Tarifa dos EUA agrava crise na indústria da madeira e acelera busca por novos mercados e investimentos no Brasil
Sobretaxa de até 25% imposta pelos Estados Unidos amplia perdas nas exportações brasileiras de madeira, pressiona empresas do setor e reforça a necessidade de diversificação de mercados, produtos e fortalecimento da demanda interna
Publicado em: 27/07/2026 às 17:00hs
A nova tarifa de importação aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos industriais e manufaturados brasileiros representa um novo desafio para a indústria nacional da madeira. Em vigor desde 22 de julho de 2026, a sobretaxa adicional de 25% amplia as dificuldades de um setor que já vinha enfrentando queda nas exportações, perda de competitividade internacional e redução da demanda em mercados estratégicos.
A medida, adotada pelo governo norte-americano após investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial dos EUA, atinge produtos brasileiros que não integram a lista oficial de exceções. Nos primeiros dias de vigência, alguns itens chegaram a enfrentar uma tributação total de até 35%, devido à sobreposição temporária com outra tarifa de 10%, prevista para expirar em 24 de julho.
Exportações de madeira já registravam forte retração
Mesmo antes da nova barreira comercial, o desempenho das exportações brasileiras de produtos de madeira já apresentava deterioração.
Levantamento da WoodFlow, considerando os dez principais produtos da pauta exportadora do setor, mostra que os embarques somaram US$ 855,2 milhões no primeiro semestre de 2026, contra US$ 929,5 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.
O resultado representa uma retração de aproximadamente 8% em valor e 6% em volume, evidenciando que a perda de competitividade antecede a nova tarifa norte-americana.
Quando analisados exclusivamente os produtos destinados aos Estados Unidos, a situação é ainda mais preocupante. Os dados indicam redução de 33% nas exportações durante o primeiro semestre deste ano.
Empresas enfrentam contratos suspensos e perda de competitividade
Segundo o CEO da WoodFlow, Gustavo Milazzo, a indústria brasileira já operava em um ambiente de forte instabilidade antes da adoção das novas tarifas.
De acordo com o executivo, empresas brasileiras vêm perdendo espaço para concorrentes como Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e México, enquanto parte da indústria enfrenta contratos suspensos, margens negativas e até adoção de férias coletivas para reduzir custos.
O cenário reforça a pressão sobre um segmento altamente dependente do mercado norte-americano.
Produtos de maior valor agregado são os mais afetados
Análise apresentada pelo head de Desenvolvimento Estratégico da STCP, Marcelo Wiecheteck, mostra que sete dos principais produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos acumulavam perdas próximas de US$ 351 milhões ainda no primeiro semestre de 2026.
Entre os destaques negativos está a madeira serrada de pinus, que registrou redução de 37% no volume exportado e 41% no faturamento em comparação com 2025.
Segundo o especialista, molduras e produtos industrializados de maior valor agregado também sofreram retrações próximas de 40%, evidenciando o impacto sobre segmentos de maior rentabilidade para a indústria nacional.
Diversificação de mercados exigirá investimentos
Especialistas avaliam que substituir o mercado norte-americano não será uma tarefa simples.
Grande parte das indústrias brasileiras foi estruturada para atender às especificações técnicas, padrões construtivos e exigências comerciais dos Estados Unidos. Dessa forma, acessar novos mercados exige adaptações industriais, desenvolvimento de novos produtos, certificações e investimentos em tecnologia.
Para o diretor da Águia Florestal e presidente do Sindimadeira Ponta Grossa, Álvaro Scheffer Junior, empresas altamente concentradas no mercado americano precisam reestruturar parte da produção.
Segundo ele, competir em novos países significa disputar espaço com fornecedores já consolidados, exigindo ganhos de produtividade, automação e diferenciação tecnológica.
Ásia, Europa e Oriente Médio aparecem como alternativas
Embora países da Ásia, Europa, América Latina e Oriente Médio sejam considerados mercados promissores, especialistas alertam que nenhum deles possui capacidade imediata para absorver o volume atualmente destinado aos Estados Unidos.
Além disso, mercados como a China já recebem forte oferta internacional, aumentando a concorrência.
A expectativa é que futuras reconstruções de regiões afetadas por conflitos internacionais possam abrir novas oportunidades para produtos brasileiros, desde que atendam às exigências técnicas desses mercados.
Governo anuncia R$ 18,5 bilhões para apoiar empresas exportadoras
Como resposta aos impactos provocados pelas novas tarifas, o governo brasileiro anunciou uma linha de R$ 18,5 bilhões destinada ao apoio das empresas afetadas.
Os recursos deverão contemplar:
- Capital de giro;
- Aquisição de máquinas e equipamentos;
- Investimentos produtivos;
- Expansão para novos mercados internacionais.
Parte das medidas, entretanto, ainda depende de regulamentação para entrar efetivamente em operação.
Mercado interno ganha protagonismo para o setor florestal
A crise também fortalece uma discussão antiga dentro da cadeia florestal: ampliar o consumo de madeira no mercado brasileiro.
Especialistas defendem que o país reúne vantagens competitivas importantes, como elevada produtividade florestal, genética avançada, tecnologia e mais de seis décadas de desenvolvimento industrial.
O principal desafio passa a ser ampliar o uso da madeira na construção civil, substituindo materiais mais intensivos em emissões de carbono.
Construção civil pode impulsionar demanda por madeira engenheirada
O déficit habitacional brasileiro, estimado em aproximadamente 5,77 milhões de moradias, aliado às metas globais de descarbonização da construção civil, abre espaço para soluções baseadas em madeira engenheirada.
Entre elas, destaca-se o CLT (Cross Laminated Timber), tecnologia que permite a construção de edifícios, residências e estruturas de médio e grande porte utilizando painéis estruturais de madeira.
A Águia Florestal já investe nesse segmento. A empresa implantou uma linha de produção de CLT com capacidade para fabricar componentes destinados à construção de até quatro residências por dia, reduzindo significativamente o tempo de montagem das obras.
Setor aposta em inovação para reduzir dependência dos EUA
Na avaliação de empresários e especialistas, a atual crise acelera uma transformação considerada inevitável para a indústria brasileira da madeira.
Além de ampliar sua presença em novos mercados internacionais, o setor deverá investir em produtos de maior valor agregado, inovação industrial e expansão da demanda doméstica.
Embora o mercado interno ainda não tenha capacidade para substituir integralmente as exportações destinadas aos Estados Unidos, sua consolidação é vista como estratégica para reduzir a vulnerabilidade da cadeia florestal diante de mudanças nas políticas comerciais globais.
A combinação entre diversificação geográfica, inovação tecnológica, industrialização da madeira e fortalecimento da construção sustentável deverá definir os próximos passos da indústria brasileira em um cenário internacional cada vez mais competitivo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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