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Análise de Mercado

Crise no agronegócio brasileiro se agrava com dívidas, custos elevados e queda de rentabilidade no campo

Endividamento recorde, margens pressionadas, juros altos, problemas climáticos e aumento dos custos de produção formam um dos cenários mais desafiadores das últimas décadas para produtores rurais e toda a cadeia agroindustrial.


Publicado em: 29/07/2026 às 10:50hs

Crise no agronegócio brasileiro se agrava com dívidas, custos elevados e queda de rentabilidade no campo

O agronegócio brasileiro atravessa um período de forte pressão financeira, marcado pela combinação de custos elevados de produção, queda nos preços das commodities, aumento do endividamento, dificuldades de crédito e avanço dos pedidos de recuperação judicial.

Especialistas avaliam que o setor enfrenta uma das crises mais amplas de sua história recente, com impactos que atingem produtores rurais, revendas de insumos, agroindústrias, tradings e empresas ligadas à logística.

Segundo o ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues, o atual momento possui características diferentes de crises anteriores por envolver simultaneamente fatores externos e internos.

“Há um tsunami varrendo o agronegócio tropical”, afirmou Rodrigues, destacando que o cenário foi agravado por conflitos internacionais, aumento dos custos operacionais e redução das margens financeiras no campo.

Custos agrícolas sobem enquanto preços das commodities recuam

A crise atual tem como um dos principais pontos de pressão o descompasso entre custos e receitas.

Dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que os custos operacionais da soja geneticamente modificada aumentaram cerca de 64% entre as safras 2021/2022 e 2026/2027.

No milho de alta tecnologia, a elevação dos custos chegou a aproximadamente 59% no mesmo período.

Enquanto isso, os preços médios pagos ao produtor sofreram forte retração. Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), os valores internos da soja e do milho caíram cerca de 32% e 26%, respectivamente, entre junho de 2022 e junho deste ano.

O resultado foi uma redução expressiva da rentabilidade agrícola, principalmente para produtores com menor produtividade ou maior dependência de financiamento.

Margens da soja e do milho continuam pressionadas

Projeções do mercado financeiro indicam que o cenário de margens menores deve continuar na próxima safra.

Estimativas do Itaú BBA apontam redução próxima de 8% na margem dos produtores de soja do Sudeste de Mato Grosso na comparação entre a safra atual e o próximo ciclo.

Desde a temporada 2024/2025, quando a rentabilidade atingiu níveis recordes, a retração acumulada chega a aproximadamente 28,5%.

No milho, apesar da expectativa de recuperação parcial dos ganhos na safra recém-iniciada, as margens ainda permanecem cerca de 26% abaixo dos níveis registrados em 2024/2025.

Endividamento rural atinge níveis históricos

Outro fator que preocupa o setor é o crescimento da dívida agrícola.

Segundo dados do Banco Central, o estoque de crédito rural passou de R$ 474,9 bilhões em dezembro de 2022 para R$ 697 bilhões em maio deste ano, uma alta de aproximadamente 47%.

O volume representa atualmente mais da metade do valor bruto da produção agropecuária brasileira.

Além do crédito tradicional, produtores e empresas ampliaram o uso de instrumentos privados de financiamento, como:

  • Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs);
  • Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros);
  • Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

O aumento da disponibilidade de recursos durante o ciclo positivo de preços entre 2020 e 2022 contribuiu para elevar a alavancagem do setor.

Segundo analistas, o passivo total do agronegócio brasileiro pode estar entre R$ 1 trilhão e R$ 1,2 trilhão, embora o cálculo seja complexo devido à participação de empresas fora do sistema financeiro tradicional.

Recuperações judiciais aumentam no campo

O avanço das dificuldades financeiras já aparece nos indicadores de insolvência.

Dados da Serasa Experian mostram que os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram 54% no último ano, alcançando um recorde de 1.990 solicitações.

No primeiro trimestre deste ano, foram registrados 517 pedidos, crescimento de 33% em relação ao mesmo período anterior.

