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Análise de Mercado

Agronegócio brasileiro enfrenta desafios comerciais em 2027 com tarifas dos EUA, dependência da China e mercado argentino

Com US$ 133,6 bilhões em exportações até setembro de 2026, setor terá de acompanhar mudanças tarifárias, concentração das vendas na China e condições de comércio com a Argentina para preservar competitividade e ampliar mercados internacionais


Publicado em: 05/11/2026 às 16:00hs

Agronegócio brasileiro enfrenta desafios comerciais em 2027 com tarifas dos EUA, dependência da China e mercado argentino

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República coloca as relações comerciais com Estados Unidos, China e Argentina entre os principais pontos de atenção do agronegócio brasileiro para 2027. O setor inicia o próximo período em um ambiente marcado por disputas tarifárias, concentração das exportações em determinados destinos e mudanças nas condições econômicas dos principais parceiros comerciais.

O desafio para produtores, cooperativas e empresas exportadoras será acompanhar as decisões de política comercial, avaliar os riscos de cada mercado e estruturar operações capazes de responder a possíveis alterações nos custos e nas condições de acesso internacional.

Os números demonstram a dimensão desse cenário. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro de 2026.

A China liderou as compras, com US$ 44,06 bilhões, seguida pela União Europeia, com US$ 20,2 bilhões, e pelos Estados Unidos, com US$ 7,98 bilhões. Entre os principais segmentos exportadores estiveram o complexo soja, as carnes, os produtos florestais, o café e o complexo sucroalcooleiro.

Para Anna Dolores Sá Malta, advogada especialista em comércio exterior, presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior e ex-conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), o planejamento das empresas precisa considerar as decisões comerciais dos principais parceiros do Brasil, independentemente das relações diplomáticas entre os governos.

Segundo a especialista, mudanças tarifárias, alterações na demanda internacional e novas exigências de importação podem afetar diretamente os custos e a competitividade dos produtos brasileiros.

Exportações brasileiras apresentam comportamentos diferentes entre os mercados

Os dados gerais do comércio exterior mostram trajetórias distintas nas relações comerciais do Brasil com seus principais parceiros.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações totais brasileiras cresceram 10,4% entre janeiro e setembro de 2026, alcançando US$ 284,65 bilhões.

No período, as vendas para a China avançaram 12%, enquanto os embarques destinados aos Estados Unidos recuaram 6,5%. Para a Argentina, a redução foi de 18,5%.

Os percentuais abrangem todos os setores da economia brasileira, e não exclusivamente o agronegócio. Ainda assim, ajudam a dimensionar as diferentes condições comerciais enfrentadas pelo país nos principais destinos de suas exportações.

Tarifas dos Estados Unidos aumentam atenção dos exportadores do agronegócio

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos passou por mudanças importantes desde 2025, quando o governo de Donald Trump adotou medidas tarifárias que atingiram diferentes produtos brasileiros.

Os efeitos permaneceram ao longo de 2026. Levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) aponta que as exportações brasileiras para o mercado norte-americano somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto, uma queda de 9,7% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.

Na agropecuária, a retração das vendas aos Estados Unidos chegou a 26,7% no período. Em sentido contrário, os embarques do setor para os demais mercados cresceram 9,5%.

O desempenho reforça a importância de acompanhar as condições de acesso ao mercado norte-americano. As variações, entretanto, também dependem de fatores como preços internacionais, demanda e disponibilidade dos produtos.

Para Anna Dolores Sá Malta, as mudanças nas tarifas exigem atenção especial à elaboração dos contratos internacionais.

A especialista destaca que os exportadores precisam definir previamente quem será responsável por eventuais sobretaxas, quais custos caberão a cada parte e como serão tratadas alterações que possam comprometer a rentabilidade da operação.

China concentra compras e mantém importância estratégica para o agro brasileiro

Enquanto o mercado norte-americano apresenta desafios relacionados às tarifas, a China continua sendo o principal destino das exportações do agronegócio brasileiro.

Entre janeiro e setembro de 2026, o país asiático respondeu por aproximadamente um terço do valor exportado pelo setor, conforme os dados do Mapa. A participação é especialmente relevante nas cadeias da soja e das carnes.

A concentração das vendas em um mercado de grande escala oferece oportunidades comerciais, mas também expõe os exportadores às mudanças na demanda chinesa, às exigências sanitárias e às condições de negociação.

Outro fator de atenção envolve as relações comerciais entre Pequim e Washington. Alterações nas compras chinesas de produtos agrícolas norte-americanos podem modificar a concorrência internacional e influenciar os fluxos de comércio de commodities.

Na avaliação de Anna Dolores, ampliar os destinos das exportações é uma estratégia importante para reduzir a exposição das empresas às oscilações de um número limitado de compradores.

A diversificação permite distribuir riscos comerciais e ampliar as alternativas de negociação para diferentes cadeias produtivas.

Comércio com a Argentina exige atenção às condições do Mercosul

A relação com a Argentina também integra a agenda comercial do agronegócio para 2027. Sob o governo de Javier Milei, o país vizinho mantém relações econômicas relevantes com o Brasil e participa do Mercosul.

