Ruptura nos supermercados cai para 11,5% em junho, mas consumo mais fraco pressiona cadeia de abastecimento
Índice da Neogrid aponta melhora na disponibilidade de produtos nas gôndolas brasileiras, enquanto varejo ajusta estoques ao novo comportamento do consumidor e categorias como açúcar, arroz e ovos registram queda nos preços.
Publicado em: 24/07/2026 às 10:30hs
Ruptura nos supermercados cai para 11,5% em junho, mas consumo mais fraco preocupa varejo
O índice de falta de produtos nas prateleiras dos supermercados brasileiros apresentou melhora em junho de 2026, segundo levantamento da Neogrid, mas o resultado ocorre em meio a um cenário de consumo mais cauteloso e mudanças no comportamento dos consumidores.
O Índice de Ruptura da Neogrid registrou 11,5% no mês, uma redução de 0,9 ponto percentual (p.p.) em relação a maio, quando o indicador alcançou 12,4%.
Apesar da menor indisponibilidade de produtos, especialistas avaliam que a queda da ruptura não representa apenas uma melhora estrutural da cadeia de abastecimento. Parte do movimento está relacionada à desaceleração da demanda e à adaptação do varejo diante de consumidores mais sensíveis aos preços.
De acordo com o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), junho apresentou o pior desempenho do comércio desde o período da pandemia, com retração real de 2,8% nas vendas, refletindo perda de poder de compra e maior seletividade nas compras.
Varejo ajusta estoques ao novo perfil do consumidor
Segundo Robson Munhoz, Chief Relationship Strategist da Neogrid, as redes varejistas passaram por um processo de revisão de estoques e sortimentos para acompanhar a mudança no comportamento de compra.
O consumidor tem priorizado produtos mais baratos e substituído marcas premium por alternativas de menor custo dentro das mesmas categorias.
Esse movimento levou supermercados a reduzir a exposição de determinados produtos de maior valor e ampliar a disponibilidade de itens com maior giro.
"A redução da ruptura mostra uma adaptação do varejo, mas não significa que todos os desafios da cadeia tenham sido solucionados. O equilíbrio entre estoque, disponibilidade e rentabilidade continua sendo um desafio", avalia Munhoz.
Categorias com maior variação na ruptura em junho
Entre os principais produtos monitorados pela Neogrid, os destaques foram:
- Ovos de aves: queda de 28,4% para 27,8% (-0,6 p.p.);
- Leite UHT: redução de 18,2% para 13,8% (-4,4 p.p.);
- Arroz: recuo de 11,1% para 11,0% (-0,1 p.p.);
- Café em pó e grãos: alta de 8,6% para 9,4% (+0,8 p.p.);
- Açúcar: queda de 10,4% para 9,4% (-1,0 p.p.);
- Feijão: redução de 9,3% para 8,3% (-1,0 p.p.).
Café registra maior nível de ruptura da série histórica
O café foi uma das categorias que apresentou piora no abastecimento em junho.
A ruptura aumentou de 8,6% em maio para 9,4%, atingindo o maior nível desde o início da série histórica da Neogrid, em outubro de 2025.
Nos preços, o café em grãos permaneceu praticamente estável, passando de R$ 127,28 para R$ 127,37 por quilo, enquanto o café em pó apresentou queda, de R$ 71,03 para R$ 69,52.
Segundo a Neogrid, a categoria evidencia a mudança no comportamento do consumidor, que tem migrado para produtos mais acessíveis diante da pressão sobre a renda.
Além dos fatores relacionados ao consumo, o mercado de café também acompanha preocupações com a oferta futura.
Dados do Cepea indicam que o excesso de chuvas em junho nas principais regiões produtoras de café arábica prejudicou o avanço da colheita da safra 2026/27, dificultando a secagem dos grãos e aumentando riscos de perda de qualidade.
Leite UHT melhora abastecimento após meses de pressão
O leite apresentou uma das maiores recuperações entre os produtos avaliados.
A ruptura caiu para 13,8% em junho, após alcançar níveis elevados nos meses anteriores:
- março: 19,1%;
- abril: 20,7%;
- maio: 18,2%.
Apesar da melhora na disponibilidade, os preços continuaram avançando.
Principais variações:
- leite sem lactose: de R$ 7,55 para R$ 7,62/litro;
- leite semidesnatado: de R$ 6,26 para R$ 6,36/litro;
- leite desnatado: de R$ 6,19 para R$ 6,20/litro;
- leite integral: de R$ 6,07 para R$ 6,10/litro.
Ovos continuam entre os produtos com maior falta nas gôndolas
Mesmo com pequena melhora, os ovos permaneceram como uma das categorias com maior índice de ruptura no varejo brasileiro.
A indisponibilidade caiu de 28,4% para 27,8% em junho.
Ao mesmo tempo, os preços apresentaram redução em todas as principais embalagens:
- caixa com 30 unidades: de R$ 21,55 para R$ 20,77;
- caixa com 20 unidades: de R$ 16,23 para R$ 15,59;
- embalagem com 12 unidades: de R$ 11,61 para R$ 11,53;
- embalagem com seis unidades: de R$ 7,15 para R$ 7,03.
Segundo análise do Cepea/USP, as exportações brasileiras de ovos cresceram em junho, impulsionadas principalmente pela demanda do Chile.
O Brasil exportou 2,59 mil toneladas da proteína, volume 19% superior ao registrado em maio, embora ainda 60% abaixo do mesmo período de 2025.
Arroz mantém estabilidade no abastecimento
O arroz apresentou pouca alteração no índice de ruptura, passando de 11,1% para 11,0% em junho.
Nos preços:
- arroz integral: caiu de R$ 6,96 para R$ 6,76/kg;
- arroz branco: passou de R$ 4,83 para R$ 4,82/kg;
- arroz parboilizado: recuou de R$ 4,63 para R$ 4,62/kg.
O comportamento indica estabilidade no abastecimento da principal base alimentar dos brasileiros.
Açúcar registra melhora e preços recuam
Após atingir o maior nível da série histórica em maio, o açúcar apresentou recuperação na disponibilidade.
A ruptura caiu de 10,4% para 9,4% em junho.
Os preços também tiveram redução:
- açúcar mascavo: de R$ 19,29 para R$ 18,90/kg;
- açúcar refinado: de R$ 4,22 para R$ 4,13/kg;
- açúcar cristal: de R$ 3,71 para R$ 3,66/kg.
Feijão reduz ruptura, mas preços aumentam
O feijão interrompeu a tendência de alta registrada anteriormente e apresentou melhora no abastecimento.
A ruptura caiu de 9,3% para 8,3% em junho.
Por outro lado, os preços avançaram:
- feijão vermelho: de R$ 12,52 para R$ 12,61/kg;
- feijão carioca: de R$ 8,89 para R$ 9,64/kg;
- feijão preto: de R$ 6,68 para R$ 7,03/kg.
Cadeia de abastecimento entra em nova fase de adaptação
Os dados da Neogrid mostram que a redução da ruptura nas gôndolas brasileiras ocorre em um momento de transformação do varejo, marcado por consumidores mais seletivos e empresas ajustando estoques ao novo cenário econômico.
Para o agronegócio e a indústria de alimentos, o desafio permanece: garantir disponibilidade dos produtos, controlar custos e acompanhar uma demanda cada vez mais orientada pelo preço.
Fonte: Portal do Agronegócio
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