura, a saúde, o abastecimento de água, a construção civil, a geração de energia e o planejamento urbano.

Agricultura deverá incorporar novos cenários climáticos

A produção agropecuária está entre as atividades que mais precisarão antecipar os efeitos de um planeta mais quente. O planejamento baseado apenas nos eventos já registrados pode não ser suficiente diante da possibilidade de extremos mais intensos e frequentes.

Será necessário atualizar calendários agrícolas, desenvolver cultivares mais resistentes, ampliar sistemas de irrigação eficientes e investir na conservação do solo e da água. A diversificação produtiva e o uso de informações meteorológicas também terão papel crescente na redução dos riscos.

A adaptação, porém, não substitui a mitigação. Mesmo que produtores, cidades e empresas se preparem para os impactos, somente a redução das emissões poderá interromper o avanço físico do aquecimento global.

Elevação do nível do mar continuará por décadas

As cidades costeiras enfrentarão um desafio adicional. Mesmo que a temperatura global seja reduzida após o período de overshoot, o nível dos oceanos continuará aumentando por décadas ou séculos devido à lenta resposta do sistema climático.

No Sul e no Sudeste do Brasil, a combinação entre elevação do nível do mar, chuvas intensas e marés meteorológicas poderá ampliar o risco de alagamentos e inundações em áreas densamente ocupadas.

Por isso, obras de infraestrutura, projetos habitacionais e sistemas de drenagem precisarão incorporar diferentes cenários futuros de aquecimento, em vez de considerar somente o histórico climático.

Acordo de Paris continua sendo referência mundial

A provável ultrapassagem temporária de 1,5°C não significa o abandono das metas do Acordo de Paris. Segundo os especialistas, o objetivo permanece essencial para impedir que o aquecimento alcance níveis ainda mais elevados e permaneça acima do limite por um período prolongado.

A prioridade será atingir emissões líquidas zero de CO₂, limitar a intensidade do overshoot e criar condições para uma redução gradual da temperatura no futuro.

Quanto mais cedo as emissões forem controladas, menores serão as perdas econômicas, a necessidade de remoção de carbono e os custos de adaptação. O alerta do PNUMA reforça que descarbonizar a economia e preparar a sociedade precisam avançar simultaneamente — e com urgência.

Fonte: Portal do Agronegócio

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