Publicidade
Análise de Mercado

Biocombustíveis ampliam oferta de ração e fortalecem competitividade das carnes brasileiras

Estudo do RaboResearch aponta que expansão do etanol de milho, maior esmagamento de soja e crescimento do sorgo devem reduzir custos, diversificar a alimentação animal e impulsionar as exportações de carne bovina, suína e de frango


Publicado em: 11/09/2026 às 11:00hs

Biocombustíveis ampliam oferta de ração e fortalecem competitividade das carnes brasileiras

O avanço dos biocombustíveis, o aumento da produtividade agrícola e a ampliação do processamento de grãos estão transformando a cadeia de alimentação animal no Brasil. A maior disponibilidade de farelo de soja, grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS) e sorgo tende a fortalecer uma das principais vantagens competitivas da pecuária e da avicultura brasileiras: o acesso abundante a matérias-primas para a fabricação de rações.

A avaliação faz parte de um estudo divulgado pelo RaboResearch, elaborado pelos analistas Marcela Marini e Wagner Yanaguizawa. O relatório indica que o Brasil está deixando de atuar predominantemente como exportador de commodities agrícolas para se consolidar como uma potência integrada na produção de rações e proteínas animais.

Essa transformação poderá ampliar o valor agregado dentro do país, estimular investimentos industriais e sustentar o crescimento da produção e das exportações de carne bovina, suína e de frango nos próximos anos.

Brasil amplia liderança na produção de soja e milho

A elevada disponibilidade de soja e milho permanece como a base da competitividade brasileira no mercado de proteínas animais.

O Brasil assumiu a liderança mundial na produção de soja em 2020 e deverá responder por aproximadamente 42% da oferta global da oleaginosa em 2026. O crescimento tem sido sustentado pela ampliação da área cultivada e, principalmente, pelos ganhos de produtividade.

No milho, embora o país ainda produza menos que Estados Unidos e China, sua participação internacional continua aumentando. A projeção é de que o Brasil represente cerca de 10% da produção mundial em 2026.

Desde 2011, o país respondeu por quase 16% do crescimento da oferta global do cereal. No comércio internacional, a participação brasileira poderá alcançar aproximadamente 21% dos embarques mundiais na temporada 2025/26.

Biocombustíveis diversificam ingredientes utilizados nas rações

O crescimento do etanol de milho e o aumento gradual da mistura obrigatória de biodiesel estão acelerando o processamento de grãos no Brasil. Como consequência, cresce também a disponibilidade de coprodutos destinados à nutrição animal.

O principal destaque é o DDGS, ingrediente obtido durante a produção de etanol de milho e que reúne energia, proteína, fibras e outros nutrientes. Sua utilização permite substituir parcialmente o milho e o farelo de soja, dependendo da espécie, da composição da dieta e das condições de mercado.

Apesar de milho e farelo de soja ainda dominarem a formulação das rações brasileiras, a participação do cereal diminuiu entre 2017 e 2025. O movimento revela uma substituição gradual por coprodutos industriais e ingredientes alternativos.

No mesmo período, o farelo de soja manteve participação relativamente estável, preservando sua posição como principal fonte proteica da alimentação animal. DDGS, sorgo, derivados do trigo e caroço de algodão começaram a ganhar espaço, ainda que em proporções diferentes conforme a região e o sistema produtivo.

Produção de DDGS pode chegar a 8 milhões de toneladas

A oferta brasileira de DDGS aumentou, em média, 21% ao ano nos últimos cinco anos, acompanhando a rápida expansão das usinas de etanol de milho.

Segundo as projeções do RaboResearch, a produção do coproduto poderá atingir 8 milhões de toneladas em 2031. Esse crescimento ajudará a compensar parcialmente a redução do volume de milho disponível para utilização direta nas rações, uma vez que uma parcela maior do cereal será direcionada à indústria de biocombustíveis.

A expansão do DDGS não representa necessariamente um aumento integral na oferta total de grãos para alimentação animal. Seu principal efeito será ampliar as opções disponíveis aos nutricionistas, permitindo formulações mais flexíveis e potencialmente mais econômicas.

