Soja brasileira deve bater recordes de produção e exportação, mas margens menores travam expansão da área
AgroInfo 2026, do Rabobank, projeta safra de 182 milhões de toneladas e embarques de 114 milhões em 2025/26; para o próximo ciclo, produção pode recuar diante de custos elevados, crédito restrito e riscos climáticos
Publicado em: 31/08/2026 às 18:40hs
A cadeia brasileira da soja caminha para alcançar novos recordes de produção, exportação e processamento na temporada 2025/26, mesmo diante da redução das margens no campo. A competitividade do produto nacional e a forte demanda global continuam sustentando o desempenho do setor.
O cenário favorável, entretanto, poderá perder força na safra 2026/27. Após mais de duas décadas de expansão praticamente contínua, a área plantada com soja no Brasil tende a permanecer estável, refletindo custos financeiros elevados, crédito mais restrito e maior cautela dos produtores.
A avaliação integra a edição de agosto do AgroInfo 2026, relatório elaborado pelo RaboResearch, área de inteligência e pesquisa do Rabobank.
Safra brasileira de soja pode alcançar 182 milhões de toneladas
A produção brasileira de soja na temporada 2025/26 está estimada em 182 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde para o país.
O resultado mantém o Brasil na liderança mundial da produção e amplia a disponibilidade do grão para exportação e processamento doméstico.
Mesmo com as margens mais apertadas, a elevada produtividade e a escala da produção nacional garantiram um volume expressivo. A competitividade brasileira continua sendo o principal fator de sustentação dos embarques.
O desempenho confirma o protagonismo do país no abastecimento mundial de soja, farelo e óleo.
Exportações de soja devem atingir 114 milhões de toneladas
As exportações brasileiras podem alcançar 114 milhões de toneladas na safra 2025/26, também em nível recorde.
A demanda internacional, especialmente da China, permanece como um dos principais pilares do mercado. O país asiático continua direcionando grande parte de suas compras ao Brasil, favorecido pela disponibilidade e pela competitividade do produto nacional.
A expectativa de menor procura chinesa pela soja dos Estados Unidos também beneficia os exportadores brasileiros.
Esse fluxo fortalece a demanda nos portos e ajuda a sustentar os preços no mercado físico, apesar da elevada oferta decorrente da safra recorde.
Esmagamento de soja deve bater recorde no Brasil
A indústria brasileira também deverá processar um volume inédito. O esmagamento de soja está projetado em 63 milhões de toneladas, avanço de 4 milhões de toneladas em relação ao ano anterior.
A valorização do óleo de soja, impulsionada pelos preços mais elevados do petróleo, tem favorecido as margens das indústrias processadoras.
O desempenho permanece positivo mesmo com o adiamento da elevação da mistura obrigatória de biodiesel para 16%, conhecida como B16.
O crescimento do processamento amplia a produção nacional de farelo e óleo, fortalece a agregação de valor no país e reduz parcialmente a dependência das exportações do grão in natura.
Petróleo mais caro favorece óleo de soja e biodiesel
A valorização do petróleo tornou os biocombustíveis mais competitivos e aumentou a atratividade do óleo de soja.
Esse movimento ajuda a compensar parte dos impactos causados pelo adiamento do B16 e mantém as margens de esmagamento em níveis favoráveis.
A demanda pelo óleo é estratégica para a indústria brasileira porque melhora o valor obtido com o processamento e contribui para sustentar os preços pagos pelo grão.
O farelo, por sua vez, continua sendo amplamente utilizado na fabricação de rações para aves, suínos e bovinos, conectando o mercado da soja à expansão da produção brasileira de proteínas animais.
Estados Unidos podem perder exportações para o Brasil
O esmagamento norte-americano também deve alcançar um recorde na temporada 2025/26. Apesar disso, as exportações de soja dos Estados Unidos tendem a recuar diante da menor demanda chinesa.
Essa configuração abre espaço para o Brasil ampliar as vendas e preservar sua vantagem no mercado internacional.
A menor participação norte-americana nas compras da China fortalece os prêmios nos portos brasileiros e aumenta a procura pelo produto nacional.
O cenário, porém, poderá mudar caso Estados Unidos e China avancem nas negociações comerciais.
Negociações entre Estados Unidos e China podem mudar mercado
O encontro previsto entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, em setembro de 2026, deverá ser acompanhado com atenção pelo mercado de soja.
Um avanço nas negociações pode estimular a China a retomar ou ampliar as compras do produto norte-americano. Nesse caso, os Estados Unidos ganhariam competitividade e poderiam disputar uma parcela maior da demanda chinesa.
A manutenção das tensões, por outro lado, tende a preservar a vantagem do Brasil e sustentar os embarques nacionais.