Segundo análises da empresa de dados de inadimplência NEOT, a maior parte dos processos envolve uma combinação de fatores:

  • perdas provocadas por eventos climáticos extremos;
  • queda nos preços da soja e do milho;
  • aumento dos custos de fertilizantes e defensivos;
  • juros elevados;
  • dificuldade de acesso ao crédito.

Em cerca de 85% dos casos, produtores apontam problemas relacionados a frustrações de safra provocadas por seca ou excesso de chuvas.

Crise atinge toda a cadeia agroindustrial

Especialistas destacam que o atual momento não está restrito aos produtores rurais.

Revendas de insumos, agroindústrias, tradings, transportadoras e empresas de armazenagem também enfrentam dificuldades financeiras.

Para analistas do setor, está em andamento um processo de ajuste estrutural, provocado pela combinação de maior endividamento, custos elevados e redução das margens.

A concentração dos problemas em empresas maiores também chama atenção. Parte significativa do volume financeiro sob estresse envolve operações com passivos superiores a dezenas de milhões de reais.

Fertilizantes, logística e câmbio aumentam pressão sobre produtores

Além do cenário financeiro, fatores estruturais continuam pressionando o agronegócio brasileiro.

O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura, deixando produtores expostos às oscilações internacionais de preços e ao câmbio.

Outro desafio é a logística. Cerca de 70% do transporte da produção nacional depende do modal rodoviário, tornando o setor sensível às variações do preço do diesel.

A falta de armazenagem adequada também limita a capacidade dos produtores de escolher melhores momentos para comercializar suas safras.

Produtores podem reduzir investimentos e área plantada em 2026/2027

Diante da pressão financeira, entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alertam para a possibilidade de redução da área plantada e adoção de pacotes tecnológicos mais econômicos na próxima temporada.

A entidade defende maior previsibilidade no planejamento agrícola, fortalecimento do seguro rural e aprimoramento dos mecanismos de gestão de risco.

Também preocupa o cenário climático, com maior frequência de eventos extremos e a possibilidade de influência de um novo fenômeno El Niño sobre as próximas safras.

Governo busca equilíbrio entre apoio ao produtor e segurança do crédito

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) afirma acompanhar o avanço do endividamento rural e trabalha em medidas relacionadas ao crédito agrícola, seguro rural e apoio à comercialização.

O governo destaca, porém, que eventuais medidas de renegociação precisam ser direcionadas a produtores realmente afetados, evitando impactos negativos sobre o mercado de crédito.

Especialistas alertam que soluções amplas podem reduzir a oferta futura de financiamento e elevar os custos para todo o setor.

Tecnologia pode ser uma das saídas para recuperar rentabilidade

Apesar do cenário desafiador, o setor mantém perspectivas positivas de recuperação no médio prazo.

A adoção de tecnologias digitais, agricultura de precisão e gestão mais eficiente dos recursos aparece como uma das principais estratégias para reduzir custos e aumentar produtividade.

Empresas do setor destacam que ferramentas digitais podem permitir maior controle sobre aplicação de insumos, redução de desperdícios e melhoria da tomada de decisão no campo.

Agronegócio brasileiro entra em fase de reorganização

O cenário atual representa um dos maiores testes para o agronegócio brasileiro nas últimas décadas.

A combinação de juros altos, custos elevados, preços pressionados e endividamento exige uma nova fase de planejamento financeiro e eficiência operacional.

Mesmo diante das dificuldades, especialistas reforçam que a capacidade de adaptação do produtor brasileiro, a inovação tecnológica e a competitividade internacional continuam sendo fatores estratégicos para a retomada do setor.

O agronegócio entra agora em um ciclo de ajuste, no qual eficiência, gestão de risco e tecnologia serão determinantes para definir quais produtores e empresas estarão mais preparados para a próxima fase de crescimento.

Fonte: Portal do Agronegócio

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