O ingrediente apresenta maior potencial de utilização em dietas de bovinos confinados, com possibilidade de inclusão equivalente a 20% a 30% da matéria seca. Na suinocultura, o percentual pode variar de 10% a 20%, enquanto na avicultura de corte tende a permanecer entre 5% e 15%.

As proporções dependem da qualidade do produto, das exigências nutricionais, da fase de criação e da relação de preços entre DDGS, milho e farelo de soja.

Biodiesel deve aumentar oferta de farelo de soja

A política brasileira de expansão do biodiesel também deverá modificar a disponibilidade de ingredientes para ração.

A Lei do Combustível do Futuro prevê que a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel alcance 20% até 2030. O RaboResearch considera que o cronograma poderá sofrer adiamentos, mas avalia que a ampliação da mistura deverá ocorrer mesmo com eventuais mudanças de prazo.

Para atender a uma mistura de 20%, o esmagamento brasileiro de soja poderia alcançar aproximadamente 69 milhões de toneladas. Nesse cenário, a produção de farelo de soja aumentaria cerca de 5 milhões de toneladas em comparação com o volume estimado para 2025.

A produção de diesel renovável, conhecido como HVO, também poderá ampliar a demanda por óleo de soja e estimular novos investimentos na capacidade de esmagamento.

Como a oferta de farelo tende a crescer mais rapidamente que a demanda, o ingrediente poderá permanecer em níveis competitivos de preço, favorecendo sua utilização pelas cadeias de proteína animal.

Sorgo pode atingir 10 milhões de toneladas até 2031

O sorgo também ganha importância como alternativa ao milho, especialmente no Centro-Oeste e nas regiões em que a distribuição das chuvas limita o cultivo da segunda safra.

O cereal pode ser utilizado quando atrasos no plantio ou na colheita da soja encurtam a janela ideal do milho safrinha. Com ciclo adaptável e maior tolerância a condições de restrição hídrica, o sorgo oferece uma alternativa para intensificar o uso das áreas agrícolas.

Na temporada 2025/26, a produção brasileira do cereal alcançou 6 milhões de toneladas. O RaboResearch projeta que esse volume poderá chegar a 10 milhões de toneladas em 2031.

Do ponto de vista nutricional, o sorgo fornece energia comparável à do milho e pode substituir parte do cereal nas dietas. Seu aproveitamento varia conforme a espécie animal, a qualidade dos grãos, o processamento e a relação de preços entre os ingredientes.

Irrigação será estratégica para o crescimento do milho

A expansão da produção brasileira de milho foi favorecida pela consolidação do sistema de duas safras na mesma área, principalmente com o cultivo da segunda safra depois da soja.

Para os próximos anos, o aumento da oferta não dependerá necessariamente da abertura de novas áreas, mas da intensificação do uso do solo e dos ganhos de produtividade.

Nesse cenário, a irrigação deverá exercer papel cada vez mais relevante nas regiões onde a distribuição irregular das chuvas ainda dificulta a obtenção de duas colheitas por ano.

Ao mesmo tempo, o crescimento da indústria de etanol tende a manter os preços do milho sustentados. A maior demanda industrial reforça a importância do DDGS, do sorgo e de outros ingredientes capazes de reduzir a dependência direta do cereal na formulação das rações.

Alimentação representa até 80% dos custos do confinamento

A diversificação é estratégica porque a alimentação constitui o maior custo operacional das principais cadeias de proteína animal.

Na pecuária bovina intensiva, os gastos com alimentação representam normalmente entre 70% e 80% do custo operacional do confinamento. Dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que o custo médio diário de alimentação de um bovino confinado em Mato Grosso alcançou aproximadamente R$ 13,62 por cabeça em junho de 2026.

A situação é semelhante nas cadeias de aves e suínos. Informações da Embrapa indicam que a alimentação respondeu por cerca de 72% dos custos operacionais da suinocultura em Santa Catarina no primeiro semestre de 2026.

Na produção de frangos de corte no Paraná, a participação das rações chegou a aproximadamente 63% dos custos no mesmo período.

Diante desse peso, pequenas variações nos preços dos ingredientes podem alterar significativamente as margens dos produtores. Uma base mais diversificada reduz a exposição a oscilações específicas do milho ou do farelo de soja e permite adaptar as dietas às condições regionais de oferta.