As relações comerciais entre os dois países permanecem, portanto, entre as principais fontes de volatilidade para os preços, os prêmios de exportação e o direcionamento dos fluxos globais de soja.
Preço da soja sobe 5% em Rondonópolis
A demanda firme pelo produto brasileiro contribuiu para sustentar os preços no mercado físico.
Em Rondonópolis, importante referência de Mato Grosso, as cotações da soja avançaram 5% no início de agosto em relação ao mês anterior.
A valorização trouxe algum alívio aos produtores, que enfrentam margens pressionadas pelo aumento dos custos e pelas despesas financeiras.
Apesar da recuperação, a rentabilidade continua sendo um dos principais desafios para o planejamento da safra 2026/27.
Prêmios de exportação podem reduzir competitividade
A recuperação dos prêmios nos portos brasileiros apresenta efeitos distintos para a cadeia.
Por um lado, o movimento fortalece os preços recebidos pelos produtores e exportadores. Por outro, torna a soja brasileira mais cara para os compradores internacionais, reduzindo sua competitividade em relação à oferta norte-americana.
O Rabobank avalia que o produto dos Estados Unidos poderá ganhar atratividade relativa à medida que os prêmios brasileiros avançarem.
Valores mais elevados nos portos também podem pressionar as margens das indústrias de esmagamento durante o segundo semestre de 2026, ao aumentar o custo da matéria-prima.
Área de soja deve parar de crescer na safra 2026/27
Depois de mais de 20 anos de expansão praticamente contínua, a área cultivada com soja no Brasil deverá permanecer estável na temporada 2026/27.
A mudança representa uma nova fase para a oleaginosa, cujo crescimento foi sustentado por incorporação de novas áreas, conversão de pastagens e aumento da produtividade.
A menor rentabilidade, os custos financeiros elevados, a restrição de crédito e a maior cautela dos agricultores devem limitar novos investimentos.
Em vez de ampliar significativamente o plantio, os produtores tendem a priorizar eficiência, controle de custos e melhor utilização das áreas já consolidadas.
Produção pode recuar para 178 milhões de toneladas
Para a safra 2026/27, o RaboResearch projeta uma produção brasileira de 178 milhões de toneladas de soja.
O volume representa uma redução de 4 milhões de toneladas em relação aos 182 milhões esperados para 2025/26, mas ainda permanece historicamente elevado.
A queda projetada decorre principalmente da normalização da produtividade após dois ciclos de rendimentos excepcionais, além da expectativa de estabilidade da área plantada.
O resultado efetivo dependerá do comportamento do clima, do acesso ao crédito, dos custos dos insumos e das decisões de investimento dos produtores.
El Niño aumenta risco de atraso no plantio
A possível ocorrência do El Niño está entre os principais riscos para a próxima safra brasileira de soja.
Em Mato Grosso, o vazio sanitário termina em 6 de setembro, permitindo o início do plantio nas áreas que apresentarem umidade adequada. No entanto, o fenômeno climático pode atrasar a regularização das chuvas e postergar a semeadura.
O atraso na implantação da soja pode afetar a produtividade e comprometer o calendário das culturas plantadas na sequência, principalmente o milho safrinha e o algodão.
O mercado acompanhará de perto as precipitações no Brasil Central durante setembro e outubro, período decisivo para o avanço das máquinas no campo.
Custos dos insumos continuam pressionando a rentabilidade
A volatilidade dos fertilizantes e de outros insumos agrícolas permanece como fator de preocupação para a safra 2026/27.
Custos elevados reduzem as margens e podem levar produtores a rever o pacote tecnológico, postergar compras ou reduzir investimentos no manejo.
A disponibilidade de crédito também ganha relevância. Com juros altos e condições financeiras mais restritivas, o custeio da produção se torna mais caro e limita a capacidade de expansão.
Esse conjunto de fatores explica a expectativa de estabilidade da área, mesmo diante da demanda internacional ainda favorável.
Soja brasileira vive paradoxo entre recordes e margens menores
O cenário apresentado pelo AgroInfo 2026 revela um contraste no mercado brasileiro de soja. A cadeia deverá registrar produção de 182 milhões de toneladas, exportações de 114 milhões e esmagamento de 63 milhões na temporada 2025/26.
Ao mesmo tempo, a rentabilidade menor, os juros elevados, o crédito restrito e os riscos climáticos reduzem o espaço para novos investimentos.
Para 2026/27, a previsão de estabilidade da área e produção de 178 milhões de toneladas sinaliza uma desaceleração do crescimento. Ainda assim, a competitividade brasileira e a forte demanda global devem manter o país como principal referência no mercado mundial da oleaginosa.
Fonte: Portal do Agronegócio
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