A redução de 18,5% nas exportações brasileiras para o mercado argentino entre janeiro e setembro de 2026 reforça a necessidade de acompanhar a demanda local e as condições do comércio regional.

O resultado, porém, não deve ser atribuído exclusivamente às diferenças políticas entre os governos. Fatores econômicos, capacidade de importação e condições de pagamento também influenciam o desempenho das operações.

Para a especialista em comércio exterior, os compromissos assumidos no Mercosul continuam sendo referência para as relações comerciais entre os dois países.

As empresas precisam observar eventuais mudanças regulatórias, regras do bloco, condições de pagamento e capacidade de compra do mercado argentino para avaliar os riscos de cada negociação.

Acordos comerciais podem ampliar oportunidades para produtos brasileiros

Além das relações com Estados Unidos, China e Argentina, a agenda de comércio exterior para 2027 inclui a abertura de novos mercados e o aproveitamento de acordos internacionais.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Brasil alcançou 700 novas aberturas de mercado para produtos agropecuários em 99 destinos desde 2023.

O número representa autorizações de acesso para produtos específicos, não necessariamente vendas efetivamente realizadas. Mesmo assim, demonstra a ampliação das possibilidades comerciais para diferentes cadeias do agronegócio.

Entre as iniciativas está o acordo Mercosul–EFTA, que estabelece condições preferenciais de comércio com países europeus. Conforme as informações apresentadas, a aplicação dos benefícios começou em outubro para a Islândia e está prevista para novembro na Noruega.

Para os exportadores brasileiros, o aproveitamento dessas condições depende do cumprimento das regras de origem, das exigências sanitárias e dos procedimentos necessários para utilizar as preferências tarifárias.

Anna Dolores ressalta que a existência de um acordo não garante automaticamente benefícios para todas as operações. É necessário verificar se o produto está contemplado e atender às exigências documentais e regulatórias.

Mudanças tarifárias exigem contratos internacionais mais preparados

O histórico recente das medidas comerciais dos Estados Unidos demonstra como as condições de acesso podem variar conforme o produto e sua classificação tarifária.

Em julho de 2026, os norte-americanos estabeleceram novas sobretaxas que, combinadas, chegaram a 37,5% para determinados produtos brasileiros.

Ao mesmo tempo, carnes e cafés apareceram em listas de exceções. Também foi anunciada uma cota temporária adicional de 300 mil toneladas para determinadas importações de carne bovina, válida entre setembro e novembro.

As diferenças de tratamento mostram que os exportadores precisam acompanhar as regras específicas aplicáveis a cada mercadoria, evitando considerar que uma mesma tarifa ou condição comercial vale para todos os produtos.

Nesse ambiente, a estruturação dos contratos internacionais ganha importância. Entre os pontos que merecem atenção estão:

  • Responsabilidade pelo pagamento de alterações tarifárias;
  • Distribuição dos custos de importação;
  • Prazos e condições de entrega;
  • Regras e garantias de pagamento;
  • Mecanismos para solucionar controvérsias;
  • Procedimentos diante de mudanças regulatórias.

Essas cláusulas ajudam a estabelecer como os riscos serão distribuídos entre compradores e vendedores e podem reduzir incertezas durante a execução dos negócios.

Diversificação de mercados passa a integrar o planejamento das empresas

A ampliação dos destinos comerciais é outro caminho para reduzir a concentração das receitas em poucos mercados. Entretanto, entrar em novos países exige avaliar a viabilidade econômica e operacional de cada destino.

Custos logísticos, habilitações sanitárias, certificações, regras de origem e exigências documentais precisam fazer parte do planejamento antes da negociação.

Para Anna Dolores Sá Malta, a preparação jurídica e comercial será determinante para as empresas que pretendem ampliar sua presença internacional.

A especialista avalia que os exportadores precisam acompanhar mudanças tarifárias, revisar contratos e conhecer as exigências específicas de cada mercado para proteger a rentabilidade das operações.

Agronegócio encerrou 2025 com US$ 169,1 bilhões em exportações

O desempenho internacional do setor demonstra a relevância do comércio exterior para o agronegócio brasileiro. Em 2025, as vendas externas do segmento alcançaram aproximadamente US$ 169,1 bilhões.

Para 2027, a continuidade da presença brasileira nos mercados internacionais dependerá também das condições estabelecidas pelos parceiros comerciais e da capacidade das empresas de responder às mudanças regulatórias e econômicas.

A reeleição de Lula representa continuidade na Presidência da República, mas os efeitos sobre as exportações dependerão de uma combinação de fatores, incluindo as políticas comerciais dos Estados Unidos, a demanda chinesa, as condições econômicas da Argentina e o aproveitamento de acordos internacionais.

O cenário coloca a diversificação de destinos, a segurança jurídica e o planejamento contratual entre os pontos centrais da estratégia das empresas exportadoras.

Como destaca Anna Dolores Sá Malta, a capacidade produtiva brasileira precisa estar acompanhada de relações comerciais estruturadas, cumprimento das exigências regulatórias e contratos preparados para lidar com as incertezas do comércio internacional.

Fonte: Portal do Agronegócio

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