Oferta de ingredientes deve superar crescimento da demanda

As projeções do RaboResearch indicam que a disponibilidade de ingredientes não deverá limitar a expansão das cadeias brasileiras de proteína animal até 2031.

Mesmo considerando premissas conservadoras para a utilização de DDGS e sorgo, a oferta projetada permanece acima das necessidades do setor. O cenário reduz o risco de gargalos de abastecimento e oferece suporte ao crescimento da pecuária, da avicultura e da suinocultura.

Além de proteger as margens em períodos de valorização dos grãos, a flexibilidade na composição das rações poderá proporcionar ao Brasil aumentos de custos inferiores aos observados em países concorrentes.

Brasil tem participação expressiva no comércio mundial de carnes

A disponibilidade de insumos, as condições produtivas e a estrutura de custos já garantem ao Brasil uma posição relevante no mercado internacional de proteínas animais.

Na carne bovina, o país responde por aproximadamente 15% da produção mundial, mas concentra mais de 22% das exportações. No frango, a participação brasileira corresponde a cerca de 11% da produção e a quase 34% do comércio global.

Na carne suína, o Brasil representa aproximadamente 4,4% da produção mundial e 14,7% das exportações. A diferença entre a participação na produção e nos embarques evidencia a forte orientação exportadora das cadeias nacionais.

Nos últimos dez anos, a produção brasileira de carne bovina cresceu, em média, 3,3% ao ano, impulsionada principalmente pela demanda internacional. A carne suína avançou 4,6% ao ano, enquanto a produção de frango aumentou 2,1%, apoiada pelo consumo interno e pelos recordes de exportação.

Produtividade amplia eficiência da produção animal

O crescimento brasileiro não ocorreu apenas com o aumento dos rebanhos e alojamentos. Investimentos em genética, nutrição, sanidade, manejo e sistemas produtivos elevaram o peso médio das carcaças e permitiram produzir mais carne por animal.

Entre 1997 e 2025, o peso médio das carcaças bovinas aumentou aproximadamente 0,5% ao ano. Na avicultura, o avanço médio anual chegou a 0,9%, enquanto na suinocultura ficou em torno de 0,8%.

Embora pareçam moderados quando observados anualmente, esses ganhos produziram um avanço acumulado relevante na eficiência e na competitividade da produção brasileira.

Rastreabilidade e sustentabilidade serão determinantes

O estudo destaca que a competitividade futura não dependerá apenas de ingredientes abundantes e preços reduzidos. O acesso aos mercados também estará condicionado à capacidade de atender a exigências ambientais, sanitárias e de rastreabilidade.

Regulamentações internacionais, como a legislação antidesmatamento da União Europeia, ampliam as obrigações de monitoramento e comprovação de origem nas cadeias agropecuárias.

A adequação poderá elevar custos e exigir investimentos em sistemas de verificação. Por outro lado, os avanços brasileiros em produtividade, rastreabilidade e organização das cadeias podem abrir oportunidades para diferenciar produtos e conquistar mercados de maior valor agregado.

Integração entre grãos, energia e carnes fortalece o agronegócio

A expansão dos biocombustíveis cria uma relação cada vez mais próxima entre as cadeias de grãos, energia, alimentação animal e carnes.

O avanço do esmagamento de soja amplia a oferta de farelo, enquanto o etanol de milho aumenta a produção de DDGS. Paralelamente, o crescimento do sorgo oferece uma alternativa adicional para regiões e períodos em que o milho safrinha enfrenta limitações climáticas.

Essa integração permite que o Brasil processe uma parcela maior de sua produção agrícola, transforme grãos em energia e proteínas animais e capture mais valor dentro do próprio país.

Na avaliação do RaboResearch, a disponibilidade de insumos, os ganhos de produtividade e as perspectivas favoráveis para o consumo e as exportações fornecem uma base sólida para o crescimento do agronegócio. O Brasil avança, assim, para se consolidar não apenas como fornecedor mundial de soja e milho, mas como uma potência global integrada em rações, biocombustíveis e proteínas animais.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias