Cachaça mineira busca mais qualidade e mercado: workshop destaca regularização, inovação e combate à ilegalidade em Minas Gerais
Evento na 96ª Semana do Fazendeiro reúne IMA, UFV, ABRABE, pesquisadores e produtores para fortalecer a cadeia produtiva da cachaça, ampliar a formalização e impulsionar a competitividade do setor
Publicado em: 22/07/2026 às 11:55hs
A cadeia produtiva da cachaça em Minas Gerais deu mais um passo rumo à profissionalização durante a 96ª Semana do Fazendeiro, realizada na Universidade Federal de Viçosa (UFV). O I Workshop da Cachaça Mineira reuniu produtores, pesquisadores, órgãos públicos e representantes da indústria para discutir os principais desafios do setor, com destaque para a regularização dos alambiques, a melhoria da qualidade da bebida, o combate ao mercado ilegal e a adoção de tecnologias capazes de ampliar a competitividade da cachaça brasileira.
Promovido pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), em parceria com a UFV, o Sistema Faemg Senar e diversas instituições ligadas ao setor, o encontro reforçou que a tradição da produção artesanal precisa caminhar lado a lado com a legislação, as boas práticas de fabricação e os avanços científicos para garantir acesso a novos mercados e agregar valor ao produto.
Minas Gerais lidera produção, mas ainda enfrenta alta informalidade
Reconhecida como patrimônio cultural brasileiro, a cachaça tem forte ligação com a agricultura familiar e com conhecimentos transmitidos entre gerações. No entanto, essa tradição já não é suficiente para garantir competitividade em um mercado cada vez mais exigente.
Segundo dados apresentados durante o workshop, entre 80% e 90% dos produtores mineiros ainda atuam de forma irregular, sem atender integralmente às exigências legais para produção e comercialização da bebida.
Apesar de Minas Gerais ocupar a liderança nacional tanto na produção quanto nas exportações de cachaça, a elevada informalidade limita o crescimento do setor, reduz oportunidades comerciais e dificulta a participação dos produtores em concursos, certificações e mercados internacionais.
Regularização amplia mercado e gera valorização da bebida
Durante o evento, especialistas destacaram que a legalização dos alambiques não representa apenas o cumprimento da legislação, mas também uma oportunidade de crescimento econômico.
A programação contou com palestras ministradas por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Federal de Lavras (Ufla) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que apresentaram pesquisas sobre qualidade da produção, segurança alimentar, inovação tecnológica e controle de qualidade.
Os participantes também conheceram iniciativas como a campanha "O Legal Merece um Brinde", desenvolvida pelo IMA para conscientizar consumidores e produtores sobre a importância da aquisição de bebidas registradas e produzidas dentro das normas sanitárias.
Caso de sucesso mostra benefícios da formalização
Um dos destaques do workshop foi o relato do produtor Douglas Moreira de Resende, proprietário da Cachaçaria Sô Nicó, localizada em Dores do Turvo (MG).
Assim como ocorreu por décadas em sua família, o alambique funcionava sem registro oficial até ser interditado temporariamente em 2019 durante uma fiscalização do IMA por falta de registro junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Após investimentos em estrutura, adequações técnicas e apoio da Emater, o empreendimento foi regularizado e passou a conquistar espaço no mercado nacional.
Hoje, a cachaçaria comercializa seus produtos em diversas regiões do Brasil, produz entre 25 mil e 30 mil litros por ano e já acumula 23 premiações nacionais e internacionais, demonstrando como a formalização pode transformar pequenos produtores em referências de qualidade.
Segundo Douglas, o acesso ao conhecimento científico oferecido pela universidade tem sido determinante para elevar o padrão da produção e ampliar a competitividade da bebida.
Além disso, ele destacou a importância da união entre os produtores da região de Viçosa, considerada uma das maiores áreas produtoras de cachaça do país, onde cerca de 77 produtores estão distribuídos em nove municípios.
Cachaça é alimento e precisa seguir padrões sanitários
O fiscal agropecuário do IMA, Wagner Dibai, ressaltou durante o evento que a cachaça deve ser tratada como qualquer outro alimento destinado ao consumo humano.
Segundo ele, o registro junto ao Ministério da Agricultura garante que toda a cadeia produtiva atenda às normas higiênico-sanitárias, assegurando qualidade, rastreabilidade e segurança ao consumidor.
Dibai também destacou que muitos produtores permanecem na informalidade por acreditarem que o processo de regularização aumenta excessivamente os custos de produção, quando, na prática, a formalização amplia oportunidades comerciais, melhora o posicionamento da marca e abre portas para novos mercados.
ABRABE reforça combate ao mercado ilegal
O workshop também contou com a participação da Associação Brasileira de Bebidas (ABRABE), que reforçou seu compromisso com o fortalecimento da produção regular e o combate ao mercado ilegal.
Representando a entidade, o coordenador adjunto do Comitê de Combate ao Mercado Ilegal, Gabriel Leôncio Lima, apresentou as ações desenvolvidas pela associação para incentivar a formalização dos produtores e ampliar a competitividade do setor.
Sua apresentação integrou o painel dedicado à busca pelo mercado legal, abordando mecanismos de fiscalização, apoio institucional e iniciativas voltadas à valorização da produção regulamentada.
Parceria fortalece cadeia produtiva da cachaça
Para a presidente-executiva da ABRABE, Cristiane Foja, a participação da entidade no evento reforça uma parceria consolidada com instituições públicas e privadas que atuam no desenvolvimento da cadeia produtiva da cachaça.
Segundo ela, o trabalho conjunto com o Instituto Mineiro de Agropecuária tem contribuído para elevar os padrões de qualidade da bebida e conscientizar produtores sobre a importância da legalidade.
A dirigente destacou que somente produtos registrados e produzidos conforme a legislação oferecem segurança ao consumidor e fortalecem a imagem da cachaça brasileira no mercado nacional e internacional.
Ciência, inovação e legalidade impulsionam o futuro da cachaça brasileira
Ao reunir universidades, órgãos de fiscalização, entidades representativas e produtores, o I Workshop da Cachaça Mineira consolidou-se como um espaço estratégico para aproximar ciência, tecnologia e tradição.
A iniciativa demonstra que o futuro da cachaça brasileira passa pela integração entre pesquisa, inovação, regularização e qualificação da produção, fatores considerados essenciais para ampliar mercados, agregar valor ao produto e fortalecer uma das bebidas mais tradicionais e representativas do agronegócio nacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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