Milho atinge máxima em três anos e soja chega a R$ 160 por saca nos portos
Estoques globais apertados impulsionam o milho em Chicago, enquanto oferta restrita sustenta trigo e boi gordo; algodão fica abaixo da paridade de exportação
Publicado em: 31/08/2026 às 19:00hs
O mercado de commodities agrícolas encerrou a semana de 22 a 28 de agosto com valorização no exterior e maior firmeza nas principais praças brasileiras. O milho liderou os ganhos ao atingir o maior preço em Chicago desde julho de 2023, enquanto a soja chegou a R$ 160 por saca nos portos nacionais.
Trigo, algodão e boi gordo também encontraram fatores de sustentação. Apesar do movimento positivo, cada mercado respondeu a fundamentos diferentes, como disponibilidade global, oferta doméstica, câmbio, exportações e comportamento dos produtores.
Para quem avalia a comercialização, entender essas diferenças é mais importante do que acompanhar apenas a variação semanal dos preços.
Milho atinge maior preço desde julho de 2023 em Chicago
O milho foi o principal destaque da semana. Na quarta-feira (26), a cotação em Chicago alcançou US$ 5,14 por bushel, maior valor desde 28 de julho de 2023. Na sessão seguinte, uma realização de lucros levou o contrato a fechar em US$ 5,10, ainda acima dos US$ 4,78 registrados uma semana antes.
O avanço foi sustentado pelas preocupações com o abastecimento global e pela valorização do trigo no mercado internacional.
No Brasil, os preços também ganharam força no encerramento de agosto. Nas principais praças do Rio Grande do Sul, a saca foi negociada em torno de R$ 59. Em outras regiões, as indicações variaram de R$ 46 a R$ 66, enquanto os principais portos trabalharam próximos de R$ 71 por saca no sistema CIF.
Colheita do milho avança abaixo da média histórica
A colheita da segunda safra alcançou 84,4% da área nacional, abaixo da média histórica de 87,5% para o período.
No Centro-Sul, os trabalhos atingiam 92% da área em 20 de agosto, ante 98% no mesmo período do ano anterior. O ritmo mais lento contribuiu para limitar a disponibilidade imediata em algumas regiões e reforçar a sustentação dos preços.
Parte dos produtores também permaneceu retraída, aguardando melhores oportunidades de comercialização após a valorização internacional.
Exportação de milho perde ritmo, mas preço médio aumenta
A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) reduziu a estimativa de embarques brasileiros de milho em agosto para 5,45 milhões de toneladas. O volume representa uma queda de aproximadamente 1,9 milhão de toneladas em relação ao mesmo mês de 2025.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) também mostraram desaceleração. Nos primeiros 15 dias úteis de agosto, a média diária exportada ficou 29,8% abaixo da registrada em todo o mês de agosto do ano passado.
Em contrapartida, o preço médio do milho exportado avançou 9,6%, passando de US$ 197,90 por tonelada em agosto de 2025 para US$ 217 no acumulado de agosto de 2026.
Na Argentina, a Bolsa de Comércio de Rosário estima o plantio de 8,4 milhões de hectares de milho na safra 2026/27. A área deve permanecer próxima à do ciclo anterior e acima da média das últimas cinco temporadas.
Preço do trigo segue firme com safra menor no Brasil
O trigo também avançou em Chicago e ajudou a sustentar os demais grãos ao longo da semana. No mercado brasileiro, a entrada gradual da nova safra começou a ampliar a oferta, mas ainda não provocou uma queda generalizada nas cotações.
Segundo avaliação da Safras & Mercado, o setor encerrou a semana em transição, com baixa liquidez e cautela entre produtores e moinhos. As incertezas envolvem produtividade, qualidade dos grãos e comportamento das cotações internacionais.
Nos Campos Gerais do Paraná, as indicações variaram entre R$ 1.400 e R$ 1.450 por tonelada, conforme o prazo de entrega. No norte paranaense, os negócios para setembro ficaram próximos de R$ 1.400 por tonelada.
Produção brasileira de trigo pode cair 26,2%
A sustentação do trigo está relacionada principalmente à expectativa de uma safra nacional menor.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil deverá produzir 5,8 milhões de toneladas de trigo em 2026, recuo de 26,2% na comparação com o ciclo anterior. A área destinada ao cereal deve diminuir 20,4%.
Embora a colheita esteja começando, a perspectiva de oferta restrita limita a pressão sazonal sobre as cotações e mantém compradores atentos à qualidade dos primeiros lotes.
Preço da soja chega a R$ 160 nos portos
A soja atingiu R$ 160 por saca nos portos brasileiros na quarta-feira, impulsionada pela valorização em Chicago e pela alta do dólar no mesmo dia.
Na quinta-feira, os contratos futuros recuaram na bolsa norte-americana com a realização de lucros após os ganhos da sessão anterior. Mesmo assim, o mercado físico brasileiro preservou parte da valorização.
No câmbio, o dólar iniciou a semana com leve alta, mas encontrou dificuldade para superar R$ 5,15. A moeda norte-americana ainda acumula desvalorização em 2026 na comparação com o encerramento de 2025.
Esse comportamento indica que parte importante da alta da soja em reais ao longo do ano esteve ligada aos fundamentos da commodity, e não apenas à variação cambial.
