Preço do trigo segue firme no Brasil apesar de forte queda em Chicago
Baixa disponibilidade da safra velha sustenta as cotações no Sul, enquanto problemas com giberela preocupam produtores e sinalização de paz no Mar Negro reduz o prêmio de risco internacional
Publicado em: 04/09/2026 às 11:20hs
O mercado de trigo apresenta movimentos distintos no Brasil e no exterior. Enquanto a oferta limitada da safra velha mantém os preços firmes no Sul do país, os contratos negociados na Bolsa de Chicago registraram forte queda após declarações do presidente russo, Vladimir Putin, sobre a possibilidade de um acordo de paz para a guerra na Ucrânia.
No mercado brasileiro, a baixa disponibilidade do cereal e a necessidade de recomposição dos estoques antes da chegada da nova colheita dão sustentação às cotações. No Rio Grande do Sul, porém, as condições climáticas já provocam preocupação com a qualidade das primeiras áreas que passaram pela fase de florescimento.
Pouca oferta mantém preço do trigo firme no Sul
A comercialização continua marcada por ofertas restritas no Rio Grande do Sul e no Paraná, segundo informações da TF Agroeconômica. Em Santa Catarina, os preços pagos aos produtores também apresentaram reajustes, embora o ritmo dos negócios permaneça lento.
A proximidade da nova safra não eliminou a necessidade de compras por parte dos moinhos. Com os estoques remanescentes concentrados e poucas cargas disponíveis no mercado, vendedores encontram espaço para defender valores mais elevados.
Trigo no Rio Grande do Sul chega a R$ 1.500 por tonelada
No Rio Grande do Sul, as negociações ocorreram entre R$ 1.450 e R$ 1.500 por tonelada FOB, dependendo da qualidade do cereal e da localização da mercadoria. Um lote de 3 mil toneladas foi comercializado pelo menor valor desse intervalo.
A estimativa é de que apenas 60 mil a 70 mil toneladas permaneçam disponíveis fora dos estoques já mantidos pelos moinhos. Como parte das indústrias ainda precisará adquirir matéria-prima antes da entrada da nova colheita, a oferta reduzida continua sustentando o mercado.
O trigo argentino colocado em Canoas apresenta custo próximo de R$ 1.586 por tonelada, referência que também ajuda a limitar quedas mais expressivas nos preços domésticos.
No segmento de exportação, ofertas ao redor de R$ 1.270 por tonelada para entrega em dezembro, com produto colocado no porto, não despertaram interesse dos vendedores. Com isso, as negociações externas permanecem praticamente paralisadas.
Giberela ameaça qualidade da nova safra gaúcha
Além da disponibilidade limitada, o mercado acompanha os primeiros sinais de problemas nas lavouras do Rio Grande do Sul. Áreas que floresceram após vários dias de elevada umidade apresentaram ocorrência de giberela.
A doença pode afetar a produtividade e comprometer a qualidade industrial do cereal. Também aumenta o risco de presença de desoxinivalenol, micotoxina conhecida como DON, nos grãos colhidos.
A dimensão efetiva das perdas dependerá da evolução do clima e das condições das lavouras nas próximas etapas do ciclo. Ainda assim, a ocorrência reforça a atenção sobre a qualidade da nova safra e pode influenciar a formação dos preços.
Mercado catarinense tem baixa liquidez
Em Santa Catarina, os negócios continuam lentos. Os moinhos aparecem relativamente abastecidos, enquanto o mercado de farinha enfrenta baixa comercialização e preços pressionados.
As referências para o trigo destinado à panificação variam entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada. Também houve registro de negociação de trigo branqueador a R$ 1.500 por tonelada FOB.
No mercado de balcão, as maiores cotações chegaram a R$ 77 por saca em Xanxerê.
Paraná registra poucas ofertas da safra velha
O mercado paranaense também permanece firme diante da disponibilidade reduzida de trigo remanescente. No Norte do estado, foram registrados negócios a R$ 1.500 por tonelada FOB. Nos Campos Gerais, as negociações ficaram próximas de R$ 1.450 por tonelada.
