Safra de cana do Brasil pode evitar déficit global de açúcar e sustentar oferta em 2027
Produção de 635,5 milhões de toneladas no Centro-Sul e flexibilidade das usinas para ampliar o mix açucareiro podem compensar perdas na Índia, Tailândia e Europa
Publicado em: 31/08/2026 às 18:20hs
O crescimento da produção de cana-de-açúcar no Brasil deverá funcionar como o principal fator de equilíbrio do mercado mundial de açúcar diante dos problemas climáticos enfrentados por importantes países produtores. Mesmo com a perspectiva de menor oferta no Hemisfério Norte, o volume brasileiro pode impedir a formação de um déficit estrutural e manter positivos os fluxos comerciais globais.
A avaliação é da Hedgepoint Global Markets, que estima uma moagem de 635,5 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul do Brasil na safra 2026/27. O volume representa crescimento de aproximadamente 4% frente às 611,2 milhões de toneladas processadas na temporada anterior.
Além da maior disponibilidade de matéria-prima, a capacidade das usinas brasileiras de direcionar mais cana para açúcar ou etanol oferece flexibilidade para responder às mudanças de preços no mercado internacional.
Brasil deve ampliar produção de cana para 635,5 milhões de toneladas
As chuvas interromperam temporariamente as operações e reduziram o ritmo de moagem em algumas áreas do Centro-Sul. Apesar das paralisações, a Hedgepoint não identifica, neste momento, uma redução relevante na disponibilidade de cana.
A projeção de 635,5 milhões de toneladas indica uma oferta maior do que a registrada na temporada passada e mantém o Brasil em condições de compensar parte das perdas esperadas em outros países.
Segundo Lívea Coda, coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets, a oferta mundial está se tornando mais apertada. No entanto, o Brasil ainda dispõe de açúcar suficiente para manter o balanço global relativamente confortável.
O país ocupa a posição de maior produtor e exportador mundial do adoçante, o que torna o desempenho do Centro-Sul decisivo para o abastecimento internacional.
Produção brasileira de açúcar pode ficar próxima de 40 milhões de toneladas
A disponibilidade de cana permite que as usinas ajustem a produção conforme a remuneração oferecida pelo açúcar e pelo etanol.
Quando o adoçante apresenta maior rentabilidade, as unidades industriais tendem a elevar o mix açucareiro, destinando uma parcela maior da matéria-prima à fabricação de açúcar.
Mesmo considerando um mix conservador de 47,7%, a produção brasileira deverá permanecer próxima de 40 milhões de toneladas.
Essa flexibilidade representa uma vantagem estratégica do setor sucroenergético nacional. Diferentemente de países que concentram a produção em apenas um produto, o Brasil consegue alterar parcialmente o destino da cana conforme as condições comerciais.
Paridade com etanol favorece aumento do mix açucareiro
A relação atual entre os preços do açúcar e do etanol deverá estimular as usinas a buscar um mix próximo de 47,7%.
Caso esse percentual seja alcançado, o mercado mundial ficará mais confortável, mesmo diante da redução da oferta na Ásia e na Europa.
A Hedgepoint também avaliou um cenário mais conservador, no qual as chuvas associadas ao El Niño reduziriam o mix açucareiro para aproximadamente 47%. Ainda assim, os fluxos comerciais globais permaneceriam positivos.
Nesse caso, o balanço ficaria mais apertado, mas sem indicar escassez generalizada ou déficit estrutural de açúcar.
El Niño aumenta riscos para produção mundial de açúcar
Apesar da perspectiva positiva para o Brasil, o El Niño aumenta as incertezas em outras regiões produtoras.
O fenômeno pode alterar a distribuição das chuvas, agravar períodos de estiagem e comprometer o desenvolvimento da cana e da beterraba açucareira.
Índia, Tailândia e União Europeia aparecem entre as regiões mais vulneráveis. A redução das safras nesses mercados diminui a disponibilidade para exportação e fortalece as cotações do açúcar bruto e refinado.
O tamanho da produção brasileira será, portanto, fundamental para definir o grau de aperto no balanço mundial durante 2027.