Algodão fica 3% abaixo da paridade de exportação
O mercado brasileiro de algodão apresentou um cenário favorável às exportações. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o preço interno da pluma ficou 3% abaixo da paridade de exportação, situação que não era observada desde novembro de 2025.
Isso significa que a venda ao exterior passou a oferecer remuneração superior à negociação no mercado doméstico. Quando essa diferença ocorre, a tendência é de maior direcionamento da pluma para exportação até que os preços internos reajam e reduzam a distância.
Compradores com necessidade imediata demonstraram interesse por lotes de melhor qualidade. Entretanto, parte da indústria permaneceu cautelosa devido à dificuldade de repassar a valorização da matéria-prima aos produtos manufaturados.
A diferença entre as ofertas dos compradores e os valores solicitados pelos vendedores manteve as negociações pontuais.
Produção de algodão é elevada para 4,178 milhões de toneladas
A Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) elevou a estimativa para a safra brasileira 2025/26 a 4,178 milhões de toneladas de pluma. A projeção cresceu 4,3% em dois meses.
A entidade estima exportações de 3,418 milhões de toneladas em 2026 e de 3,411 milhões em 2027. Para a safra 2026/27, a previsão de produção subiu para 4,029 milhões de toneladas.
O estoque projetado para o fim de 2026 foi estimado em 2,914 milhões de toneladas.
Oferta curta sustenta preço do boi gordo
O mercado do boi gordo encerrou a semana equilibrado entre a oferta restrita de animais terminados e uma demanda ainda enfraquecida.
Levantamento da Scot Consultoria, realizado em 21 de agosto, indicou a arroba do boi gordo comum a R$ 347 no interior de São Paulo. O boi destinado ao mercado chinês foi cotado a R$ 350 por arroba. Os valores são brutos e para pagamento a prazo.
A menor disponibilidade de gado pronto para o abate continuou sustentando as cotações. Mesmo diante do consumo doméstico moderado e da desaceleração das exportações, os frigoríficos encontraram dificuldades para alongar as escalas e pressionar os preços com maior intensidade.
Os pecuaristas, por sua vez, conseguiram reter parte dos lotes à espera de melhores condições comerciais.
Exportações de carne bovina geram preocupação
No mercado externo, o preenchimento da cota chinesa sem tarifa adicional aumentou as incertezas sobre os próximos embarques brasileiros.
A China é o principal destino da carne bovina nacional, e qualquer mudança nas condições de acesso ao mercado pode influenciar as estratégias de compra dos frigoríficos e a formação do preço da arroba.
O Cepea informou ainda que o Indicador do Boi Gordo foi arbitrado pelo critério de excepcionalidade em 24 de agosto, mantendo o valor do dia útil anterior. Esse detalhe deve ser considerado nos cálculos de variação semanal para evitar distorções.
Focus mantém inflação em 5,02% e Selic em 13,75%
No ambiente macroeconômico, o Boletim Focus divulgado em 24 de agosto manteve em 5,02% a projeção para o IPCA de 2026.
A estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi reduzida de 1,98% para 1,95%. A previsão para a taxa Selic no encerramento do ano permaneceu em 13,75% ao ano, enquanto o dólar foi projetado em R$ 5,20.
A taxa básica de juros vigente está em 14% ao ano, nível definido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em 5 de agosto.
Fundamentos diferentes orientam comercialização
O desempenho das commodities ao longo da semana não resultou de um único movimento do mercado. No milho, a principal influência veio da preocupação com os estoques globais. O trigo encontrou suporte na expectativa de menor produção brasileira.
No algodão, a diferença entre o preço doméstico e a paridade de exportação favoreceu os embarques. A soja respondeu à valorização internacional e à demanda externa, enquanto o boi gordo foi sustentado pela menor oferta de animais terminados.
Para o produtor, a estratégia de venda deve considerar os fundamentos específicos de cada cadeia, além de custos, necessidade de caixa, armazenagem, câmbio e oportunidades de comercialização.
Perguntas frequentes sobre o mercado agrícola
Qual foi o preço do milho no fim de agosto?
Na semana encerrada em 28 de agosto, as principais praças gaúchas indicavam aproximadamente R$ 59 por saca. Nas demais regiões do País, os preços variaram entre R$ 46 e R$ 66, enquanto os portos trabalharam próximos de R$ 71 por saca CIF.
Por que o milho subiu em Chicago?
O milho atingiu US$ 5,14 por bushel em 26 de agosto, maior cotação desde julho de 2023. O avanço foi sustentado pelas preocupações com o abastecimento global e pela valorização do trigo.
Quanto custou a arroba do boi gordo?
Levantamento da Scot Consultoria indicou R$ 347 por arroba para o boi comum no interior paulista e R$ 350 para o boi destinado à China, em valores brutos e a prazo.
Por que o trigo continua firme com a colheita começando?
A Conab estima redução de 26,2% na produção brasileira de trigo em 2026, para 5,8 milhões de toneladas. A expectativa de uma oferta menor ajuda a sustentar as cotações mesmo com a entrada gradual da nova safra.
O que significa algodão abaixo da paridade de exportação?
Significa que a venda da pluma no exterior oferece remuneração maior do que o mercado interno. Nesse cenário, o algodão tende a ser direcionado às exportações até que a diferença entre os preços diminua.
Fonte: Portal do Agronegócio
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