Custo do diesel na soja dispara 180% e pressiona rentabilidade da safra 2026/27
Preço médio do combustível atingiu recorde de R$ 6,56 por litro em 2026, enquanto a relação de troca com a soja caiu ao pior nível da série histórica, aponta estudo do Aegro Insights
Publicado em: 31/08/2026 às 17:30hs
O custo do diesel tornou-se uma das principais fontes de pressão sobre a rentabilidade da produção brasileira de soja. Entre 2018 e 2025, o gasto com o combustível por hectare avançou 180,4%, acima do crescimento aproximado de 108% registrado pelo custo total da lavoura no mesmo período.
O preço médio pago pelo produtor rural passou de R$ 3,50 por litro em 2018 para R$ 6,56 na parcial de 2026, considerando as compras realizadas até agosto. A valorização acumulada chegou a 87,5% em oito anos e estabeleceu um novo recorde para a série analisada.
Os dados fazem parte de um levantamento do Aegro Insights, elaborado a partir da análise de 507 mil notas fiscais de aquisição de diesel emitidas por fazendas brasileiras entre 2018 e agosto de 2026.
Diesel supera recorde registrado durante crise energética
O valor médio de R$ 6,56 por litro registrado em 2026 superou inclusive o patamar observado em 2022, quando o choque global de energia elevou o preço do combustível para R$ 6,54.
O diesel representava 3,90% do custo de produção da soja por hectare em 2018. Essa participação aumentou progressivamente e alcançou o pico de 5,54% em 2024, antes de recuar para 5,25% em 2025.
Apesar da pequena redução percentual no último ano, o combustível continua pesando significativamente no orçamento da propriedade, especialmente porque o preço da soja não acompanhou a mesma trajetória de valorização.
Segundo o coordenador de inteligência de mercado da Aegro, Mathias Bergamin, fatores como conflitos internacionais, limitações na oferta do combustível e alta do dólar ajudam a explicar o avanço dos preços. O valor da oleaginosa, entretanto, não apresentou crescimento suficiente para compensar essa pressão.
Relação de troca entre soja e diesel é a pior da série
A perda de poder de compra do produtor aparece com clareza na relação de troca. Em 2018, uma saca de soja permitia adquirir 20,74 litros de diesel. Em 2026, essa capacidade caiu para 17,46 litros por saca, o menor nível identificado pelo levantamento.
Há oito anos, o gasto com combustível em cada hectare correspondia a 1,43 saca de soja. O desembolso era de R$ 103,95 por hectare, dentro de um custo total de R$ 2.666,29, sem considerar arrendamento e depreciação.
Em 2025, o diesel passou a consumir o equivalente a 2,44 sacas por hectare. O gasto chegou a R$ 291,45 por hectare, diante de um custo total de produção estimado em R$ 5.550,89.
A diferença mostra que o combustível não apenas ficou mais caro em valores nominais, mas também passou a exigir uma parcela maior da produção para ser pago.
Safra de soja 2026/27 exige planejamento na compra de combustível
Com a proximidade do plantio da safra 2026/27, o produtor deverá aumentar o controle sobre as aquisições de diesel. A recomendação é evitar compras emergenciais durante períodos de pico de preços ou de baixa disponibilidade nos distribuidores.
“O produtor tem que se planejar mais para comprar diesel. Antes, o custo do combustível não tinha um peso tão relevante como agora”, explica Bergamin.
Segundo o especialista, a fazenda deve estimar antecipadamente o volume necessário para as operações de semeadura, acompanhar as condições oferecidas pelos fornecedores e garantir a entrega antes do início dos trabalhos no campo.
O planejamento reduz o risco de interrupções no plantio e permite aproveitar oportunidades de compra em momentos mais favoráveis.
Eficiência das máquinas pode reduzir consumo de diesel
Diante do aumento dos custos, a melhoria da eficiência operacional tornou-se essencial para proteger as margens da soja. O controle do consumo deve abranger cada máquina, operação e área cultivada.
Entre as ações recomendadas estão a manutenção preventiva do maquinário, o dimensionamento adequado da frota, a redução de deslocamentos desnecessários e a otimização das operações agrícolas.
A limpeza dos bicos de pulverização, a correta regulagem dos equipamentos e o acompanhamento do desempenho das máquinas também podem evitar desperdícios e diminuir o consumo por hectare.
“A recomendação é aumentar a eficiência operacional das máquinas agrícolas para garantir o menor consumo de combustível”, destaca o coordenador do Aegro Insights.
Maranhão lidera peso do diesel no custo da soja
O impacto do combustível apresenta diferenças expressivas entre os estados produtores. Maranhão, Rio Grande do Sul e Bahia aparecem entre as regiões nas quais o diesel ocupa a maior parcela da planilha de custos.
No Maranhão, o combustível representa 6,28% do custo da soja, com gasto médio de R$ 378,70 por hectare — equivalente a 2,97 sacas.
No Rio Grande do Sul, a participação chega a 5,99%, com desembolso de R$ 273,38 por hectare ou 2,14 sacas. Na Bahia, o diesel responde por 5,86% do custo, atingindo R$ 360,24 por hectare, o equivalente a 2,82 sacas.
Em Goiás, o combustível representa 5,55% do custo da lavoura, com gasto médio de R$ 291,90 por hectare ou 2,29 sacas.
Mato Grosso tem menor participação entre estados analisados
Mato Grosso apresentou a menor participação do diesel no custo da soja entre os 12 estados avaliados. O combustível respondeu por 4,71% da planilha, com desembolso de R$ 250 por hectare, equivalente a 1,96 saca.
O custo total da soja mato-grossense foi calculado em R$ 5.307,12 por hectare, acima dos R$ 4.567,70 registrados no Rio Grande do Sul. Apesar disso, o peso proporcional do diesel foi menor no principal estado produtor do País.
Uma possível explicação está na escala das propriedades, na maior área atendida por cada frota e na maturidade da logística interna. Esses fatores podem diluir o consumo e o custo do combustível por hectare.
Em estados de fronteira agrícola, como Maranhão, Bahia, Tocantins e Pará, o diesel representou mais de 5,1% dos custos. A infraestrutura ainda em desenvolvimento e as maiores distâncias logísticas podem elevar o preço pago e ampliar o consumo nas operações.
Diesel elevado reduz margem e aumenta risco da produção
O encarecimento do combustível amplia o desafio financeiro da safra 2026/27. Mesmo quando representa uma parcela aparentemente limitada da planilha, o diesel afeta várias etapas da produção, desde o preparo do solo e a semeadura até as pulverizações, a colheita e o transporte interno.
Com a relação de troca no pior nível da série histórica, o produtor precisa combinar planejamento de compras, negociação com fornecedores e maior eficiência operacional para reduzir a exposição aos preços elevados.
A tendência é que o diesel permaneça como variável estratégica na gestão das propriedades. Em um cenário de margens mais apertadas, cada litro economizado poderá ter impacto direto no resultado econômico da produção de soja.
Fonte: Portal do Agronegócio
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