Para a safra nova, as indicações dos compradores variam conforme o período de entrega. As referências alcançam R$ 1.500 por tonelada para setembro, mas recuam para aproximadamente R$ 1.400 por tonelada nos contratos com entrega prevista para novembro.
Essa diferença sinaliza a expectativa de aumento da oferta com o avanço da colheita, embora os riscos climáticos e sanitários ainda possam modificar o cenário.
Trigo despenca em Chicago após declaração de Putin
Na Bolsa de Mercadorias de Chicago, os contratos futuros do trigo encerraram a sessão em forte queda. O mercado passou por realização de lucros depois de atingir os maiores preços em mais de dois anos.
A correção ganhou intensidade após Putin afirmar que existe a possibilidade de um acordo de paz para encerrar o conflito na Ucrânia. A declaração reduziu temporariamente o prêmio de risco associado às ameaças de interrupção das exportações russas e ucranianas pelo Mar Negro.
Durante a sessão, o contrato mais negociado chegou a recuar 42 centavos de dólar por bushel, aproximando-se do limite diário de baixa.
O vencimento dezembro encerrou cotado a US$ 7,5425 por bushel, queda de 19,75 centavos, equivalente a 2,55%. Março de 2027 terminou a US$ 7,70 por bushel, com perda de 20,75 centavos, ou 2,62%.
Realização de lucros interrompe forte valorização
Antes da queda, o trigo havia acumulado ganhos expressivos no mercado internacional. Na quarta-feira (2), o contrato de referência alcançou US$ 7,95 por bushel, maior cotação desde fevereiro de 2023.
Somente em agosto, a valorização acumulada ficou próxima de 21%. A disparada refletiu o aumento das preocupações com a segurança das rotas marítimas e com possíveis restrições à oferta de trigo da região do Mar Negro.
Apesar da sinalização política, operadores ressaltam que as declarações do governo russo não representam uma redução imediata das operações militares. Por isso, os riscos logísticos e comerciais continuam presentes.
Exportações de Rússia e Ucrânia registram forte retração
Os efeitos das tensões geopolíticas já aparecem no comércio internacional. A Ucrânia exportou 1,2 milhão de toneladas de grãos e oleaginosas em agosto, menos da metade das 2,5 milhões de toneladas embarcadas em julho.
Para reduzir a dependência das cargas do Mar Negro, compradores asiáticos adquiriram pelo menos 500 mil toneladas de trigo da Austrália e da Argentina. As compras buscam substituir embarques atrasados após ataques contra navios e estruturas portuárias.
A Rússia também apresentou forte retração. O país exportou 1,3 milhão de toneladas, volume 3,8 vezes inferior ao registrado em agosto de 2025, conforme dados da União Russa de Grãos.
O Egito permaneceu como principal destino do trigo russo, com 450 mil toneladas, mas o volume foi 2,2 vezes menor na comparação anual. O número de países compradores caiu de 43, em agosto de 2025, para apenas 16 no mesmo mês deste ano.
Licitação saudita pode indicar novos fluxos comerciais
O mercado também acompanha uma licitação da Arábia Saudita para a compra de 535 mil toneladas de trigo, com entregas previstas para novembro e dezembro.
A origem escolhida poderá mostrar como os grandes importadores estão reorganizando suas compras diante das incertezas no Mar Negro. Austrália, Argentina e outros exportadores podem conquistar espaço caso os problemas logísticos na Rússia e na Ucrânia persistam.
No curto prazo, o trigo brasileiro tende a continuar sustentado pela escassez da safra velha e pelas dúvidas sobre a qualidade da nova produção. No exterior, entretanto, as cotações deverão permanecer sensíveis às negociações envolvendo a guerra, ao comportamento das exportações pelo Mar Negro e à movimentação dos grandes compradores mundiais.
Fonte: Portal do Agronegócio
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