Índia é a principal incerteza no mercado de açúcar
A Índia permanece como a variável mais crítica para o mercado global. O país enfrentou início tardio da temporada de monções e, embora as chuvas tenham melhorado em julho, as previsões indicam precipitações abaixo da média durante o restante do ciclo.
Os reservatórios continuam em níveis preocupantes em importantes regiões canavieiras, aumentando o risco de perdas produtivas.
A produção indiana de açúcar está estimada em aproximadamente 27,6 milhões de toneladas. Nesse patamar, o país não teria excedente suficiente para exportar.
O governo já autorizou a importação de 1 milhão de toneladas, enquanto o mercado monitora a possibilidade de nova deterioração climática.
Índia pode não utilizar toda a cota de importação
O anúncio da cota indiana de importação levou os contratos internacionais do açúcar a testarem 18 centavos de dólar por libra-peso. Os ganhos, entretanto, não se sustentaram.
A queda dos preços domésticos na Índia passou a indicar que o país pode não utilizar integralmente o volume autorizado.
O governo indiano também dispõe de outras medidas para garantir o abastecimento interno. Entre elas estão as restrições sobre estoques mantidos pelas distribuidoras e a redução do direcionamento de açúcar para a produção de etanol.
Essas alternativas podem diminuir a necessidade imediata de importações, embora o comportamento das chuvas continue determinante.
Tailândia reduz moagem para 88 milhões de toneladas de cana
Na Tailândia, a previsão de moagem foi reduzida para aproximadamente 88 milhões de toneladas de cana.
Com o corte, a produção de açúcar deverá ficar próxima de 9,5 milhões de toneladas, enquanto as exportações são estimadas em cerca de 6 milhões de toneladas.
A menor disponibilidade tailandesa afeta tanto o mercado de açúcar bruto quanto o de refinado. Como o país é um importante fornecedor internacional, a retração contribui para sustentar os prêmios pagos pelo produto refinado.
O desempenho da safra continuará dependendo das condições climáticas e do desenvolvimento das lavouras.
Ondas de calor reduzem produtividade da beterraba na Europa
Na Europa, três ondas consecutivas de calor e a seca registrada em países como França, Alemanha e Polônia prejudicaram o potencial produtivo da beterraba, principal matéria-prima utilizada na fabricação de açúcar no bloco.
A produção europeia está estimada em aproximadamente 14 milhões de toneladas.
O menor volume deverá aumentar a necessidade de importações e reduzir a capacidade exportadora da região. Esse cenário reforça a perspectiva de preços mais firmes para o açúcar refinado.
A combinação entre calor extremo, falta de chuva e produtividade menor amplia a dependência europeia do mercado internacional.
Superávit global diminui, mas mercado não deve enfrentar escassez
A disponibilidade exportável deverá diminuir em diferentes regiões, reduzindo o superávit projetado para o mercado mundial de açúcar.
O balanço tende a ficar mais apertado ao longo de 2027 quando comparado ao final de 2025 e ao início de 2026, período marcado pelo forte desempenho do Centro-Sul brasileiro e pela recuperação da produção no Hemisfério Norte.
Mesmo assim, o Brasil continua capaz de compensar grande parte da retração provocada pelos problemas climáticos recentes.
Segundo a Hedgepoint, até mesmo cenários brasileiros mais conservadores, com menor participação do açúcar no mix industrial, manteriam os fluxos comerciais globais superavitários.
Brasil permanece decisivo para equilíbrio do açúcar mundial
O mercado internacional de açúcar entra em uma fase de menor folga, marcada pela redução da produção na Índia, Tailândia e Europa.
Nesse ambiente, a safra de 635,5 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, a produção brasileira próxima de 40 milhões de toneladas de açúcar e a flexibilidade das usinas tornam-se os principais fatores de estabilidade.
O mercado pode ficar mais ajustado, especialmente ao longo de 2027, mas a oferta brasileira reduz o risco de escassez. O comportamento do El Niño, a definição do mix entre açúcar e etanol e a evolução das safras asiáticas serão decisivos para os preços nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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