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Análise de Mercado

Déficit de armazenagem de grãos no Brasil aumenta com mudanças climáticas e preocupa produtores

Professora da UFMT alerta que falta de capacidade estática de armazenagem é um problema estrutural e que eventos climáticos extremos elevam riscos de perdas na produção agrícola


Publicado em: 27/07/2026 às 10:35hs

Déficit de armazenagem de grãos no Brasil aumenta com mudanças climáticas e preocupa produtores

O déficit de armazenagem de grãos no Brasil vem se agravando nas últimas décadas e ganhou novos desafios diante das mudanças climáticas. A avaliação é da professora associada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Solenir Ruffato, especialista em pós-colheita, que alerta para os impactos do clima irregular sobre a conservação da produção agrícola.

Segundo a pesquisadora, o problema da armazenagem brasileira deixou de ser uma questão pontual e passou a representar um desafio estrutural para o agronegócio nacional, especialmente diante do crescimento da produção de grãos e da ocorrência de eventos climáticos fora do padrão histórico.

Falta de armazéns acompanha expansão da produção agrícola

De acordo com Ruffato, o Brasil ampliou significativamente sua produção de grãos nas últimas décadas, mas a infraestrutura de armazenagem não avançou no mesmo ritmo.

“A situação crítica da armazenagem já vem de décadas e só vem piorando”, afirmou a professora, destacando que o descompasso entre produção e capacidade estática aumenta a vulnerabilidade do setor.

O cenário se torna ainda mais complexo porque, além da insuficiência de estruturas adequadas, produtores passaram a enfrentar mudanças no comportamento climático, afetando etapas como colheita, secagem e conservação dos grãos.

Chuvas atípicas atingem milho armazenado a céu aberto em Mato Grosso

Um dos exemplos mais recentes ocorreu no norte de Mato Grosso, onde produtores tradicionalmente utilizam o armazenamento de milho a céu aberto como alternativa temporária durante a safra.

A prática historicamente era favorecida pelo clima seco da região entre o período da colheita e setembro, quando as chuvas costumavam ser praticamente inexistentes.

No entanto, segundo Ruffato, o cenário mudou neste ano. A região registrou ao menos quatro episódios de chuva inesperada sobre grandes volumes de milho armazenados dessa forma.

A pesquisadora destaca que o volume acumulado de precipitações ultrapassou 70 milímetros durante os meses de junho e julho, período normalmente marcado pela estiagem.

Mudança climática aumenta risco de perdas na qualidade dos grãos

As chuvas fora de época não afetaram apenas os grãos já armazenados, mas também interferiram diretamente na maturação do milho antes da colheita.

Com maior umidade no campo, o processo de secagem natural foi prolongado, resultando em lotes com diferentes padrões de qualidade, incluindo maior presença de grãos avariados.

Segundo a professora, essa heterogeneidade exige novas estratégias de gestão dentro das propriedades rurais, principalmente para evitar perdas econômicas e preservar o valor comercial da produção.

Silo bolsa ganha importância como ferramenta de gestão

Nesse cenário, o silo bolsa aparece como uma alternativa estratégica para ampliar a flexibilidade da armazenagem agrícola.

Segundo Ruffato, uma das principais vantagens da tecnologia é permitir a segregação de lotes com diferentes características, possibilitando separar grãos conforme qualidade, umidade e destino comercial.

A professora destaca que essa função se tornou ainda mais importante diante de safras com maior variabilidade, como a observada em Mato Grosso neste ano.

Ela cita também situações semelhantes no Paraná, onde chuvas e temperaturas mais baixas atrasaram a maturação do milho, levando produtores a utilizarem o silo bolsa para armazenar temporariamente produtos com umidade elevada.

Armazenagem a céu aberto tende a perder espaço

Para a pesquisadora, o avanço das mudanças climáticas deve levar o setor a repensar práticas tradicionais de armazenamento.

Segundo ela, a dependência de condições climáticas previsíveis torna o armazenamento a céu aberto uma alternativa cada vez mais arriscada.

“A tendência é que essa prática seja reduzida com o avanço das mudanças climáticas”, avalia a especialista.

Integração entre produtores, pesquisa e indústria é caminho para soluções

Durante a preparação para o II Simpósio Internacional do Silo Bolsa (II SISB), Ruffato defende que a troca de experiências entre diferentes setores é essencial para encontrar soluções mais eficientes.

Segundo a professora, reunir produtores, pesquisadores, empresas e instituições permite identificar desafios comuns e desenvolver estratégias adaptadas às diferentes realidades agrícolas brasileiras.

Ela cita como referência a experiência da Argentina, onde diferentes segmentos do agronegócio participaram de debates conjuntos sobre armazenagem, contribuindo para avanços no setor.

Brasil precisa ampliar soluções para conservar qualidade dos grãos

A especialista destaca que cada região produtora possui desafios específicos. Enquanto algumas áreas enfrentam problemas relacionados ao excesso de chuvas, outras lidam com questões de logística, distância dos armazéns e aumento da produção.

Para Ruffato, o objetivo central deve ser reduzir perdas e garantir que a qualidade dos grãos produzidos no campo seja preservada até chegar ao mercado.

“Queremos melhorar, reduzir perdas e continuar conservando a qualidade do produto produzido pelo produtor”, resume.

II Simpósio Internacional do Silo Bolsa debate futuro da armazenagem agrícola

O 2º Simpósio Internacional sobre Silo Bolsa reunirá especialistas, produtores rurais, pesquisadores, empresas e representantes da cadeia do agronegócio para discutir tecnologias e estratégias para o futuro da armazenagem.

A programação contará com palestras, debates técnicos, demonstrações práticas e apresentação de soluções voltadas à conservação de grãos, silagens, logística, resíduos agroindustriais, gestão de armazenamento e tecnologias inteligentes aplicadas ao campo.

O evento também terá vitrines tecnológicas com empresas e startups, além de ferramentas digitais de monitoramento e controle da armazenagem agrícola.

A iniciativa é voltada a produtores, cooperativas, tradings, indústrias, usinas, pesquisadores, profissionais e estudantes ligados ao agronegócio, com foco em inovação, redução de perdas e aumento da eficiência na pós-colheita.

Fonte: Portal do Agronegócio

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