Agropecuária avança 561% no entorno de áreas protegidas da Amazônia, aponta MapBiomas
Atividade ocupa 40,2% da faixa de até 5 quilômetros das estradas do bioma; áreas protegidas mantêm 98% de vegetação nativa, segundo levantamento de 1985 a 2025.
Publicado em: 22/10/2026 às 17:30hs
A área ocupada pela agropecuária no entorno de áreas protegidas da Amazônia cresceu 561% entre 1985 e 2025, passando a representar 31% desse recorte territorial. Próximo às estradas, a presença da atividade também é expressiva: alcança 40,2% da faixa de até 5 quilômetros das vias, o equivalente a 63 milhões de hectares.
Os resultados integram a Coleção 11 do MapBiomas, que reúne mapas anuais de cobertura e uso da terra. O levantamento mostra diferenças entre territórios, concentração da ocupação agropecuária nas proximidades das estradas e manutenção de elevados percentuais de vegetação nativa dentro das áreas protegidas.
Em 2025, o bioma registrou 693 mil hectares de desmatamento, o menor valor da série analisada. O resultado anual, porém, contrasta com a transformação acumulada desde 1985, quando teve início o monitoramento.
Proximidade das estradas concentra ocupação agropecuária
A participação da agropecuária diminui conforme aumenta a distância considerada em relação às estradas. Na faixa de até 5 quilômetros, a atividade representa 40,2% da área. Quando o recorte é ampliado para até 20 quilômetros, essa proporção cai para 26,7%.
A vegetação nativa apresenta comportamento inverso: corresponde a 56,7% da faixa de até 5 quilômetros e a 69,3% da área situada a até 20 quilômetros das vias.
Entre as rodovias analisadas, os resultados também variam:
- BR-163: agropecuária ocupa 39% da faixa de até 20 quilômetros;
- BR-364: participação agropecuária chega a 43,5% nesse recorte;
- BR-319: vegetação nativa corresponde a 86% da área na mesma faixa.
O estudo identificou 618 mil quilômetros de estradas na Amazônia, dos quais 41,5 mil quilômetros estão dentro de áreas protegidas. A análise combina informações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do OpenStreetMap, incluindo vias que não integram a malha rodoviária oficial.
Segundo Bruno Ferreira, pesquisador do MapBiomas, estradas e acessos secundários ampliam a conexão com áreas antes isoladas e podem facilitar diferentes formas de ocupação. Por isso, a expansão da infraestrutura exige acompanhamento de seus efeitos sobre a vegetação nativa e os territórios protegidos.
Áreas protegidas conservam 98% de vegetação nativa
Enquanto o entorno apresenta avanço da ocupação agropecuária, as áreas protegidas mantêm 98% de sua cobertura formada por vegetação nativa. O grupo considerado no levantamento reúne Terras Indígenas, unidades de conservação e terras quilombolas.
Para Ives Brandão, integrante da equipe da Amazônia do MapBiomas, esses territórios funcionam como barreiras à transformação da paisagem, preservando grandes extensões de vegetação.
O pesquisador ressalta que a aproximação de estradas e atividades econômicas aumenta as pressões sobre seus limites, reforçando a importância de políticas e condições que sustentem a conservação.
Desmatamento cai em 2025, mas perda acumulada chega a 54,7 milhões de hectares
Dos 693 mil hectares desmatados em 2025, aproximadamente 639 mil hectares, ou 92%, correspondiam à vegetação primária. Outros 54 mil hectares eram de vegetação secundária.
A vegetação secundária ocupa 7,3 milhões de hectares, cerca de 2% da cobertura nativa do bioma. Segundo o levantamento, essa área cresce, em média, 180 mil hectares por ano.
No acumulado de 1985 a 2025, a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa. A formação florestal, uma das classes mapeadas, apresentou redução de aproximadamente 49,7 milhões de hectares, equivalente a 14,8%.
Somadas, formação florestal e floresta alagável responderam por 96% da vegetação nativa perdida no período.
A área acumulada de conversão para usos antrópicos — associados à ação humana — aumentou 492%, atingindo 74,6 milhões de hectares. Desse total, 83% correspondem a conversões ocorridas ao longo das quatro décadas analisadas.
Pastagem é o principal uso identificado após o desmatamento
A agropecuária ocupava 65,3 milhões de hectares em 2025, equivalentes a 15,5% do bioma Amazônia. A área da atividade cresceu 440% desde 1985.
As pastagens representavam a maior parcela, com 50,8 milhões de hectares, ou 12% do bioma. Sua expansão no período foi de 556%.
Segundo o MapBiomas, a pastagem foi o primeiro uso identificado, em média, em 77% dos casos após a retirada da vegetação nativa. Ao final da série, 37,7 milhões de hectares dessas áreas permaneciam como pastagem.
Parte dos terrenos inicialmente destinados à pecuária passou posteriormente à agricultura. Essa transição alcançou 3,7 milhões de hectares, equivalentes a 6,2% das áreas desmatadas mapeadas, com concentração principalmente em Mato Grosso, Rondônia e Pará.
Agricultura chega a 8,6 milhões de hectares no bioma
A área agrícola passou de 161 mil hectares em 1985 para 8,6 milhões de hectares em 2025, quando representava aproximadamente 2% da Amazônia.
Nesse intervalo, a soja avançou de 1,4 mil hectares para 7 milhões de hectares, consolidando sua presença nas áreas agrícolas do bioma.
Os dados se referem aos limites do bioma Amazônia, e não à totalidade dos estados que possuem áreas dentro dele.
Amacro concentra perdas recentes de vegetação
Na região conhecida como Amacro, que reúne municípios do Amazonas, Acre e Rondônia, a vegetação nativa diminuiu cerca de 7 milhões de hectares desde 1985, redução de 16%.
Embora corresponda a 11% da área do bioma, a região concentrou 13% de toda a perda de vegetação nativa registrada no período.
A última década respondeu pela maior perda regional: foram 2,7 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Desde o início da série, a área de pastagem ficou aproximadamente 15 vezes maior, com acréscimo de 6,6 milhões de hectares.
Cobertura nativa varia entre categorias territoriais e estados
As Terras Indígenas mantinham 98,9% de sua área coberta por vegetação nativa em 2025. Nos imóveis rurais, a agropecuária ocupava 38,8% da área.
Já nas terras públicas ou sem registro fundiário georreferenciado, a vegetação nativa correspondia a 76,4%, enquanto a agropecuária representava 21,5%.
Considerando somente a parcela de cada estado inserida no bioma, o Amapá apresentava a maior proporção de vegetação nativa, com 95,5%, seguido por Amazonas, com 94,6%; Roraima, com 92,3%; e Acre, com 84,2%.
Os menores percentuais foram registrados no Tocantins, com 24,6%; Maranhão, com 49,8%; Rondônia, com 59,1%; e Mato Grosso, com 61,7%.
Áreas úmidas encolhem e mineração amplia presença
As áreas úmidas da Amazônia somavam 59,8 milhões de hectares em 2025, redução de 2,7 milhões de hectares, ou 4,4%, em relação a 1985. Essa categoria reúne rios, lagos, florestas alagáveis, campos alagados, mangues e apicuns.
Os dez menores registros anuais de extensão dessas áreas ocorreram na última década. Entre as áreas úmidas convertidas para outros usos ao longo da série, 60% passaram a ser pastagem.
A mineração também ampliou sua ocupação territorial, passando de 32 mil hectares em 1985 para 440 mil hectares em 2025, quase 14 vezes a extensão inicial. Do total acumulado de área de mineração, 47% foi aberto nos últimos dez anos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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